Quando o silêncio do Calvário desmascara o barulho do poder ovdia escurece.
Não apenas no céu — mas nas consciências.
O madeiro se levanta. Um corpo é pregado. E, no alto da cruz, Jesus Cristo não grita por vingança. Não convoca exércitos. Não fabrica versões.
Permanece.
E esse silêncio atravessa os séculos como denúncia.
Porque, enquanto a cruz revela a verdade nua do amor que se entrega, muitos sistemas continuam a vestir a mentira com roupas de verdade. Narrativas são construídas, fatos são distorcidos, versões são repetidas até parecerem realidade. Não para libertar — mas para controlar.
A cruz, porém, não mente.
Ali não há propaganda.
Não há manipulação.
Não há “fake news”.
Há um inocente condenado por interesses políticos, religiosos e sociais. Há um julgamento apressado. Há multidões influenciadas. Há líderes que lavam as mãos.
E tudo isso não ficou no passado.
A cada tempo, novos tribunais se levantam. Novas condenações são feitas sem verdade. A mentira ganha força quando repetida, e a justiça se enfraquece quando negociada. O que antes era grito de “Crucifica-o!” agora ecoa em manchetes distorcidas, em discursos inflamados, em mensagens espalhadas como veneno.
E o mais inquietante: o nome de Deus ainda é usado.
Há quem transforme fé em instrumento de dominação. Líderes que falam alto, apontam culpados, criam inimigos, dividem o mundo entre “puros” e “impuros”. Um fundamentalismo que não gera vida, mas medo. Que não aproxima, mas afasta. Que não cura, mas fere.
Mas o Cristo da cruz não exclui.
Não manipula.
Não oprime.
Na cruz, não há espetáculo. Há entrega.
Enquanto isso, os regimes da guerra continuam seu curso. Decidem quem vive e quem morre. Chamam destruição de estratégia. Chamam violência de solução. E o sangue derramado se torna apenas número, estatística, dano colateral.
Mas cada gota de sangue humano contradiz a cruz.
Porque o sangue de Cristo não é derramado para justificar guerras — é derramado para encerrá-las. Não é sinal de poder — é sinal de amor levado até o extremo.
A cruz desmonta todos esses sistemas.
Desmonta a política construída sobre mentira.
Desmonta a religião que se alimenta do medo.
Desmonta o poder que se sustenta na morte.
E faz uma pergunta incômoda:
De que lado se está?
Do lado dos que fabricam verdades convenientes…
ou do lado da verdade que custa caro?
Do lado dos que usam a fé para dominar…
ou do lado do Cristo que serve até o fim?
Do lado dos que promovem a guerra…
ou do lado do amor que se deixa ferir para não ferir ninguém?
A Sexta-feira Santa não permite neutralidade.
O Crucificado não é apenas objeto de devoção.
É critério.
Critério que julga consciências, estruturas, discursos.
Critério que revela o que é luz e o que é treva.
E talvez por isso incomode tanto.
Porque olhar para a cruz é perder as desculpas.
É ver que o amor verdadeiro não negocia a verdade.
Não se alia à mentira.
Não compactua com a violência.
No alto do madeiro, quando tudo parece derrota, ressoa uma palavra:
“Tudo está consumado.”
Não como fim… mas como vitória.
Vitória que não nasce da força,
mas da fidelidade.
Não da imposição,
mas da entrega.
E ali, onde o mundo enxerga fracasso, Deus revela o seu Reino.
Um Reino sem fake news,
sem manipulação religiosa,
sem guerra.
Um Reino onde a verdade não precisa gritar,
porque simplesmente é.
E continua sendo.
Silenciosa.
Firme.
E eterna.
Amém.
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