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sábado, 21 de janeiro de 2012

Os casais homoafetivos e a Bíblia

Os gays e a Bíblia
É no mínimo surpreendente constatar as pressões sobre o Senado para evitar a lei que criminaliza a homofobia. Sofrem de amnésia os que insistem em segregar, discriminar, satanizar e condenar os casais homoafetivos.

No tempo de Jesus, os segregados eram os pagãos, os doentes, os que exerciam determinadas atividades profissionais, como açougueiros e fiscais de renda. Com todos esses Jesus teve uma atitude inclusiva. Mais tarde, vitimizaram indígenas, negros, hereges e judeus. Hoje, homossexuais, muçulmanos e migrantes pobres (incluídas as “pessoas diferenciadas”...).

Relações entre pessoas do mesmo sexo ainda são ilegais em mais de 80 nações. Em alguns países islâmicos elas são punidas com castigos físicos ou pena de morte (Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Nigéria etc).

No 60º aniversário da Decclaração Universal dos Direitos Humanos, em 2008, 27 países membros da União Europeia assinaram resolução à ONU pela “despenalização universal da homossexualidade”.

A Igreja Católica deu um pequeno passo adiante ao incluir no seu Catecismo a exigência de se evitar qualquer discriminação a homossexuais. No entanto, silenciam as autoridades eclesiásticas quando se trata de se pronunciar contra a homofobia. E, no entanto, se escutou sua discordância à decisão do STF ao aprovar o direito de união civil dos homoafetivos.

Ninguém escolhe ser homo ou heterossexual. A pessoa nasce assim. E, à luz do Evangelho, a Igreja não tem o direito de encarar ninguém como homo ou hétero, e sim como filho de Deus, chamado à comunhão com Ele e com o próximo, destinatário da graça divina.

São alarmantes os índices de agressões e assassinatos de homossexuais no Brasil. A urgência de uma lei contra a homofobia não se justifica apenas pela violência física sofrida por travestis, transexuais, lésbicas etc. Mais grave é a violência simbólica, que instaura procedimento social e fomenta a cultura da satanização.

A Igreja Católica já não condena homossexuais, mas impede que eles manifestem o seu amor por pessoas do mesmo sexo. Ora, todo amor não decorre de Deus? Não diz a Carta de João (I,7) que “quem ama conhece a Deus” (observe que João não diz que quem conhece a Deus ama...).

Por que fingir ignorar que o amor exige união e querer que essa união permaneça à margem da lei? No matrimônio são os noivos os verdadeiros ministros. E não o padre, como muitos imaginam. Pode a teologia negar a essencial sacramentalidade da união de duas pessoas que se amam, ainda que do mesmo sexo?

Ora, direis ouvir a Bíblia! Sim, no contexto patriarcal em que foi escrita seria estranho aprovar o homossexualismo. Mas muitas passagens o subtendem, como o amor entre Davi por Jônatas (I Samuel 18), o centurião romano interessado na cura de seu servo (Lucas 7) e os “eunucos de nascença” (Mateus 19). E a tomar a Bíblia literalmente, teríamos que passar ao fio da espada todos que professam crenças diferentes da nossa e odiar pai e mãe para verdadeiramente seguir a Jesus.

Há que passar da hermenêutica singularizadora para a hermenêutica pluralizadora. Ontem, a Igreja Católica acusava os judeus de assassinos de Jesus; condenava ao limbo crianças mortas sem batismo; considerava legítima a escravidão e censurava o empréstimo a juros. Por que excluir casais homoafetivos de direitos civis e religiosos?

Pecado é aceitar os mecanismos de exclusão e selecionar seres humanos por fatores biológicos, raciais, étnicos ou sexuais. Todos são filhos amados por Deus. Todos têm como vocação essencial amar e ser amados. A lei é feita para a pessoa, insiste Jesus, e não a pessoa para a lei.
Autor: Frei Betto



http://amaivos.uol.com.br/amaivos09/noticia/noticia.asp?cod_Canal=53&cod_noticia=18026

sábado, 4 de setembro de 2010

Mês da Bíblia 2010 - Profeta Jonas; conversão e missão!

Mês da Bíblia 2010


Jonas: conversão e missão.

“Levanta-te e vai a grande cidade” (Jn 1,2)

O mês de setembro é, para os cristãos católicos, o mês da Bíblia, período de valorização da leitura, do estudo e da contemplação do texto sagrado mais divulgado no planeta. No ano de 2010, então, a proposta de leitura e estudo é a do livro de Jonas, acentuando a evangelização e missão na cidade.

A personalidade de Jonas expressa no 19º livro da Bíblia é sugestiva para nós nos dias de hoje. Jonas, o que foi engolido “por uma baleia” (grande peixe), é caracterizado nesse livro bíblico como um homem de mente aberta e visão de que o amor e a misericórdia de Deus são para todos. Sua profecia é criativa e denuncia com radicais argumentos a ideia de exclusividade de Deus pelos judeus. Para Jonas, todo homem é digno do amor de Deus. Talvez aqui resida a importância da escolha do livro de Jonas para o mês da Bíblia, pois não será o século XXI, com tantos discursos religiosos, a era da exclusão?

A diversidade religiosa hoje é inegável, pequenos e muitos grupos atribuem-se a pertença ao Deus verdadeiro, como se fossem exclusivos e cujo testemunho consiste em “ter Deus” só para si. Também assim era a sociedade no tempo de Jonas. Vivia-se a fé em Deus de forma intimista, exclusivista, sem a possibilidade missionária de tornar Deus conhecido na relação com os outros e, sobretudo, viviam a fé na vida cotidiana, sem Deus.

Jonas, nome que significa “pomba” e, na raiz hebraica, “chorar, reclamar, lamentar”, protagoniza o ser desobediente e intransigente à palavra de Deus, que encerra em sua missão a paz. Parece contraditório, mas ao mesmo tempo em que afirma ser Deus o criador da terra e do mar, coloca-se em fuga desse Deus. Profetiza o amor de Deus por todos, mas renuncia ser amado por Ele. Quando tomado pela misericórdia divina, é forçado a reconhecer que Ele o ama, porém nem todos o conhecem, porque não há quem o anuncie. Assim, reconhecer a misericórdia de Deus por todos, sem acepção de pessoas, fá-lo amado por Ele e preconiza o anúncio de que seu amor e sua misericórdia não são excludentes.

Ler o profeta Jonas é assumir a postura do protagonista deste livro, é deixar-se conduzir, mesmo que na lamentação, pela possibilidade de acolher um Deus que é amor, um Deus cuja predileção não está por este ou aquele povo, mas por todos. A soberania da palavra de Deus é que impera do princípio ao fim, ecoando por todos os cantos, e só retorna a Ele depois de produzir seus efeitos. Assim Nínive, “a grande cidade”, é a escolhida para a ação de Jonas e manifestação do poder de Deus. Para mostrar sua conversão, os ninivitas assumiram posturas externas, manifestando mudança em seus hábitos sociais, políticos e religiosos. Deixaram uma vida fundada na iniquidade e assumiram princípios geradores de uma vida nova.

Ao mesmo tempo em que denuncia o pecado dos ninivitas e anuncia a vida nova, Jonas quer fugir, pois Deus é misericórdia e certamente não condenaria os ninivitas. Daí o desespero de Jonas e seu desejo pela morte: Deus é misericórdia, incapaz de condenar, de castigar e por tão grande amor, é incompreendido por Jonas.

Belíssima trama a do livro de Jonas! Você o conhece? O que ele quer nos dizer, hoje? O livro de Jonas termina de forma abrupta, como o texto acima, isso é próprio do gênero profético literário empregado: a ironia. Cabem, pois, algumas proposições para nossa reflexão: Qual é a característica de uma grande cidade, no século XXI? Os “atuais” Jonas o são, em nome próprio ou são profetas: falam em nome de Deus?Se para Deus não há povo predileto, por que ser dessa ou daquela religião? Jonas evangelizou evangelizando-se. Como podemos fazer isso hoje? O Jonas que “está em você” deixa-se corrigir e conduzir pela Palavra de Deus? Morte e vida, duelo de nossa existência inevitável, como enfrentar a negação da vida e da morte nos dias atuais? Se o profeta denunciava a podridão dos Ninivitas, por que não aceitou a sua conversão?

Para melhor conhecer a trama de Jonas, leia o livro do profeta na Bíblia; e como suporte para seu estudo, a Conferência dos Bispos do Brasil disponibiliza no site http://www.cnbb.org.br/site/component/docman/doc_download/1090-texto-base-mes-da-biblia-2010 um artigo de Aila Luzia Pinheiro de Andrade, que muito contribui para a compreensão do tema sugerido no mês da Bíblia.


J. A. Galiani
http://professorgaliani.blogspot.com/