sábado, 31 de outubro de 2026

VOTEI CONTRA A MÃE!

 Quando a política transforma Jesus em palanque e o católico se esquece da própria história

O Estado brasileiro é laico. Isso não significa que seja ateu, que deva expulsar a religião da vida pública ou que os cidadãos precisem abandonar suas convicções religiosas quando entram na política. Estado laico significa que nenhuma religião é dona do Estado, que nenhuma Igreja pode impor sua fé à totalidade da população e que todas as crenças devem ter liberdade para existir, manifestar-se e dialogar com a sociedade.

Afinal, quem ocupa o Legislativo, o Executivo ou participa de partidos políticos não deixa suas convicções religiosas, morais e éticas na porta do Congresso. Cada pessoa carrega consigo sua história, seus valores e suas crenças. É por isso que temos, inclusive, a conhecida bancada evangélica na Câmara dos Deputados e no Senado Federal.

O problema não está na presença de pessoas religiosas na política. O problema começa quando a religião deixa de ser fonte de valores para se transformar em instrumento de dominação; quando Deus passa a ser propriedade de um partido e Jesus se transforma em cabo eleitoral.

Nas eleições presidenciais de 2026, assistimos a uma situação particularmente preocupante: igrejas transformadas em palanques, discursos religiosos utilizados como propaganda eleitoral e lideranças religiosas ocupando espaços de destaque não necessariamente pela profundidade de sua fé, mas pela capacidade de mobilizar eleitores. Jesus foi chamado para o palanque, enquanto o Evangelho, muitas vezes, ficou esquecido do lado de fora.

É nesse cenário que dirijo uma provocação aos cristãos, especialmente àqueles que professam a fé católica apostólica romana:

VOTEI CONTRA A MÃE!

Não se trata de discutir a liberdade de escolher candidatos. Cada cidadão tem esse direito e deve exercê-lo livremente. Trata-se de uma reflexão sobre coerência, identidade e fidelidade à própria história religiosa.

Nós, católicos, temos motivos para nos orgulhar de nossa Igreja. Não porque ela seja perfeita, pois não é. Não porque seus membros estejam livres de contradições, pois também não estão. Mas porque temos uma tradição de fé, um patrimônio espiritual, uma história de compromisso com os pobres e uma Doutrina Social que nos ensina a olhar para a dignidade humana, a justiça, a solidariedade, o bem comum e a defesa da democracia.

Quando nossos bispos, diante dos riscos que enxergavam para a democracia brasileira e para a soberania nacional, chamaram os fiéis ao discernimento, fizeram aquilo que se espera de pastores comprometidos com o Evangelho: orientaram as consciências. Não deveriam ser tratados como cabos eleitorais, mas reconhecidos como homens que têm a responsabilidade de iluminar a realidade social à luz de Jesus Cristo.

Entretanto, o que fizeram alguns católicos? Em vez de refletir sobre os argumentos apresentados, preferiram atacar seus pastores. Chamaram bispos de comunistas, acusaram-nos de defender ladrões, disseram que estavam contra o povo e que não tinham sabedoria para orientar os fiéis.

Desde quando discordar de um bispo significa deixar de ser católico? Não! Mas desde quando ser católico significa desprezar o ensinamento de seus pastores quando ele contraria nossas preferências políticas?

A Igreja não determina em quem devemos votar. A Igreja forma consciências. E a Doutrina Social da Igreja oferece critérios para avaliar projetos políticos: dignidade da pessoa humana, opção preferencial pelos pobres, solidariedade, subsidiariedade, justiça social, participação popular e bem comum.

Um cristão não pode avaliar um projeto político apenas pelo discurso religioso de quem o apresenta. Precisa perguntar: que país esse projeto pretende construir? Quem será beneficiado? Quem continuará esquecido? O que acontecerá com os trabalhadores, os assalariados, os pobres, os que não tiveram acesso à educação e os que lutam diariamente para sobreviver?

Política não é apenas escolher um sobrenome, uma família ou uma bandeira. É decidir sobre a vida de milhões de pessoas.

E a nossa Mãe, onde fica nessa história?

Nossa Senhora Aparecida não é apenas uma imagem de barro. É memória, identidade, cultura e espiritualidade de um povo. É a representação de uma história que atravessa gerações e que encontrou, na pequena imagem negra retirada das águas do Rio Paraíba do Sul, um sinal de esperança para os pobres, os simples e os esquecidos.

Em 1717, três pescadores encontraram primeiro o corpo e depois a cabeça daquela pequena imagem. A pesca, que até então não havia produzido resultados, tornou-se abundante. A partir daquele acontecimento, nasceu uma devoção que atravessou séculos e se tornou uma das maiores expressões da religiosidade brasileira.

Mas é preciso olhar também para o contexto histórico daquele encontro.

O Brasil vivia sob o domínio colonial português. A exploração econômica, a cobrança de impostos, a escravidão e as desigualdades marcavam profundamente a vida da população. O ouro alimentava os interesses da Coroa, enquanto os trabalhadores e os mais pobres suportavam o peso de um sistema que concentrava riquezas e poder.

Os três pescadores estavam inseridos naquela realidade colonial, marcada pelos interesses das autoridades e pelas obrigações impostas à população. A pequena imagem encontrada nas águas, porém, tornou-se símbolo de uma devoção que não ficou restrita aos poderosos. Foi acolhida pelo povo, especialmente pelos mais simples.

Aparecida tornou-se Mãe de um povo que precisava de esperança.

E aqui chegamos a uma questão que nós, católicos, não podemos tratar como secundária: a proposta de retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil, defendida por JB Carvalho em seu livro Bomba – A Verdade Pode Ser Explosiva (2001).

A gravidade dessa posição aparece na convocação apresentada na obra, pág. 82:

"Convoco a todos os brasileiros cristãos, que amam a Deus, que se levantem e verbalizem a vontade de Deus expressa em Sua Palavra que Aparecida não seja mais Senhora em nossa nação."

Não estamos falando de uma divergência teológica qualquer, nem de uma simples diferença entre católicos e evangélicos. Estamos diante de uma manifestação explícita contra o reconhecimento de Nossa Senhora Aparecida como Senhora de nossa nação, título que, para nós católicos, está profundamente ligado à sua condição de Padroeira do Brasil.

É preciso reconhecer que cada denominação religiosa tem o direito de professar sua fé e apresentar suas interpretações teológicas. Nenhum evangélico é obrigado a venerar Nossa Senhora. Nenhum cidadão precisa compartilhar a devoção católica. Mas a liberdade religiosa que protege o direito de alguém não acreditar na intercessão de Maria também protege o direito dos católicos de amá-la, venerá-la e reconhecer sua importância na história do Brasil.

O que não podemos aceitar é que uma convicção religiosa particular se transforme em projeto de imposição sobre toda a sociedade.

E é aqui que entra Flávio Bolsonaro.

É verdade que não podemos afirmar que o candidato tenha declarado pessoalmente que pretende retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil. Mas também não podemos fechar os olhos para suas relações políticas e religiosas, especialmente quando se aproxima de lideranças que defendem publicamente propostas dessa natureza.

Quando um candidato se apresenta como aliado, discípulo ou representante de determinada liderança religiosa, é legítimo perguntar até que ponto as ideias e os projetos dessa liderança também encontram espaço em seu projeto político.

Não basta dizer que se é cristão, levantar a Bíblia ou anunciar que se pretende decretar o Brasil como nação do Senhor Jesus. É preciso esclarecer que lugar haverá para os milhões de brasileiros que professam outras religiões e, particularmente, para a tradição católica que ajudou a construir a história espiritual e cultural deste país.

O problema não é um evangélico defender sua fé. Ele tem todo o direito de fazê-lo. O problema é querer transformar sua interpretação religiosa em projeto de Estado, diminuindo ou desqualificando a fé dos outros.

Por isso, um católico que vota em um candidato associado a esse ambiente religioso precisa, no mínimo, refletir sobre o que está apoiando. Não se trata de exigir que todos votem da mesma maneira, mas de perguntar se existe coerência entre a fé que se professa e o projeto político que se ajuda a eleger.

Afinal, como explicar que alguém que reza diante de Nossa Senhora Aparecida, participa de suas festas, carrega sua medalha e se emociona diante de sua imagem não considere preocupante apoiar um projeto político que se aproxima de uma liderança empenhada em questionar seu lugar como Padroeira do Brasil?

É nesse sentido que a expressão ganha força:

VOTEI CONTRA A MÃE!

Talvez alguns tenham votado sem conhecer o livro, sem saber das propostas de seu autor ou sem compreender as implicações dessas alianças. Mas a falta de conhecimento não elimina a necessidade de discernimento. A fé também exige estudo, memória e responsabilidade.

Nossa Senhora Aparecida não pertence exclusivamente aos católicos. Sua história ultrapassou os limites da Igreja e tornou-se parte da memória afetiva e cultural de milhões de brasileiros. Querer diminuir seu lugar na história nacional é desconsiderar uma herança que pertence à história do próprio Brasil.

A Mãe do Magnificat não é Mãe dos poderosos!

Maria não é símbolo de autoritarismo. Não é instrumento de perseguição religiosa. Não é bandeira de partido. Não é propriedade de uma liderança religiosa.

Maria é aquela mulher de Nazaré que disse sim a Deus. É aquela que, no Magnificat, anunciou que Deus derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes, sacia de bens os famintos e despede os ricos de mãos vazias (Lc 1,46-55).

Essa é a Maria do Evangelho!

A mesma Maria que não se colocou ao lado dos poderosos para garantir privilégios, mas reconheceu a ação de Deus na história dos pequenos. A mesma mulher que nos aponta para Jesus e nos ensina a fazer tudo aquilo que Ele nos disser.

Portanto, não basta carregar uma imagem de Nossa Senhora no peito, colocar seu retrato na parede ou organizar grandes festas em sua homenagem. É preciso compreender o Evangelho que ela nos ajuda a viver.

E há outra contradição que não podemos ignorar: a história de Nossa Senhora Aparecida nasceu em um Brasil marcado pela exploração colonial. Naquele tempo, a riqueza do ouro era levada para sustentar os interesses da Coroa Portuguesa, enquanto a população sofria com impostos, escravidão e desigualdades.

Hoje, diante das discussões sobre soberania nacional, riquezas minerais estratégicas, terras raras e interesses econômicos de grandes potências, não podemos aceitar que o Brasil volte a ser tratado como território disponível para os interesses de outros países.

Ontem, a Coroa Portuguesa. Hoje, os interesses econômicos internacionais. Os contextos são diferentes, mas a pergunta permanece: a quem serve a riqueza de nossa terra? Ao povo brasileiro ou aos poderosos que pretendem controlar seus destinos?

Aparecida, em sua origem popular, lembra-nos que a esperança não nasce dos palácios, mas também das águas, das mãos trabalhadoras e da vida dos pequenos.

Quem ama Nossa Senhora precisa respeitar a dignidade de todos os filhos e filhas de Deus, independentemente da religião que professam. Quem se orgulha da Igreja precisa conhecer sua história, sua tradição, seu magistério e sua Doutrina Social.

E, sobretudo, precisa aprender que a fé não pode ser utilizada para justificar projetos de submissão econômica, desigualdade social, autoritarismo ou desprezo pelos mais vulneráveis.

Não basta dizer que acredita. É preciso saber em que acredita!

Não podemos repetir os erros da história. Houve um tempo em que a religião esteve submetida aos interesses da Coroa Portuguesa, no regime do Padroado. Hoje, não podemos aceitar que a fé seja colocada a serviço de projetos políticos que pretendam submeter o Estado a uma única expressão religiosa ou transformar a Igreja em instrumento de poder.

Aparecida nasceu nas águas de um Brasil marcado pela exploração e pela desigualdade. Sua imagem tornou-se sinal de esperança para um povo que não queria continuar vivendo de joelhos diante dos poderosos.

Talvez esteja na hora de nós, católicos, recuperarmos um pouco dessa memória.

Não precisamos concordar com todos os bispos, nem transformar a Igreja em partido político. Precisamos, sim, ter maturidade para distinguir a orientação pastoral de uma liderança religiosa de uma disputa eleitoral. Precisamos compreender que o Evangelho não cabe inteiro em nenhum partido e que nenhum candidato pode reivindicar o monopólio de Deus.

A pergunta que fica não é simplesmente em quem você votou. É outra, muito mais profunda:

O seu voto foi coerente com a fé que você professa?

Porque, no final das contas, não adianta chamar Maria de Mãe e apoiar, sem discernimento, projetos que desrespeitam sua história, sua espiritualidade e a liberdade religiosa de nosso povo.

Não adianta levantar a Bíblia, gritar o nome de Jesus e esquecer que Ele passou a vida ao lado dos pobres, dos doentes, dos excluídos e daqueles que não tinham voz.

Se a política transformou Jesus em palanque, que os cristãos tenham coragem de devolver Jesus ao Evangelho.

Se transformaram as igrejas em comitês eleitorais, que os cristãos tenham coragem de devolver os templos à oração, à comunhão e ao serviço.

E se, na hora do voto, alguns se esqueceram da Mãe, que ao menos agora tenham coragem de rever sua própria história.

Nossa Senhora Aparecida não precisa de votos para continuar sendo Mãe. Mas nós, católicos, precisamos de consciência para não votar contra aquilo que dizemos acreditar.

VOTEI CONTRA A MÃE!

Que essa expressão não seja apenas uma provocação eleitoral, mas um convite à conversão da consciência, à fidelidade ao Evangelho e ao respeito pela história de nossa Igreja.

Porque uma coisa é discordar de Maria. Outra, muito diferente, é esquecer que ela é a Mãe que aprendemos a amar e que faz parte da história da nossa fé e da nossa gente.

 

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