Há
algo que precisamos compreender, como sociedade e, especialmente, como
católicos: nem toda palavra da Igreja que incomoda é partidária. Nem toda
manifestação dos bispos sobre a realidade brasileira significa apoio a um
candidato. Às vezes, o que incomoda não é a posição política da Igreja, mas a
força de um Evangelho que se recusa a fazer silêncio diante das injustiças.
A carta do Episcopado Brasileiro por ocasião do segundo turno das eleições precisa ser compreendida a partir de suas raízes, de seu húmus: o Evangelho de Jesus Cristo, a vida das comunidades, a tradição da Igreja e o compromisso com a dignidade humana. É desse chão que brotam a opção preferencial pelos pobres, o cuidado com os pequenos e a denúncia de tudo aquilo que ameaça a vida.
Jesus não foi indiferente à
realidade de seu povo. Aproximou-se dos doentes, acolheu os excluídos,
sentou-se à mesa com os desprezados e denunciou a hipocrisia dos poderosos. Seu
Evangelho não foi uma proposta de acomodação diante das injustiças, mas um chamado
à conversão e à transformação das relações humanas. Como esperar, então, que os
bispos permaneçam calados diante da fome, da desigualdade, da violência e da
concentração de riquezas?
A Doutrina Social da Igreja oferece
critérios para discernir essa realidade: dignidade humana, bem comum,
solidariedade, participação social e destinação universal dos bens. A economia
deve estar a serviço da vida, e não a vida submetida à acumulação de riquezas
por uma minoria.
Por isso, causa estranheza que
alguns, diante da carta dos bispos, se apressem em acusá-los de serem teólogos
da libertação, como se o rótulo bastasse para desqualificar sua palavra. A
Teologia da Libertação nasceu da reflexão sobre o Evangelho em meio à pobreza e
às injustiças sociais. Como toda corrente teológica, suas formulações devem ser
discernidas à luz do Evangelho e do Magistério. Mas reduzir essa reflexão a uma
ideologia partidária é ignorar a história e a complexidade do pensamento
cristão.
Desde quando defender os pobres,
denunciar a desigualdade e exigir justiça social significa abandonar a fé
católica? A opção preferencial pelos pobres não pertence a um
partido nem a uma corrente teológica: faz parte do compromisso evangélico e do
ensinamento da Igreja. Rotular os bispos não responde à questão essencial: sua
palavra contradiz Jesus Cristo ou nos incomoda porque nos obriga a levar seu
Evangelho a sério?
Quando o Episcopado fala da Casa
Comum, do desarmamento, da paz, da justiça, da soberania nacional e das
políticas públicas, não abandona sua missão religiosa para entrar indevidamente
na política. Assume as consequências sociais da fé que professa.
Defender a Casa Comum é reconhecer
que a criação não pode ser reduzida a instrumento de exploração economica.
Defender os pequenos é compreender que ninguém deveria ser privado de
alimentação, moradia, saúde e educação dignas. Promover políticas públicas é
reconhecer que o Estado tem responsabilidades com a população, sobretudo com
aqueles que não dispõem dos meios necessários para garantir a própria
sobrevivência.
Defender a paz exige mais do que
discursos: exige diálogo, desarmamento e compromisso com a vida. A violência
não se resolve simplesmente armando a sociedade ou endurecendo penas, enquanto
se ignoram as raízes da exclusão. Uma justiça pautada na ética deve
responsabilizar quem pratica crimes, proteger as vítimas e enfrentar as
desigualdades que condenam milhões de brasileiros à marginalização.
Não podemos naturalizar um sistema
economico que transforma o lucro em valor absoluto, concentra riquezas e deixa
uma multidão lutando pelo pão de cada dia. Quando a acumulação vale mais do que
a dignidade humana, a economia se distancia do projeto de sociedade que o
Evangelho nos convida a construir.
É nesse horizonte que devemos
compreender o debate eleitoral brasileiro.
Há quem pergunte por que os bispos
estariam defendendo Lula. Mas defender a justiça social, os direitos dos
trabalhadores, as políticas públicas e a redução da pobreza significa
necessariamente fazer campanha para Lula?
Não se trata de canonizar
candidatos, mas de discernir projetos, trajetórias e compromissos à luz dos
valores do Evangelho.
O Episcopado não é cabo eleitoral.
Sua missão não é escolher presidentes para o povo, mas oferecer critérios para
que os cidadãos formem a consciência e exerçam o voto com liberdade e
responsabilidade. Isso não significa silenciar diante de propostas e trajetórias
políticas que tenham consequências concretas para a vida dos brasileiros.
Reconhecer que a trajetória de Lula
dialogou historicamente com os trabalhadores, os movimentos populares e os
setores empobrecidos não significa ignorar seus erros, contradições ou
responsabilidades. Significa admitir que a história política também deve ser
avaliada pelas condições de vida que ajudou a transformar e pelo espaço que
concedeu aos mais pobres.
Da mesma forma, questionar a
idoneidade, a trajetória e as propostas de Flávio Bolsonaro para a Presidência
não significam automaticamente fazer campanha para seu adversário. É legítimo
perguntar se sua atuação política, suas alianças e o projeto que representa
respondem às necessidades do Brasil dos trabalhadores, das minorias
historicamente discriminadas e da maioria pobre deste país. Essas avaliações,
evidentemente, devem apoiar-se em fatos e argumentos, e não em ataques
pessoais.
O que não podemos aceitar é que a
Igreja seja considerada legítima apenas quando sua palavra coincide com nossas
preferências políticas. A neutralidade partidária não pode ser confundida com
indiferença moral. Os bispos não precisam declarar apoio a um candidato para
afirmar que a fome é inadmissível, que a pobreza não é fracasso individual e
que o poder público tem responsabilidades diante dos que vivem sem condições
dignas de subsistência.
O voto é livre e pertence à
consciência de cada cidadão. Mas a liberdade não nos dispensa da
responsabilidade pelas consequências de nossas escolhas. Para quem se diz
cristão, não basta perguntar qual candidato corresponde às próprias convicções.
É preciso perguntar também qual projeto se aproxima da defesa da vida, da
justiça, da paz e do bem comum.
Defender o Episcopado não significa
considerar os bispos infalíveis em toda análise política ou social. Significa
reconhecer sua legitimidade para iluminar consciências, orientar os fiéis e
denunciar aquilo que fere a dignidade humana. A comunhão com a Igreja não pode
depender de os pastores dizerem apenas aquilo que desejamos ouvir.
A palavra profética incomoda porque
questiona privilégios, desmonta preconceitos e exige coerência. A missão da
Igreja não é agradar a todos, mas permanecer fiel a Jesus Cristo, inclusive
quando essa fidelidade confronta interesses econômicos e políticos.
No fundo, a questão não é saber se
os bispos estão com Lula ou contra Flávio Bolsonaro. É compreender se estamos
dispostos a ficar ao lado da vida, dos pobres, dos vulneráveis e da Casa Comum.
O Evangelho não nos pergunta apenas
em quem votamos. Pergunta a quem amamos, quem defendemos e que sociedade
estamos ajudando a construir.
O Episcopado não precisa falar em
nome de um candidato para cumprir sua missão. Precisa falar em nome de Jesus
Cristo. E, quando o Evangelho toma partido, toma o partido da vida, da
dignidade humana e da esperança que não abandona os pequenos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário