sábado, 24 de outubro de 2026

O Episcopado Brasileiro não fala em nome de candidatos, mas em nome do Evangelho da Vida

 

Há algo que precisamos compreender, como sociedade e, especialmente, como católicos: nem toda palavra da Igreja que incomoda é partidária. Nem toda manifestação dos bispos sobre a realidade brasileira significa apoio a um candidato. Às vezes, o que incomoda não é a posição política da Igreja, mas a força de um Evangelho que se recusa a fazer silêncio diante das injustiças.

Fotos: Thiago Leon I Santuário Nacional

            A carta do Episcopado Brasileiro por ocasião do segundo turno das eleições precisa ser compreendida a partir de suas raízes, de seu húmus: o Evangelho de Jesus Cristo, a vida das comunidades, a tradição da Igreja e o compromisso com a dignidade humana. É desse chão que brotam a opção preferencial pelos pobres, o cuidado com os pequenos e a denúncia de tudo aquilo que ameaça a vida.

            Jesus não foi indiferente à realidade de seu povo. Aproximou-se dos doentes, acolheu os excluídos, sentou-se à mesa com os desprezados e denunciou a hipocrisia dos poderosos. Seu Evangelho não foi uma proposta de acomodação diante das injustiças, mas um chamado à conversão e à transformação das relações humanas. Como esperar, então, que os bispos permaneçam calados diante da fome, da desigualdade, da violência e da concentração de riquezas?

            A Doutrina Social da Igreja oferece critérios para discernir essa realidade: dignidade humana, bem comum, solidariedade, participação social e destinação universal dos bens. A economia deve estar a serviço da vida, e não a vida submetida à acumulação de riquezas por uma minoria.

            Por isso, causa estranheza que alguns, diante da carta dos bispos, se apressem em acusá-los de serem teólogos da libertação, como se o rótulo bastasse para desqualificar sua palavra. A Teologia da Libertação nasceu da reflexão sobre o Evangelho em meio à pobreza e às injustiças sociais. Como toda corrente teológica, suas formulações devem ser discernidas à luz do Evangelho e do Magistério. Mas reduzir essa reflexão a uma ideologia partidária é ignorar a história e a complexidade do pensamento cristão.

            Desde quando defender os pobres, denunciar a desigualdade e exigir justiça social significa abandonar a fé católica? A opção preferencial pelos pobres não pertence a um partido nem a uma corrente teológica: faz parte do compromisso evangélico e do ensinamento da Igreja. Rotular os bispos não responde à questão essencial: sua palavra contradiz Jesus Cristo ou nos incomoda porque nos obriga a levar seu Evangelho a sério?

            Quando o Episcopado fala da Casa Comum, do desarmamento, da paz, da justiça, da soberania nacional e das políticas públicas, não abandona sua missão religiosa para entrar indevidamente na política. Assume as consequências sociais da fé que professa.

            Defender a Casa Comum é reconhecer que a criação não pode ser reduzida a instrumento de exploração economica. Defender os pequenos é compreender que ninguém deveria ser privado de alimentação, moradia, saúde e educação dignas. Promover políticas públicas é reconhecer que o Estado tem responsabilidades com a população, sobretudo com aqueles que não dispõem dos meios necessários para garantir a própria sobrevivência.

            Defender a paz exige mais do que discursos: exige diálogo, desarmamento e compromisso com a vida. A violência não se resolve simplesmente armando a sociedade ou endurecendo penas, enquanto se ignoram as raízes da exclusão. Uma justiça pautada na ética deve responsabilizar quem pratica crimes, proteger as vítimas e enfrentar as desigualdades que condenam milhões de brasileiros à marginalização.

            Não podemos naturalizar um sistema economico que transforma o lucro em valor absoluto, concentra riquezas e deixa uma multidão lutando pelo pão de cada dia. Quando a acumulação vale mais do que a dignidade humana, a economia se distancia do projeto de sociedade que o Evangelho nos convida a construir.

            É nesse horizonte que devemos compreender o debate eleitoral brasileiro.

            Há quem pergunte por que os bispos estariam defendendo Lula. Mas defender a justiça social, os direitos dos trabalhadores, as políticas públicas e a redução da pobreza significa necessariamente fazer campanha para Lula?

            Não se trata de canonizar candidatos, mas de discernir projetos, trajetórias e compromissos à luz dos valores do Evangelho.

            O Episcopado não é cabo eleitoral. Sua missão não é escolher presidentes para o povo, mas oferecer critérios para que os cidadãos formem a consciência e exerçam o voto com liberdade e responsabilidade. Isso não significa silenciar diante de propostas e trajetórias políticas que tenham consequências concretas para a vida dos brasileiros.

            Reconhecer que a trajetória de Lula dialogou historicamente com os trabalhadores, os movimentos populares e os setores empobrecidos não significa ignorar seus erros, contradições ou responsabilidades. Significa admitir que a história política também deve ser avaliada pelas condições de vida que ajudou a transformar e pelo espaço que concedeu aos mais pobres.

            Da mesma forma, questionar a idoneidade, a trajetória e as propostas de Flávio Bolsonaro para a Presidência não significam automaticamente fazer campanha para seu adversário. É legítimo perguntar se sua atuação política, suas alianças e o projeto que representa respondem às necessidades do Brasil dos trabalhadores, das minorias historicamente discriminadas e da maioria pobre deste país. Essas avaliações, evidentemente, devem apoiar-se em fatos e argumentos, e não em ataques pessoais.

            O que não podemos aceitar é que a Igreja seja considerada legítima apenas quando sua palavra coincide com nossas preferências políticas. A neutralidade partidária não pode ser confundida com indiferença moral. Os bispos não precisam declarar apoio a um candidato para afirmar que a fome é inadmissível, que a pobreza não é fracasso individual e que o poder público tem responsabilidades diante dos que vivem sem condições dignas de subsistência.

            O voto é livre e pertence à consciência de cada cidadão. Mas a liberdade não nos dispensa da responsabilidade pelas consequências de nossas escolhas. Para quem se diz cristão, não basta perguntar qual candidato corresponde às próprias convicções. É preciso perguntar também qual projeto se aproxima da defesa da vida, da justiça, da paz e do bem comum.

            Defender o Episcopado não significa considerar os bispos infalíveis em toda análise política ou social. Significa reconhecer sua legitimidade para iluminar consciências, orientar os fiéis e denunciar aquilo que fere a dignidade humana. A comunhão com a Igreja não pode depender de os pastores dizerem apenas aquilo que desejamos ouvir.

            A palavra profética incomoda porque questiona privilégios, desmonta preconceitos e exige coerência. A missão da Igreja não é agradar a todos, mas permanecer fiel a Jesus Cristo, inclusive quando essa fidelidade confronta interesses econômicos e políticos.

            No fundo, a questão não é saber se os bispos estão com Lula ou contra Flávio Bolsonaro. É compreender se estamos dispostos a ficar ao lado da vida, dos pobres, dos vulneráveis e da Casa Comum.

            O Evangelho não nos pergunta apenas em quem votamos. Pergunta a quem amamos, quem defendemos e que sociedade estamos ajudando a construir.

            O Episcopado não precisa falar em nome de um candidato para cumprir sua missão. Precisa falar em nome de Jesus Cristo. E, quando o Evangelho toma partido, toma o partido da vida, da dignidade humana e da esperança que não abandona os pequenos.

 

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