domingo, 19 de julho de 2026

São João Batista - 90 de Presença: A Igreja que Fez Morada Entre Nós

E há lugares que apenas frequentamos. E há lugares que nos formam. A Paróquia São João Batista é um desses lugares. Ao celebrar seus noventa anos de história, não comemoramos apenas a idade de uma comunidade. Celebramos noventa anos de Evangelho vivido, de fé partilhada, de vidas transformadas e de uma Igreja que escolheu permanecer no meio do povo.
Hoje, ao olhar para trás, meu coração se enche de gratidão. Gratidão, antes de tudo, aos pioneiros: aos sacerdotes palotinos e aos inúmeros leigos e leigas que sonharam esta comunidade, ergueram suas paredes e, sobretudo, construíram uma Igreja viva, feita de pessoas, de oração e de serviço.
Com alegria e um legítimo orgulho, posso dizer: "Sou da São João!"
Há trinta e quatro anos esta paróquia é parte da minha história e da história da minha família. Aqui aprendi que evangelizar é muito mais do que falar de Jesus; é colocar a própria vida a serviço do Reino de Deus.
Quantas experiências cabem em três décadas! Limpar a igreja antes das celebrações, preparar a catequese, proclamar a Palavra como leitor, tocar nas missas, pregar retiros e encontros, formar pais e padrinhos, acompanhar casais no Curso de Noivos, servir o ECC, estudar e ensinar o Catecismo da Igreja Católica, apresentar os documentos da Igreja, refletir sobre os textos-base da Campanha da Fraternidade, conduzir retiros para Ministros Extraordinários da Sagrada Comunhão, promover formações para os leigos da Fé e Política, preparar pequenas encenações para ajudar as crianças a compreenderem o Evangelho, organizar teatros com os jovens durante a Semana Santa, caminhar nas procissões anunciando Cristo pelas ruas, animar comunidades, participar dos conselhos pastorais, trabalhar nas festas do mês de maio...
Poderia continuar enumerando tantos outros serviços. Mas, olhando hoje, percebo que nenhum deles foi um peso. Todos foram um privilégio. Servir à Igreja nunca me empobreceu; ao contrário, fez de mim uma pessoa melhor.
Ao longo desses anos, tive a graça de conviver com cerca de nove párocos. Cada um tinha seu jeito, sua personalidade, seus dons e desafios. Nenhum era igual ao outro. Mas todos tinham algo em comum: eram homens de Deus. Sacerdotes palotinos que acreditavam na força do laicato e abriam espaço para que cada batizado pudesse colocar seus dons a serviço da comunidade. Pastorearam nosso povo com fé, esperança e caridade. A todos, minha sincera gratidão.
Quando penso na Paróquia São João Batista, não vejo apenas um templo. Vejo um lugar onde crianças foram batizadas, jovens descobriram sua vocação, casais iniciaram suas famílias, idosos encontraram consolo e tantos irmãos despediram-se desta vida sustentados pela esperança da ressurreição.
A Igreja esteve presente em nosso bairro quando havia motivos para sorrir e também quando as lágrimas pareciam não ter fim. Esteve nas casas, nas ruas, nas capelas, nos salões, nas festas, nas missões, nas celebrações simples e nas grandes solenidades. Sempre anunciando que Deus caminha conosco.
Noventa anos não pertencem apenas ao passado. São uma responsabilidade para o futuro. Cada geração recebeu a fé como um dom e tem o compromisso de transmiti-la à geração seguinte. Agora cabe a nós manter acesa essa chama que tantos, antes de nós, conservaram com sacrifício, oração e amor.
Minha gratidão não nasce apenas das lembranças. Nasce da certeza de que Deus escreveu uma parte importante da minha história dentro desta comunidade. Tudo o que pude oferecer foi pequeno diante de tudo o que recebi.
Parabéns, Paróquia São João Batista, pelos seus noventa anos de evangelização. Que São João Batista continue apontando para Cristo, como sempre fez: "É preciso que Ele cresça."
E que, muitos anos depois de nós, outras pessoas possam olhar para esta mesma comunidade e dizer, com o mesmo brilho nos olhos e a mesma alegria no coração:
"Também eu sou da São João!"

sexta-feira, 17 de julho de 2026

A Casa da Mãe Nunca Deixa de Existir


Há ausências que não fazem barulho, mas mudam completamente o sentido das coisas.
O luto não é uma estrada reta. Ele passa pela negação, pela revolta, pela tristeza profunda, pela aceitação... e, mesmo quando pensamos ter aprendido a conviver com a perda, basta um detalhe para que a saudade volte com toda a sua força.
É assim comigo.
Durante anos, viajar significava preparar o coração para voltar à casa da minha mãe, Clélia Thereza Ciambroni Galiani. Era um compromisso sagrado. Organizava a agenda, economizava o dinheiro da viagem, fazia planos e iniciava a contagem regressiva. Não importava o cansaço nem a distância. No final do caminho, havia alguém esperando.
Hoje, às vésperas de mais uma viagem, percebo que falta alguma coisa.
As malas estão prontas. A estrada continua a mesma. A cidade continua existindo.
Mas já não existe a casa da minha mãe.
Sei que encontrarei familiares queridos, que me receberão com carinho e generosidade. Sou profundamente agradecido por isso. Mas há uma verdade que somente quem perdeu a mãe consegue compreender: casa de mãe é casa de mãe.
Ela era mais do que um endereço. Era um porto seguro. Um lugar onde eu nunca precisava explicar minhas dores, porque ela as percebia antes mesmo das palavras. Era o café preparado com carinho, a comida que tinha gosto de infância, as conversas sem pressa, a bênção na despedida e aquela certeza silenciosa de que sempre haveria um lugar para voltar.
Agora existe um vazio.
Um vácuo.
Como se uma peça essencial da vida tivesse sido retirada, deixando tudo aparentemente no lugar, mas nada exatamente igual.
Nessas horas, lembro-me daquele verso tão simples e tão profundo:
"Quando bater a saudade, olha aqui pra cima..."
Então eu olho.
Olho para o céu, não para procurar alguém distante, mas para renovar a esperança de que o amor não morre. A fé cristã nos ensina que a morte não destrói os laços construídos no amor. Ela apenas transforma a maneira como eles continuam existindo.
Minha mãe já não me espera na janela.
Mas continua me acompanhando nas lembranças, nos valores que me ensinou, na fé que cultivou em nossa família e em cada gesto de cuidado que aprendi com ela.
Hoje compreendo que a maior herança que uma mãe deixa não é uma casa de tijolos. É a casa invisível que ela constrói dentro do coração dos filhos. Essa ninguém vende, ninguém destrói e ninguém é capaz de ocupar.
Obrigado, mãe.
Obrigado, Clélia, por cada sacrifício escondido, por cada oração feita em silêncio, por cada abraço, por cada conselho, por ter me ensinado que amar é cuidar e servir.
A saudade continua doendo, porque o amor continua vivo.
E talvez seja esse o maior privilégio de um filho: sentir falta de quem amou tanto.
Enquanto eu viver, levarei comigo sua memória, seu exemplo e sua ternura.
E quando a saudade bater mais forte, olharei para o céu.
Não apenas porque a música aconselha, mas porque a fé me garante que um dia nos reencontraremos.
Até lá, seguirei caminhando com o coração cheio de saudade, mas, acima de tudo, cheio de gratidão.
Porque o amor de uma mãe é um presente de Deus que nem a morte consegue apagar.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE

A cena durou poucos segundos. Bastaria um piscar de olhos para perdê-la. Mas há cenas que, mesmo rápidas, permanecem para sempre gravadas na consciência.

Um homem sua filha e entradi caminhavam pela calçada. Nas mãos, sacolas plásticas denunciavam que voltavam das compras. 

Uma criança. Pequena. Silenciosa. Apenas caminhava.

Nada indicava perigo. Nenhuma discussão. Nenhum choro. Nenhuma desobediência aparente.

De repente, sem aviso, o homem ergueu a perna e desferiu um chute violento na criança. O pequeno corpo foi lançado ao chão como se não tivesse valor algum. Não era um brinquedo que caía. Era uma vida.

O mundo não parou.

Os carros continuaram passando. Algumas pessoas olharam rapidamente. Outras fingiram não ver. Um cidadão fez a intervenção.

Foi impossível não pensar: assim caminha a humanidade.

Uma humanidade que perdeu a capacidade de se indignar. Que naturaliza a brutalidade. Que chama de "educação" aquilo que é agressão. Que acredita que a força substitui o amor e que o medo educa melhor do que o carinho.

O chute não atingiu apenas uma criança. Atingiu todos nós. Feriu a esperança de que as novas gerações cresçam cercadas de cuidado. Feriu a própria dignidade humana.

Enquanto crianças forem tratadas como objetos sobre os quais os adultos descarregam suas frustrações, nossa civilização continuará doente. Nenhum progresso tecnológico, nenhuma riqueza, nenhum discurso religioso ou político poderá esconder essa vergonha.

Uma sociedade é medida pela forma como trata seus pequenos, seus frágeis e seus indefesos. Quando um adulto levanta o pé contra uma criança, é toda a humanidade que cai junto.

E talvez o mais assustador não seja o chute.

Seja o silêncio.

Porque o silêncio dos que veem, dos que justificam e dos que se acostumaram é o terreno onde a violência cria raízes.

Assim caminha a humanidade... e, se não aprendermos a proteger nossas crianças, caminharemos cada vez mais depressa para o abismo.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Clélia: uma mulher que permanece!

Há exatamente um ano, 03/07/2025, minha mãe, Clélia Thereza Ciambroni Galiani, fez sua Páscoa. A palavra "Páscoa" é bonita porque não fala apenas de partida; fala de passagem. Para nós, que ficamos, permanece a saudade. Para quem viveu na fé, permanece a esperança de um encontro definitivo com Deus.
Ao longo deste primeiro ano, muitas vezes senti que a ausência física nunca consegue vencer a força das lembranças. Elas aparecem nos gestos mais simples, nas palavras que ela costumava dizer, nos valores que nos transmitiu e na maneira como nos ensinou a viver. O tempo não apaga uma mãe. Apenas transforma sua presença. Ela deixa de ser vista pelos olhos e passa a ser encontrada no coração.
Antes, porém, de recordar as mulheres da Bíblia, é importante dizer que não escrevo estas linhas para santificar minha mãe ou colocá-la num pedestal. Ela foi uma mulher de carne e osso, marcada, como todos nós, pelas limitações da condição humana. Teve virtudes admiráveis, mas também conheceu suas fragilidades, seus pecados, suas quedas e suas misérias. Em sua história também houve noites escuras, momentos de dor, dúvidas, conflitos e trevas. Como todos nós, precisou aprender, pedir perdão, recomeçar e confiar na misericórdia de Deus. Afinal, Deus não escreve sua história apenas com pessoas perfeitas, porque elas não existem. Ele realiza sua obra por meio de homens e mulheres que, entre acertos e erros, permitem que sua graça os transforme. É desse modo que me recordo de minha mãe: não como alguém sem defeitos, mas como uma mulher que procurou viver, lutar, recomeçar e amar dentro das possibilidades e dos limites de sua humanidade.
Quando penso em minha mãe, vejo nela um pouco das grandes mulheres da Bíblia. Como Maria, mãe de Jesus, viveu a humildade e fez de sua vida um constante "sim" ao amor, à família e à vontade de Deus. Sem alarde, mostrou que a grandeza está no serviço e na capacidade de cuidar.
Como Rute, foi fiel. Fiel à família, aos amigos, aos compromissos assumidos e aos princípios que jamais negociou. Sua lealdade era um porto seguro para todos os que conviviam com ela.
Também carregava a coragem de Ester. Nem sempre as batalhas eram visíveis, mas ela enfrentou com dignidade as dificuldades que a vida lhe apresentou. Sua força nunca foi feita de palavras grandiosas, mas da serenidade de quem confia em Deus.
Havia nela a sabedoria de Débora. Quantas decisões foram iluminadas por seus conselhos! Quantas vezes sua experiência ajudou a encontrar caminhos quando tudo parecia confuso! Sua palavra era firme, mas sempre acompanhada pelo carinho de quem desejava apenas o bem.
Como Ana, conhecia o poder da oração. Muitas das bênçãos que recebemos certamente passaram por suas preces silenciosas, feitas com o coração de mãe que nunca deixa de confiar na providência divina.
E como Marta, dedicou-se incansavelmente ao cuidado da casa, da família e de todos que precisavam de acolhida. Mas também tinha algo de Maria de Betânia: sabia que o amor vale mais do que qualquer riqueza e que a verdadeira felicidade nasce de um coração que sabe escutar e amar.
Hoje compreendo que essas mulheres bíblicas não pertencem apenas às páginas da Sagrada Escritura. Elas continuam vivendo na história de tantas mulheres simples e extraordinárias, como minha mãe. Em Clélia, elas encontraram um novo rosto. Um rosto marcado pela ternura, pela firmeza, pela fé e pelo amor, mas também pela luta diária para vencer suas limitações. Talvez seja justamente isso que torna seu testemunho tão belo: Deus não agiu apesar de sua fragilidade, mas através dela. Sua vida recorda que a graça de Deus não elimina nossa humanidade; ela a transforma e a conduz.
Neste primeiro aniversário de sua Páscoa, a saudade continua presente, mas já não caminha sozinha. Ela vem acompanhada da gratidão. Gratidão pelo dom de sua vida, pelos ensinamentos que deixou, pelo amor que distribuiu sem medidas, pelos perdões que concedeu e recebeu, pelas vezes em que caiu e se levantou, e pelo exemplo que continua iluminando nossos passos.
Tenho saudade de sua voz, de seu sorriso, de sua presença. Mas, acima de tudo, agradeço a Deus pelo privilégio de ter sido seu filho. O amor de uma mãe não termina com a morte. Ele atravessa o tempo, vence o silêncio e permanece vivo naqueles que aprenderam, por meio dela, o verdadeiro significado da palavra amor.
Que Deus a tenha acolhido no abraço eterno reservado aos seus filhos e filhas. E que um dia, pela infinita misericórdia do Senhor, possamos nos reencontrar, quando toda saudade dará lugar à alegria sem fim. Até lá, sua vida continuará sendo um evangelho vivido no cotidiano, escrito não com a perfeição dos impecáveis, mas com a beleza de quem nunca desistiu de amar.
Obrigado, mãe, por ter sido a mulher que Deus escolheu para me dar a vida. Obrigado por tudo o que foi, pelo bem que realizou, pelas marcas que deixou em nossa família e até pelas fragilidades que me ensinaram que todos somos necessitados da graça. Seu nome, Clélia Thereza Ciambroni Galiani, permanecerá para sempre gravado não apenas em nossa memória, mas em nossa maneira de viver, amar e acreditar. Que o Senhor, rico em misericórdia, lhe conceda o descanso eterno e faça resplandecer sobre ela a luz que não tem fim.
José Antonio Galiani