sexta-feira, 17 de julho de 2026

A Casa da Mãe Nunca Deixa de Existir


Há ausências que não fazem barulho, mas mudam completamente o sentido das coisas.
O luto não é uma estrada reta. Ele passa pela negação, pela revolta, pela tristeza profunda, pela aceitação... e, mesmo quando pensamos ter aprendido a conviver com a perda, basta um detalhe para que a saudade volte com toda a sua força.
É assim comigo.
Durante anos, viajar significava preparar o coração para voltar à casa da minha mãe, Clélia Thereza Ciambroni Galiani. Era um compromisso sagrado. Organizava a agenda, economizava o dinheiro da viagem, fazia planos e iniciava a contagem regressiva. Não importava o cansaço nem a distância. No final do caminho, havia alguém esperando.
Hoje, às vésperas de mais uma viagem, percebo que falta alguma coisa.
As malas estão prontas. A estrada continua a mesma. A cidade continua existindo.
Mas já não existe a casa da minha mãe.
Sei que encontrarei familiares queridos, que me receberão com carinho e generosidade. Sou profundamente agradecido por isso. Mas há uma verdade que somente quem perdeu a mãe consegue compreender: casa de mãe é casa de mãe.
Ela era mais do que um endereço. Era um porto seguro. Um lugar onde eu nunca precisava explicar minhas dores, porque ela as percebia antes mesmo das palavras. Era o café preparado com carinho, a comida que tinha gosto de infância, as conversas sem pressa, a bênção na despedida e aquela certeza silenciosa de que sempre haveria um lugar para voltar.
Agora existe um vazio.
Um vácuo.
Como se uma peça essencial da vida tivesse sido retirada, deixando tudo aparentemente no lugar, mas nada exatamente igual.
Nessas horas, lembro-me daquele verso tão simples e tão profundo:
"Quando bater a saudade, olha aqui pra cima..."
Então eu olho.
Olho para o céu, não para procurar alguém distante, mas para renovar a esperança de que o amor não morre. A fé cristã nos ensina que a morte não destrói os laços construídos no amor. Ela apenas transforma a maneira como eles continuam existindo.
Minha mãe já não me espera na janela.
Mas continua me acompanhando nas lembranças, nos valores que me ensinou, na fé que cultivou em nossa família e em cada gesto de cuidado que aprendi com ela.
Hoje compreendo que a maior herança que uma mãe deixa não é uma casa de tijolos. É a casa invisível que ela constrói dentro do coração dos filhos. Essa ninguém vende, ninguém destrói e ninguém é capaz de ocupar.
Obrigado, mãe.
Obrigado, Clélia, por cada sacrifício escondido, por cada oração feita em silêncio, por cada abraço, por cada conselho, por ter me ensinado que amar é cuidar e servir.
A saudade continua doendo, porque o amor continua vivo.
E talvez seja esse o maior privilégio de um filho: sentir falta de quem amou tanto.
Enquanto eu viver, levarei comigo sua memória, seu exemplo e sua ternura.
E quando a saudade bater mais forte, olharei para o céu.
Não apenas porque a música aconselha, mas porque a fé me garante que um dia nos reencontraremos.
Até lá, seguirei caminhando com o coração cheio de saudade, mas, acima de tudo, cheio de gratidão.
Porque o amor de uma mãe é um presente de Deus que nem a morte consegue apagar.

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