sábado, 31 de outubro de 2026

VOTEI CONTRA A MÃE!

 Quando a política transforma Jesus em palanque e o católico se esquece da própria história

O Estado brasileiro é laico. Isso não significa que seja ateu, que deva expulsar a religião da vida pública ou que os cidadãos precisem abandonar suas convicções religiosas quando entram na política. Estado laico significa que nenhuma religião é dona do Estado, que nenhuma Igreja pode impor sua fé à totalidade da população e que todas as crenças devem ter liberdade para existir, manifestar-se e dialogar com a sociedade.

Afinal, quem ocupa o Legislativo, o Executivo ou participa de partidos políticos não deixa suas convicções religiosas, morais e éticas na porta do Congresso. Cada pessoa carrega consigo sua história, seus valores e suas crenças. É por isso que temos, inclusive, a conhecida bancada evangélica na Câmara dos Deputados e no Senado Federal.

O problema não está na presença de pessoas religiosas na política. O problema começa quando a religião deixa de ser fonte de valores para se transformar em instrumento de dominação; quando Deus passa a ser propriedade de um partido e Jesus se transforma em cabo eleitoral.

Nas eleições presidenciais de 2026, assistimos a uma situação particularmente preocupante: igrejas transformadas em palanques, discursos religiosos utilizados como propaganda eleitoral e lideranças religiosas ocupando espaços de destaque não necessariamente pela profundidade de sua fé, mas pela capacidade de mobilizar eleitores. Jesus foi chamado para o palanque, enquanto o Evangelho, muitas vezes, ficou esquecido do lado de fora.

É nesse cenário que dirijo uma provocação aos cristãos, especialmente àqueles que professam a fé católica apostólica romana:

VOTEI CONTRA A MÃE!

Não se trata de discutir a liberdade de escolher candidatos. Cada cidadão tem esse direito e deve exercê-lo livremente. Trata-se de uma reflexão sobre coerência, identidade e fidelidade à própria história religiosa.

Nós, católicos, temos motivos para nos orgulhar de nossa Igreja. Não porque ela seja perfeita, pois não é. Não porque seus membros estejam livres de contradições, pois também não estão. Mas porque temos uma tradição de fé, um patrimônio espiritual, uma história de compromisso com os pobres e uma Doutrina Social que nos ensina a olhar para a dignidade humana, a justiça, a solidariedade, o bem comum e a defesa da democracia.

Quando nossos bispos, diante dos riscos que enxergavam para a democracia brasileira e para a soberania nacional, chamaram os fiéis ao discernimento, fizeram aquilo que se espera de pastores comprometidos com o Evangelho: orientaram as consciências. Não deveriam ser tratados como cabos eleitorais, mas reconhecidos como homens que têm a responsabilidade de iluminar a realidade social à luz de Jesus Cristo.

Entretanto, o que fizeram alguns católicos? Em vez de refletir sobre os argumentos apresentados, preferiram atacar seus pastores. Chamaram bispos de comunistas, acusaram-nos de defender ladrões, disseram que estavam contra o povo e que não tinham sabedoria para orientar os fiéis.

Desde quando discordar de um bispo significa deixar de ser católico? Não! Mas desde quando ser católico significa desprezar o ensinamento de seus pastores quando ele contraria nossas preferências políticas?

A Igreja não determina em quem devemos votar. A Igreja forma consciências. E a Doutrina Social da Igreja oferece critérios para avaliar projetos políticos: dignidade da pessoa humana, opção preferencial pelos pobres, solidariedade, subsidiariedade, justiça social, participação popular e bem comum.

Um cristão não pode avaliar um projeto político apenas pelo discurso religioso de quem o apresenta. Precisa perguntar: que país esse projeto pretende construir? Quem será beneficiado? Quem continuará esquecido? O que acontecerá com os trabalhadores, os assalariados, os pobres, os que não tiveram acesso à educação e os que lutam diariamente para sobreviver?

Política não é apenas escolher um sobrenome, uma família ou uma bandeira. É decidir sobre a vida de milhões de pessoas.

E a nossa Mãe, onde fica nessa história?

Nossa Senhora Aparecida não é apenas uma imagem de barro. É memória, identidade, cultura e espiritualidade de um povo. É a representação de uma história que atravessa gerações e que encontrou, na pequena imagem negra retirada das águas do Rio Paraíba do Sul, um sinal de esperança para os pobres, os simples e os esquecidos.

Em 1717, três pescadores encontraram primeiro o corpo e depois a cabeça daquela pequena imagem. A pesca, que até então não havia produzido resultados, tornou-se abundante. A partir daquele acontecimento, nasceu uma devoção que atravessou séculos e se tornou uma das maiores expressões da religiosidade brasileira.

Mas é preciso olhar também para o contexto histórico daquele encontro.

O Brasil vivia sob o domínio colonial português. A exploração econômica, a cobrança de impostos, a escravidão e as desigualdades marcavam profundamente a vida da população. O ouro alimentava os interesses da Coroa, enquanto os trabalhadores e os mais pobres suportavam o peso de um sistema que concentrava riquezas e poder.

Os três pescadores estavam inseridos naquela realidade colonial, marcada pelos interesses das autoridades e pelas obrigações impostas à população. A pequena imagem encontrada nas águas, porém, tornou-se símbolo de uma devoção que não ficou restrita aos poderosos. Foi acolhida pelo povo, especialmente pelos mais simples.

Aparecida tornou-se Mãe de um povo que precisava de esperança.

E aqui chegamos a uma questão que nós, católicos, não podemos tratar como secundária: a proposta de retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil, defendida por JB Carvalho em seu livro Bomba – A Verdade Pode Ser Explosiva (2001).

A gravidade dessa posição aparece na convocação apresentada na obra, pág. 82:

"Convoco a todos os brasileiros cristãos, que amam a Deus, que se levantem e verbalizem a vontade de Deus expressa em Sua Palavra que Aparecida não seja mais Senhora em nossa nação."

Não estamos falando de uma divergência teológica qualquer, nem de uma simples diferença entre católicos e evangélicos. Estamos diante de uma manifestação explícita contra o reconhecimento de Nossa Senhora Aparecida como Senhora de nossa nação, título que, para nós católicos, está profundamente ligado à sua condição de Padroeira do Brasil.

É preciso reconhecer que cada denominação religiosa tem o direito de professar sua fé e apresentar suas interpretações teológicas. Nenhum evangélico é obrigado a venerar Nossa Senhora. Nenhum cidadão precisa compartilhar a devoção católica. Mas a liberdade religiosa que protege o direito de alguém não acreditar na intercessão de Maria também protege o direito dos católicos de amá-la, venerá-la e reconhecer sua importância na história do Brasil.

O que não podemos aceitar é que uma convicção religiosa particular se transforme em projeto de imposição sobre toda a sociedade.

E é aqui que entra Flávio Bolsonaro.

É verdade que não podemos afirmar que o candidato tenha declarado pessoalmente que pretende retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil. Mas também não podemos fechar os olhos para suas relações políticas e religiosas, especialmente quando se aproxima de lideranças que defendem publicamente propostas dessa natureza.

Quando um candidato se apresenta como aliado, discípulo ou representante de determinada liderança religiosa, é legítimo perguntar até que ponto as ideias e os projetos dessa liderança também encontram espaço em seu projeto político.

Não basta dizer que se é cristão, levantar a Bíblia ou anunciar que se pretende decretar o Brasil como nação do Senhor Jesus. É preciso esclarecer que lugar haverá para os milhões de brasileiros que professam outras religiões e, particularmente, para a tradição católica que ajudou a construir a história espiritual e cultural deste país.

O problema não é um evangélico defender sua fé. Ele tem todo o direito de fazê-lo. O problema é querer transformar sua interpretação religiosa em projeto de Estado, diminuindo ou desqualificando a fé dos outros.

Por isso, um católico que vota em um candidato associado a esse ambiente religioso precisa, no mínimo, refletir sobre o que está apoiando. Não se trata de exigir que todos votem da mesma maneira, mas de perguntar se existe coerência entre a fé que se professa e o projeto político que se ajuda a eleger.

Afinal, como explicar que alguém que reza diante de Nossa Senhora Aparecida, participa de suas festas, carrega sua medalha e se emociona diante de sua imagem não considere preocupante apoiar um projeto político que se aproxima de uma liderança empenhada em questionar seu lugar como Padroeira do Brasil?

É nesse sentido que a expressão ganha força:

VOTEI CONTRA A MÃE!

Talvez alguns tenham votado sem conhecer o livro, sem saber das propostas de seu autor ou sem compreender as implicações dessas alianças. Mas a falta de conhecimento não elimina a necessidade de discernimento. A fé também exige estudo, memória e responsabilidade.

Nossa Senhora Aparecida não pertence exclusivamente aos católicos. Sua história ultrapassou os limites da Igreja e tornou-se parte da memória afetiva e cultural de milhões de brasileiros. Querer diminuir seu lugar na história nacional é desconsiderar uma herança que pertence à história do próprio Brasil.

A Mãe do Magnificat não é Mãe dos poderosos!

Maria não é símbolo de autoritarismo. Não é instrumento de perseguição religiosa. Não é bandeira de partido. Não é propriedade de uma liderança religiosa.

Maria é aquela mulher de Nazaré que disse sim a Deus. É aquela que, no Magnificat, anunciou que Deus derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes, sacia de bens os famintos e despede os ricos de mãos vazias (Lc 1,46-55).

Essa é a Maria do Evangelho!

A mesma Maria que não se colocou ao lado dos poderosos para garantir privilégios, mas reconheceu a ação de Deus na história dos pequenos. A mesma mulher que nos aponta para Jesus e nos ensina a fazer tudo aquilo que Ele nos disser.

Portanto, não basta carregar uma imagem de Nossa Senhora no peito, colocar seu retrato na parede ou organizar grandes festas em sua homenagem. É preciso compreender o Evangelho que ela nos ajuda a viver.

E há outra contradição que não podemos ignorar: a história de Nossa Senhora Aparecida nasceu em um Brasil marcado pela exploração colonial. Naquele tempo, a riqueza do ouro era levada para sustentar os interesses da Coroa Portuguesa, enquanto a população sofria com impostos, escravidão e desigualdades.

Hoje, diante das discussões sobre soberania nacional, riquezas minerais estratégicas, terras raras e interesses econômicos de grandes potências, não podemos aceitar que o Brasil volte a ser tratado como território disponível para os interesses de outros países.

Ontem, a Coroa Portuguesa. Hoje, os interesses econômicos internacionais. Os contextos são diferentes, mas a pergunta permanece: a quem serve a riqueza de nossa terra? Ao povo brasileiro ou aos poderosos que pretendem controlar seus destinos?

Aparecida, em sua origem popular, lembra-nos que a esperança não nasce dos palácios, mas também das águas, das mãos trabalhadoras e da vida dos pequenos.

Quem ama Nossa Senhora precisa respeitar a dignidade de todos os filhos e filhas de Deus, independentemente da religião que professam. Quem se orgulha da Igreja precisa conhecer sua história, sua tradição, seu magistério e sua Doutrina Social.

E, sobretudo, precisa aprender que a fé não pode ser utilizada para justificar projetos de submissão econômica, desigualdade social, autoritarismo ou desprezo pelos mais vulneráveis.

Não basta dizer que acredita. É preciso saber em que acredita!

Não podemos repetir os erros da história. Houve um tempo em que a religião esteve submetida aos interesses da Coroa Portuguesa, no regime do Padroado. Hoje, não podemos aceitar que a fé seja colocada a serviço de projetos políticos que pretendam submeter o Estado a uma única expressão religiosa ou transformar a Igreja em instrumento de poder.

Aparecida nasceu nas águas de um Brasil marcado pela exploração e pela desigualdade. Sua imagem tornou-se sinal de esperança para um povo que não queria continuar vivendo de joelhos diante dos poderosos.

Talvez esteja na hora de nós, católicos, recuperarmos um pouco dessa memória.

Não precisamos concordar com todos os bispos, nem transformar a Igreja em partido político. Precisamos, sim, ter maturidade para distinguir a orientação pastoral de uma liderança religiosa de uma disputa eleitoral. Precisamos compreender que o Evangelho não cabe inteiro em nenhum partido e que nenhum candidato pode reivindicar o monopólio de Deus.

A pergunta que fica não é simplesmente em quem você votou. É outra, muito mais profunda:

O seu voto foi coerente com a fé que você professa?

Porque, no final das contas, não adianta chamar Maria de Mãe e apoiar, sem discernimento, projetos que desrespeitam sua história, sua espiritualidade e a liberdade religiosa de nosso povo.

Não adianta levantar a Bíblia, gritar o nome de Jesus e esquecer que Ele passou a vida ao lado dos pobres, dos doentes, dos excluídos e daqueles que não tinham voz.

Se a política transformou Jesus em palanque, que os cristãos tenham coragem de devolver Jesus ao Evangelho.

Se transformaram as igrejas em comitês eleitorais, que os cristãos tenham coragem de devolver os templos à oração, à comunhão e ao serviço.

E se, na hora do voto, alguns se esqueceram da Mãe, que ao menos agora tenham coragem de rever sua própria história.

Nossa Senhora Aparecida não precisa de votos para continuar sendo Mãe. Mas nós, católicos, precisamos de consciência para não votar contra aquilo que dizemos acreditar.

VOTEI CONTRA A MÃE!

Que essa expressão não seja apenas uma provocação eleitoral, mas um convite à conversão da consciência, à fidelidade ao Evangelho e ao respeito pela história de nossa Igreja.

Porque uma coisa é discordar de Maria. Outra, muito diferente, é esquecer que ela é a Mãe que aprendemos a amar e que faz parte da história da nossa fé e da nossa gente.

 

sábado, 24 de outubro de 2026

O Episcopado Brasileiro não fala em nome de candidatos, mas em nome do Evangelho da Vida

 

Há algo que precisamos compreender, como sociedade e, especialmente, como católicos: nem toda palavra da Igreja que incomoda é partidária. Nem toda manifestação dos bispos sobre a realidade brasileira significa apoio a um candidato. Às vezes, o que incomoda não é a posição política da Igreja, mas a força de um Evangelho que se recusa a fazer silêncio diante das injustiças.

Fotos: Thiago Leon I Santuário Nacional

            A carta do Episcopado Brasileiro por ocasião do segundo turno das eleições precisa ser compreendida a partir de suas raízes, de seu húmus: o Evangelho de Jesus Cristo, a vida das comunidades, a tradição da Igreja e o compromisso com a dignidade humana. É desse chão que brotam a opção preferencial pelos pobres, o cuidado com os pequenos e a denúncia de tudo aquilo que ameaça a vida.

            Jesus não foi indiferente à realidade de seu povo. Aproximou-se dos doentes, acolheu os excluídos, sentou-se à mesa com os desprezados e denunciou a hipocrisia dos poderosos. Seu Evangelho não foi uma proposta de acomodação diante das injustiças, mas um chamado à conversão e à transformação das relações humanas. Como esperar, então, que os bispos permaneçam calados diante da fome, da desigualdade, da violência e da concentração de riquezas?

            A Doutrina Social da Igreja oferece critérios para discernir essa realidade: dignidade humana, bem comum, solidariedade, participação social e destinação universal dos bens. A economia deve estar a serviço da vida, e não a vida submetida à acumulação de riquezas por uma minoria.

            Por isso, causa estranheza que alguns, diante da carta dos bispos, se apressem em acusá-los de serem teólogos da libertação, como se o rótulo bastasse para desqualificar sua palavra. A Teologia da Libertação nasceu da reflexão sobre o Evangelho em meio à pobreza e às injustiças sociais. Como toda corrente teológica, suas formulações devem ser discernidas à luz do Evangelho e do Magistério. Mas reduzir essa reflexão a uma ideologia partidária é ignorar a história e a complexidade do pensamento cristão.

            Desde quando defender os pobres, denunciar a desigualdade e exigir justiça social significa abandonar a fé católica? A opção preferencial pelos pobres não pertence a um partido nem a uma corrente teológica: faz parte do compromisso evangélico e do ensinamento da Igreja. Rotular os bispos não responde à questão essencial: sua palavra contradiz Jesus Cristo ou nos incomoda porque nos obriga a levar seu Evangelho a sério?

            Quando o Episcopado fala da Casa Comum, do desarmamento, da paz, da justiça, da soberania nacional e das políticas públicas, não abandona sua missão religiosa para entrar indevidamente na política. Assume as consequências sociais da fé que professa.

            Defender a Casa Comum é reconhecer que a criação não pode ser reduzida a instrumento de exploração economica. Defender os pequenos é compreender que ninguém deveria ser privado de alimentação, moradia, saúde e educação dignas. Promover políticas públicas é reconhecer que o Estado tem responsabilidades com a população, sobretudo com aqueles que não dispõem dos meios necessários para garantir a própria sobrevivência.

            Defender a paz exige mais do que discursos: exige diálogo, desarmamento e compromisso com a vida. A violência não se resolve simplesmente armando a sociedade ou endurecendo penas, enquanto se ignoram as raízes da exclusão. Uma justiça pautada na ética deve responsabilizar quem pratica crimes, proteger as vítimas e enfrentar as desigualdades que condenam milhões de brasileiros à marginalização.

            Não podemos naturalizar um sistema economico que transforma o lucro em valor absoluto, concentra riquezas e deixa uma multidão lutando pelo pão de cada dia. Quando a acumulação vale mais do que a dignidade humana, a economia se distancia do projeto de sociedade que o Evangelho nos convida a construir.

            É nesse horizonte que devemos compreender o debate eleitoral brasileiro.

            Há quem pergunte por que os bispos estariam defendendo Lula. Mas defender a justiça social, os direitos dos trabalhadores, as políticas públicas e a redução da pobreza significa necessariamente fazer campanha para Lula?

            Não se trata de canonizar candidatos, mas de discernir projetos, trajetórias e compromissos à luz dos valores do Evangelho.

            O Episcopado não é cabo eleitoral. Sua missão não é escolher presidentes para o povo, mas oferecer critérios para que os cidadãos formem a consciência e exerçam o voto com liberdade e responsabilidade. Isso não significa silenciar diante de propostas e trajetórias políticas que tenham consequências concretas para a vida dos brasileiros.

            Reconhecer que a trajetória de Lula dialogou historicamente com os trabalhadores, os movimentos populares e os setores empobrecidos não significa ignorar seus erros, contradições ou responsabilidades. Significa admitir que a história política também deve ser avaliada pelas condições de vida que ajudou a transformar e pelo espaço que concedeu aos mais pobres.

            Da mesma forma, questionar a idoneidade, a trajetória e as propostas de Flávio Bolsonaro para a Presidência não significam automaticamente fazer campanha para seu adversário. É legítimo perguntar se sua atuação política, suas alianças e o projeto que representa respondem às necessidades do Brasil dos trabalhadores, das minorias historicamente discriminadas e da maioria pobre deste país. Essas avaliações, evidentemente, devem apoiar-se em fatos e argumentos, e não em ataques pessoais.

            O que não podemos aceitar é que a Igreja seja considerada legítima apenas quando sua palavra coincide com nossas preferências políticas. A neutralidade partidária não pode ser confundida com indiferença moral. Os bispos não precisam declarar apoio a um candidato para afirmar que a fome é inadmissível, que a pobreza não é fracasso individual e que o poder público tem responsabilidades diante dos que vivem sem condições dignas de subsistência.

            O voto é livre e pertence à consciência de cada cidadão. Mas a liberdade não nos dispensa da responsabilidade pelas consequências de nossas escolhas. Para quem se diz cristão, não basta perguntar qual candidato corresponde às próprias convicções. É preciso perguntar também qual projeto se aproxima da defesa da vida, da justiça, da paz e do bem comum.

            Defender o Episcopado não significa considerar os bispos infalíveis em toda análise política ou social. Significa reconhecer sua legitimidade para iluminar consciências, orientar os fiéis e denunciar aquilo que fere a dignidade humana. A comunhão com a Igreja não pode depender de os pastores dizerem apenas aquilo que desejamos ouvir.

            A palavra profética incomoda porque questiona privilégios, desmonta preconceitos e exige coerência. A missão da Igreja não é agradar a todos, mas permanecer fiel a Jesus Cristo, inclusive quando essa fidelidade confronta interesses econômicos e políticos.

            No fundo, a questão não é saber se os bispos estão com Lula ou contra Flávio Bolsonaro. É compreender se estamos dispostos a ficar ao lado da vida, dos pobres, dos vulneráveis e da Casa Comum.

            O Evangelho não nos pergunta apenas em quem votamos. Pergunta a quem amamos, quem defendemos e que sociedade estamos ajudando a construir.

            O Episcopado não precisa falar em nome de um candidato para cumprir sua missão. Precisa falar em nome de Jesus Cristo. E, quando o Evangelho toma partido, toma o partido da vida, da dignidade humana e da esperança que não abandona os pequenos.

 

sábado, 26 de setembro de 2026

NOSSA SENHORA NÃO PRECISA DE CABO ELEITORAL

Nossa Senhora Aparecida deve estar um pouco cansada.
Não de carregar o Menino Jesus — isso ela faz há séculos.
Talvez esteja cansada de carregar também os nossos discursos.
Ultimamente, parece que descobriram uma nova modalidade de devoção mariana: a devoção eleitoral.
Funciona mais ou menos assim: pega-se Nossa Senhora, coloca-se a imagem no meio da disputa política, acrescenta-se uma informação — verdadeira, falsa, distorcida ou mal compreendida — e pronto.
Temos uma guerra santa.
De um lado, os defensores da fé.
Do outro, os inimigos da fé.
E, no meio, Nossa Senhora Aparecida, provavelmente perguntando:
“Mas alguém aí se lembrou de Jesus?”
A polêmica recente mostrou como é fácil transformar a religião em munição eleitoral.
É importante, porém, colocar as coisas no seu devido lugar.
Circulou a informação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. O próprio candidato negou. A GloboNews corrigiu a informação e pediu desculpas, e o TSE determinou a remoção de publicações que apresentassem como verdadeira essa associação. O projeto citado nas redes é de 2007, foi apresentado pelo então deputado Victório Galli e arquivado em 2008.
Até aqui, os fatos.
Mas há um detalhe que não deveria ser simplesmente jogado para debaixo do tapete.
Flávio Bolsonaro afirmou publicamente que, se eleito presidente, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.
Não é preciso demonizar a frase.
Também não é preciso santificá-la.
É preciso apenas perguntar:
O que significa transformar uma profissão de fé em ato de governo?
Porque Jesus Cristo não precisa de decreto presidencial.
E o Reino de Deus não se estabelece por decreto, medida provisória ou assinatura de chefe de Estado.
É justamente aqui que a conversa fica séria.
Uma frase religiosa pode ser perfeitamente legítima como manifestação pessoal de fé. Mas, quando pronunciada por alguém que disputa a Presidência da República, ela inevitavelmente entra no debate sobre Estado, democracia, pluralismo religioso e liberdade de consciência.
E talvez essa linguagem tenha servido de gatilho — ou, pelo menos, de combustível — para que a disputa eleitoral passasse também pelo território dos símbolos religiosos.
De repente, Jesus de um lado.
Maria do outro.
E nós, pobres pecadores, fazendo dos dois cabos eleitorais.
É uma situação quase surreal.
Porque a Igreja Católica, justamente no contexto das eleições de 2026, está dizendo outra coisa.
A CNBB não indica candidatos nem partidos. Em sua mensagem ao povo brasileiro, os bispos convidam os católicos a participar das eleições com consciência, liberdade e responsabilidade, colocando no centro a dignidade humana, o bem comum e o compromisso ético.
E a própria análise de conjuntura da CNBB chama atenção para um problema que parece ter sido feito sob medida para os nossos tempos: polarização, desconfiança, dificuldade de diálogo e incapacidade de conviver com quem pensa diferente. A mensagem é simples e profundamente democrática: uma sociedade democrática não é aquela em que todos pensam da mesma maneira, mas aquela em que pessoas diferentes conseguem compartilhar instituições, respeitar regras comuns e reconhecer a dignidade de quem pensa diferente.
É uma pena que isso não viralize tanto quanto uma briga.
Porque talvez fosse exatamente disso que precisássemos nas redes sociais.
Menos “quem é o verdadeiro cristão?”
Mais:
“Como estamos tratando o nosso irmão?”
Menos guerra santa.
Mais discernimento.
Menos fake news com imagem de santo.
Mais verdade.
Menos candidato transformado em messias.
Mais cidadania.
Menos uso político da fé.
Mais fé transformando a política em serviço.
A própria formação eleitoral promovida por organismos ligados à CNBB chama atenção para a necessidade de combater a desinformação, a compra de votos, a corrupção, o abuso do poder e também a manipulação da fé.
Ora, eis uma palavra que deveria ficar escrita na porta de toda igreja durante o período eleitoral:
MANIPULAÇÃO.
Porque é possível manipular a fé de muitos modos.
Pode-se manipular Jesus.
Pode-se manipular Maria.
Pode-se manipular a Bíblia.
Pode-se manipular o medo.
Pode-se manipular a esperança.
E pode-se até manipular o sentimento religioso de um povo simples que ama Nossa Senhora e quer apenas viver sua fé em paz.
Por isso, talvez seja necessário repetir:
Nossa Senhora Aparecida não é cabo eleitoral.
Não é patrimônio de partido.
Não é propriedade ideológica.
Não pertence à direita.
Não pertence à esquerda.
Não pertence a candidato algum.
Maria pertence ao Evangelho.
E o Evangelho não é propriedade privada de ninguém.
Nossa Senhora Aparecida não foi encontrada nas águas do Paraíba para ser cabo eleitoral.
Não apareceu para escolher partido.
Não pediu santinho.
Não gravou vídeo.
Não participou de comício.
E, até onde sabemos, nunca declarou voto.
Ela simplesmente apareceu.
Pequena.
Quebrada.
Negra.
Silenciosa.
E o povo reconheceu nela a presença materna.
Talvez justamente por isso incomode tanto quando tentamos transformá-la em propriedade ideológica.
Maria é grande demais para caber em partido.
O Evangelho é grande demais para caber em ideologia.
E Jesus é grande demais para caber na legenda de qualquer candidato.
O problema é que nós gostamos de diminuir aquilo que é sagrado até caber perfeitamente nas nossas opiniões.
Se o candidato que eu apoio fala de Nossa Senhora, eu digo:
“Homem de fé!”
Se o adversário fala, desconfio:
“Está usando a religião!”
Se alguém critica o meu candidato, digo que está atacando a Igreja.
Se alguém critica o candidato do outro, considero legítimo exercício da democracia.
É uma teologia bastante conveniente.
Temos até uma espécie de dogma da dupla medida:
quando favorece os meus, é fé;
quando favorece os outros, é manipulação.
E Nossa Senhora?
Continua em silêncio.
Talvez porque tenha aprendido, desde Caná, que não precisa disputar espaço com ninguém.
Ela simplesmente diz:
“Fazei tudo o que ele vos disser.”
E Jesus não disse:
“Transformai o adversário político em inimigo.”
Não disse:
“Compartilhai qualquer notícia que confirme aquilo que vocês já pensam.”
Não disse:
“Defendei minha Mãe atacando o irmão.”
Disse:
“Amai-vos.”
E isso é muito mais difícil.
É fácil defender Nossa Senhora numa postagem.
Difícil é defender a verdade quando ela desmente aquilo que gostaríamos que fosse verdade.
É fácil publicar uma imagem de Maria.
Difícil é tratar com respeito alguém que vota diferente de nós.
É fácil dizer “Salve Rainha”.
Difícil é não transformar o outro em demônio porque ele pensa diferente.
É fácil rezar uma Ave-Maria.
Difícil é viver como irmão.
E aqui está a ironia de tudo isso:
estamos brigando para decidir quem defende Nossa Senhora, enquanto ninguém parece perguntar se Nossa Senhora aprovaria o modo como estamos brigando.
Talvez a grande heresia do nosso tempo não seja deixar de falar de Deus.
Talvez seja falar tanto de Deus que já não conseguimos ouvir o que Deus está dizendo.
E, enquanto discutimos quem é mais católico, a fome continua.
Enquanto discutimos quem defende mais Nossa Senhora, existem pessoas sem moradia.
Enquanto brigamos por causa de políticos, famílias continuam divididas.
Enquanto disputamos quem tem a fé verdadeira, há gente abandonada precisando de uma palavra, de um prato de comida, de uma visita, de uma mão estendida.
E Maria?
Maria continua apontando para Jesus.
Como sempre.
Talvez esteja na hora de nós também olharmos para onde ela aponta.
Porque Nossa Senhora Aparecida não precisa de defensores que espalhem ódio.
Não precisa de devotos que espalhem mentira.
Não precisa de cristãos que transformem política em religião e religião em arma política.
Ela precisa de filhos que levem a sério o Evangelho.
E talvez seja justamente por isso que a pequena imagem negra encontrada nas águas continue sendo tão poderosa.
Porque ela não grita.
Não acusa.
Não faz campanha.
Não divide.
Não precisa provar nada.
Ela simplesmente aponta para Jesus.
Nós é que, às vezes, fazemos questão de colocar o dedo na frente dela.
E, olhando para nossas próprias mãos, começamos a discutir:
“Meu candidato é mais cristão que o seu.”
Enquanto Maria, lá do alto do altar, talvez esteja pensando:
“Meus filhos, eu não trouxe vocês até aqui para isso.”
Salve Nossa Senhora Aparecida.
E que ela nos livre de uma coisa ainda mais perigosa do que perder uma eleição:
perder o Evangelho tentando vencê-la.

J. A. Galiani 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

A FESTA E O ANALFABETO POLÍTICO!

 

Sobre analfabetismo político e outras grosserias.


(imagem gerada pelo GPT)

Há um tipo curioso de analfabetismo que não aparece nos censos, não se mede em provas e não se resolve com diploma.

É o analfabetismo de quem sabe ler palavras, mas não sabe ler o ambiente.

Sabe escrever, mas não sabe conversar.

Sabe opinar, mas não sabe ouvir.

Sabe exigir respeito, mas não sabe respeitar.

E, principalmente, não compreende uma regra elementar da convivência: a casa dos outros não é extensão da própria casa.

Há pessoas que chegam a uma festa como quem chega para fiscalizar território. Comem, bebem, sentam-se à mesa, conversam com sua tribo, divertem-se e, de repente, esquecem uma pequena palavra chamada educação.

Foi assim que, certa vez, uma simples referência à política, em meio a uma confraternização, recebeu uma resposta digna de um pequeno manual de autoritarismo doméstico:

Se começar a falar de política, eu saio da mesa, O MESMO QUE CALE A BOCA!

Que curioso!

Não querer falar de política é um direito.

Pedir para mudar de assunto é perfeitamente legítimo.

Levantar-se e sair também.

Mas mandar alguém calar a boca é outra coisa.

“Prefiro não falar sobre política” é limite.

“Se continuar, eu saio” é escolha.

“Cala a boca” é grosseria.

A diferença parece pequena, mas revela muito. Porque quem não quer ouvir pode simplesmente não ouvir. Quem não quer participar pode se retirar. O problema começa quando alguém transforma sua preferência pessoal em regra para todos.

Afinal, ninguém é obrigado a gostar de política.

Mas será que precisamos mandar alguém calar a boca para afirmar isso?

Não aprendemos que é possível discordar sem humilhar?

Não seria mais civilizado dizer: “Esse assunto me incomoda. Podemos conversar sobre outra coisa?”

Talvez.

Mas há pessoas que confundem convicção com arrogância, liberdade com imposição e limite com censura.

E aqui está o detalhe que parece escapar ao analfabeto político: a pessoa estava em uma festa que não era dela.

Recebeu convite.

Recebeu hospitalidade.

Sentou-se à mesa.

Participou da confraternização.

E, de repente, comportou-se como se o convite tivesse vindo acompanhado de uma procuração.

Como se tivesse recebido também o direito de determinar o que o anfitrião poderia ou não dizer.

É uma curiosa inversão de papéis: o convidado vira autoridade; o anfitrião vira subordinado; a hospitalidade vira obrigação; e a gratidão desaparece debaixo da mesa.

Há pessoas assim.

Não entram em uma casa. Ocupam um território.

Não participam da festa. Tomam posse dela.

Não dialogam. Sentenciam.

E depois confundem grosseria com personalidade.

Talvez precisem reaprender uma regra antiga: na casa dos outros, podemos não gostar de tudo. Só não precisamos ser grosseiros por causa disso.

A festa não precisa obedecer às nossas convicções.

A brincadeira não precisa passar pelo nosso tribunal moral.

O anfitrião não precisa pedir autorização para falar.

Podemos discordar. Podemos ficar quietos. Podemos mudar de assunto. Podemos até ir embora.

Mas existe uma diferença monumental entre sair da mesa porque algo nos incomoda e tentar calar a mesa inteira para não ouvir aquilo de que discordamos.

Isso não é liberdade. É intolerância.

O analfabeto político não é necessariamente aquele que nada entende de política. Às vezes conhece slogans, repete frases, identifica inimigos e sabe perfeitamente quem merece sua indignação.

Só não aprendeu a fazer uma pergunta simples e devastadora: “E se eu estiver errado?”

Essa pergunta exige humildade.

E humildade parece ser artigo raro.

O analfabeto político vive dentro da própria bolha. Ali, todos pensam igual, repetem as mesmas certezas e confirmam as mesmas verdades.

Quando alguém pensa diferente, a bolha se sente ameaçada.

Então vem a ironia.

O julgamento.

A grosseria.

O “cala a boca”.

Porque, quando não se consegue dialogar com o diferente, tenta-se silenciá-lo.

E é assim que uma frase de poucos segundos pode destruir uma memória de muitos anos.

Uma festa que deveria produzir alegria deixa um desconforto.

Um encontro que deveria aproximar cria distância.

Um gesto de acolhimento termina marcado por uma palavra atravessada.

Depois alguém pergunta: “Por que as pessoas estão se afastando?”

Talvez porque ninguém queira permanecer onde precisa medir cada palavra para não ser desrespeitado.

Ninguém é obrigado a concordar conosco.

Mas todos deveriam ser capazes de respeitar quem pensa diferente.

O sujeito pode até não falar de política.

Mas sua atitude é profundamente política.

Porque autoritarismo também é uma posição política, ainda que o autoritário não perceba.

É querer controlar.

É impor.

É acreditar que o outro precisa se calar para que nossa certeza permaneça intacta.

E talvez seja por isso que existam tantos analfabetos políticos entre nós: gente que fala de democracia e pratica autoritarismo; que fala de família e destrói relações; que fala de Deus e não consegue enxergar o próximo; que fala de respeito e manda os outros calarem a boca.

Gente que recebe carinho e devolve grosseria. Gente que come do prato servido com generosidade e depois cospe exatamente no prato que lhe alimentou.

Talvez seja hora de uma pequena revisão de consciência.

Antes de corrigir o outro, olhar para a própria trave.

Antes de fiscalizar a boca alheia, aprender a governar a própria língua.

Antes de exigir silêncio, aprender a escutar.

Antes de entrar na casa dos outros com certezas absolutas, lembrar: o convite não transfere a propriedade.

E talvez essa seja a grande ironia dos nossos tempos: há pessoas tão preocupadas em controlar o que os outros dizem que jamais percebem o que suas próprias palavras revelam sobre elas.

Porque um “cala a boca” pode durar dois segundos.

Mas há palavras que permanecem.

Ficam sentadas à mesa depois que todos vão embora.

Ficam no silêncio depois da festa.

Ficam na memória de quem ofereceu a casa, a comida, o afeto e a acolhida.

E é nesse silêncio que começa o verdadeiro julgamento: não o julgamento dos outros, mas aquele que fazemos de nós mesmos quando já não existe plateia.

Então fica uma pergunta para quem um dia se sentou à mesa alheia, desfrutou da hospitalidade de quem o recebeu e, diante de uma simples divergência, decidiu impor ao anfitrião o próprio limite: Você mandou o outro calar a boca porque precisava proteger a sua paz — ou porque não suportava ouvir uma voz que não obedecia à sua?

E outra, ainda mais incômoda: quando você disse “se começar a falar de política, eu saio da mesa”, percebeu que a mesa não era sua?

Porque sair é um direito.

Discordar é um direito.

Não ouvir é um direito.

Mas humilhar nunca foi direito de ninguém.

Talvez, depois de tanta preocupação com aquilo que os outros deveriam falar, pensar ou fazer, reste uma última pergunta: o que havia de tão ameaçador na voz do outro para que você precisasse mandá-la calar?

Talvez a resposta esteja justamente no silêncio.

Não naquele que você tentou impor.

Mas naquele que sobra quando a festa termina, a música acaba, os copos são recolhidos e cada um volta para sua casa.

É nesse silêncio que a consciência pergunta.

É nesse silêncio que a arrogância perde a voz.

É nesse silêncio que descobrimos se éramos realmente donos de nossas convicções — ou apenas prisioneiros delas.

Porque, no fim, a mesa era do anfitrião. A casa era do anfitrião. A festa era do anfitrião.

Mas a educação deveria ser de todos.

E talvez essa seja a única regra que jamais deveria precisar ser anunciada: quem não sabe respeitar a mesa que o acolheu talvez ainda não tenha aprendido a merecer o lugar que ocupa nela.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

7 DE SETEMBRO: A PÁTRIA QUE AINDA PRECISAMOS CONQUISTAR

Sete de Setembro.
O dia amanhece vestido de verde e amarelo. As bandeiras tremulam, os hinos ecoam, os desfiles percorrem as ruas e, por algumas horas, somos convidados a lembrar que pertencemos a uma mesma terra.
É bonito.
Mas uma pergunta insiste em atravessar a festa:
Que independência estamos celebrando?
Independência de quem? Para quem? E para quê?
Talvez seja preciso, neste Dia da Pátria, diminuir o volume dos discursos e aumentar o volume da consciência.
Porque o Brasil não cabe nos palanques.
Não cabe nas brigas de esquerda contra direita. Não cabe nas guerras das redes sociais. Não cabe nos escândalos de cada manhã, nas acusações de cada noite, nas fake news travestidas de verdade nem nas verdades convenientemente escondidas.
O Brasil é muito maior do que a politicagem que, tantas vezes, sequestra a nossa esperança.
Enquanto alguns discutem quem é o culpado, milhões de brasileiros continuam perguntando quem vai lhes dar uma oportunidade.
Enquanto uns disputam poder, outros disputam um prato de comida.
Enquanto alguns acumulam milhões, outros contam moedas para comprar o pão.
Enquanto alguns discutem ideologias, há crianças que ainda lutam contra a fome e a falta de uma escola capaz de lhes abrir as portas do futuro.
Este também é o Brasil.
E talvez seja justamente esse Brasil que precisamos enxergar neste 7 de Setembro.
Um Brasil que possui uma das maiores riquezas naturais do planeta.
Um Brasil de rios imensos, florestas majestosas, praias deslumbrantes, montanhas, campos férteis e uma natureza que parece ter sido desenhada pela mão de Deus.
Um Brasil de cidades que encantam, estradas que atravessam paisagens extraordinárias e lugares que fazem qualquer visitante compreender por que esta terra é tão admirada.
Mas há uma contradição dolorosa escondida atrás de tanta beleza.
Como pode uma terra tão rica conviver com tanta pobreza?
Como podemos produzir tanto alimento e ainda permitir que brasileiros passem fome?
Como podemos falar em desenvolvimento enquanto milhões não têm acesso a uma educação capaz de romper o círculo da pobreza?
Como podemos celebrar o futuro quando tantos jovens não encontram outra perspectiva senão a violência, o tráfico, a marginalidade ou a migração em busca de uma vida melhor?
O Brasil produz riqueza.
E muita riqueza.
O problema não é produzir.
O problema é quando a riqueza produzida por muitos termina concentrada nas mãos de poucos.
O lucro não é pecado. O capital não é inimigo. Empreender, produzir, investir, crescer e prosperar fazem parte da vida econômica de uma sociedade.
Mas há uma fronteira que não podemos ultrapassar:
quando o dinheiro vale mais do que a pessoa, a economia deixa de servir à vida.
Quando o lucro se torna absoluto, o ser humano vira instrumento.
Quando a riqueza não é acompanhada de responsabilidade social, a prosperidade de alguns pode se transformar na miséria de muitos.
E quando a desigualdade se torna insuportável, nasce o terreno fértil para a corrupção, para o populismo, para a manipulação, para a compra de consciências e para a velha politicagem que se alimenta justamente da pobreza que deveria combater.
E nós, brasileiros, continuamos brigando.
Brigamos por políticos como se fossem jogadores de futebol.
Defendemos partidos como se fossem religiões.
Compartilhamos notícias sem saber se são verdadeiras.
Acreditamos naquilo que confirma nossas convicções e rejeitamos aquilo que nos incomoda.
E, enquanto isso, a Pátria permanece esperando.
Esperando por educação.
Esperando por saúde.
Esperando por segurança.
Esperando por justiça.
Esperando por trabalho.
Esperando por dignidade.
Talvez o Brasil não precise de mais brasileiros apaixonados por políticos.
Precise, sim, de brasileiros apaixonados pelo Brasil.
Apaixonados pelo professor que ensina.
Pelo trabalhador que acorda antes do sol.
Pelo agricultor que coloca alimento na nossa mesa.
Pela criança que precisa de uma escola.
Pelo jovem que precisa de oportunidade.
Pelo idoso que merece respeito.
Pela família que luta para sobreviver.
Pela cidade que precisa ser cuidada.
Pela natureza que não pode continuar sendo destruída em nome da ganância.
Pelo cidadão que tem direito de viver sem medo.
Pátria não é apenas uma bandeira hasteada.
Pátria é uma criança alimentada.
Pátria é uma escola que funciona.
Pátria é um hospital que acolhe.
Pátria é uma estrada segura.
Pátria é uma família que pode viver em paz.
Pátria é um trabalhador que recebe salário digno.
Pátria é um jovem que consegue sonhar sem precisar abandonar sua terra.
Pátria é uma sociedade na qual ninguém seja considerado menos humano porque nasceu pobre.
Por isso, talvez o nosso maior gesto patriótico neste 7 de Setembro não seja apenas cantar o Hino Nacional.
Seja perguntar:
O que estou fazendo para construir o Brasil que desejo?
Porque é muito fácil amar a Pátria quando ela aparece nos desfiles.
Difícil é amá-la quando encontramos um menino pedindo comida na rua.
Difícil é amá-la quando vemos uma família morando em condições indignas.
Difícil é amá-la quando encontramos uma criança sem escola, um jovem sem esperança ou um idoso abandonado.
É aí que o patriotismo deixa de ser discurso e se transforma em compromisso.
O Brasil não é lixo.
Lixo é aquilo que fazemos da Pátria quando permitimos que a corrupção, a ganância, a mentira, a violência e a indiferença destruam aquilo que poderia ser uma das maiores nações do mundo.
Não precisamos destruir o Brasil.
Precisamos reconstruí-lo.
Não precisamos de uma Pátria perfeita.
Precisamos de uma Pátria mais justa.
Não precisamos de unanimidade.
Precisamos aprender a conviver com nossas diferenças sem transformar o outro em inimigo.
Somos uma nação mestiça, plural, construída pelo encontro de povos, culturas, histórias e sofrimentos.
Aqui se encontram indígenas, africanos, europeus, asiáticos e tantos outros povos.
O Brasil é mistura.
É diversidade.
É contradição.
É dor e esperança.
É pobreza e riqueza.
É desigualdade e solidariedade.
É lágrima e carnaval.
É sofrimento e festa.
É um povo que, mesmo quando quase não tem nada, muitas vezes ainda encontra forças para repartir o pouco que possui.
Talvez essa seja a nossa maior riqueza: o brasileiro.
Neste 7 de Setembro, portanto, não quero apenas um Brasil independente de Portugal.
Quero um Brasil independente da fome.
Independente do analfabetismo.
Independente da violência.
Independente da corrupção.
Independente da manipulação.
Independente da miséria.
Independente da desigualdade que transforma riqueza em privilégio e pobreza em destino.
Quero um Brasil onde o capital esteja a serviço do desenvolvimento humano.
Onde o lucro caminhe ao lado da responsabilidade.
Onde a política seja serviço, e não negócio.
Onde governar seja cuidar.
Onde o poder tenha limites.
Onde a verdade não seja fabricada para favorecer interesses.
Onde nenhuma criança seja condenada pela pobreza em que nasceu.
Onde nenhum jovem precise escolher entre a fome e o crime.
Onde nenhum brasileiro tenha vergonha de ser brasileiro.
Porque a independência que celebramos em 1822 foi política.
A independência que ainda precisamos conquistar é social.
E essa não será proclamada por um príncipe às margens de um riacho.
Será construída todos os dias.
Nas escolas.
Nas famílias.
Nas empresas.
Nas igrejas.
Nas comunidades.
Nas ruas.
Nas urnas.
E, sobretudo, dentro da consciência de cada brasileiro.
Que neste 7 de Setembro o verde e o amarelo não sejam propriedade de partidos, grupos ou ideologias.
Que sejam as cores de todos nós.
Que o Hino Nacional não seja apenas uma música que cantamos.
Que seja um compromisso que assumimos.
E que a nossa bandeira não seja apenas um pedaço de tecido tremulando ao vento.
Que ela seja um lembrete permanente de que esta terra é nossa responsabilidade.
Porque o Brasil não está pronto.
O Brasil está esperando por nós.
E a verdadeira independência começará no dia em que todos os brasileiros puderem olhar para esta imensa Pátria e dizer, sem medo e sem vergonha:
“Esta terra também é minha.
Esta riqueza também me pertence.
Esta Pátria também cuidou de mim.”
José A. Galiani 

domingo, 19 de julho de 2026

São João Batista - 90 de Presença: A Igreja que Fez Morada Entre Nós

E há lugares que apenas frequentamos. E há lugares que nos formam. A Paróquia São João Batista é um desses lugares. Ao celebrar seus noventa anos de história, não comemoramos apenas a idade de uma comunidade. Celebramos noventa anos de Evangelho vivido, de fé partilhada, de vidas transformadas e de uma Igreja que escolheu permanecer no meio do povo.
Hoje, ao olhar para trás, meu coração se enche de gratidão. Gratidão, antes de tudo, aos pioneiros: aos sacerdotes palotinos e aos inúmeros leigos e leigas que sonharam esta comunidade, ergueram suas paredes e, sobretudo, construíram uma Igreja viva, feita de pessoas, de oração e de serviço.
Com alegria e um legítimo orgulho, posso dizer: "Sou da São João!"
Há trinta e quatro anos esta paróquia é parte da minha história e da história da minha família. Aqui aprendi que evangelizar é muito mais do que falar de Jesus; é colocar a própria vida a serviço do Reino de Deus.
Quantas experiências cabem em três décadas! Limpar a igreja antes das celebrações, preparar a catequese, proclamar a Palavra como leitor, tocar nas missas, pregar retiros e encontros, formar pais e padrinhos, acompanhar casais no Curso de Noivos, servir o ECC, estudar e ensinar o Catecismo da Igreja Católica, apresentar os documentos da Igreja, refletir sobre os textos-base da Campanha da Fraternidade, conduzir retiros para Ministros Extraordinários da Sagrada Comunhão, promover formações para os leigos da Fé e Política, preparar pequenas encenações para ajudar as crianças a compreenderem o Evangelho, organizar teatros com os jovens durante a Semana Santa, caminhar nas procissões anunciando Cristo pelas ruas, animar comunidades, participar dos conselhos pastorais, trabalhar nas festas do mês de maio...
Poderia continuar enumerando tantos outros serviços. Mas, olhando hoje, percebo que nenhum deles foi um peso. Todos foram um privilégio. Servir à Igreja nunca me empobreceu; ao contrário, fez de mim uma pessoa melhor.
Ao longo desses anos, tive a graça de conviver com cerca de nove párocos. Cada um tinha seu jeito, sua personalidade, seus dons e desafios. Nenhum era igual ao outro. Mas todos tinham algo em comum: eram homens de Deus. Sacerdotes palotinos que acreditavam na força do laicato e abriam espaço para que cada batizado pudesse colocar seus dons a serviço da comunidade. Pastorearam nosso povo com fé, esperança e caridade. A todos, minha sincera gratidão.
Quando penso na Paróquia São João Batista, não vejo apenas um templo. Vejo um lugar onde crianças foram batizadas, jovens descobriram sua vocação, casais iniciaram suas famílias, idosos encontraram consolo e tantos irmãos despediram-se desta vida sustentados pela esperança da ressurreição.
A Igreja esteve presente em nosso bairro quando havia motivos para sorrir e também quando as lágrimas pareciam não ter fim. Esteve nas casas, nas ruas, nas capelas, nos salões, nas festas, nas missões, nas celebrações simples e nas grandes solenidades. Sempre anunciando que Deus caminha conosco.
Noventa anos não pertencem apenas ao passado. São uma responsabilidade para o futuro. Cada geração recebeu a fé como um dom e tem o compromisso de transmiti-la à geração seguinte. Agora cabe a nós manter acesa essa chama que tantos, antes de nós, conservaram com sacrifício, oração e amor.
Minha gratidão não nasce apenas das lembranças. Nasce da certeza de que Deus escreveu uma parte importante da minha história dentro desta comunidade. Tudo o que pude oferecer foi pequeno diante de tudo o que recebi.
Parabéns, Paróquia São João Batista, pelos seus noventa anos de evangelização. Que São João Batista continue apontando para Cristo, como sempre fez: "É preciso que Ele cresça."
E que, muitos anos depois de nós, outras pessoas possam olhar para esta mesma comunidade e dizer, com o mesmo brilho nos olhos e a mesma alegria no coração:
"Também eu sou da São João!"

sexta-feira, 17 de julho de 2026

A Casa da Mãe Nunca Deixa de Existir


Há ausências que não fazem barulho, mas mudam completamente o sentido das coisas.
O luto não é uma estrada reta. Ele passa pela negação, pela revolta, pela tristeza profunda, pela aceitação... e, mesmo quando pensamos ter aprendido a conviver com a perda, basta um detalhe para que a saudade volte com toda a sua força.
É assim comigo.
Durante anos, viajar significava preparar o coração para voltar à casa da minha mãe, Clélia Thereza Ciambroni Galiani. Era um compromisso sagrado. Organizava a agenda, economizava o dinheiro da viagem, fazia planos e iniciava a contagem regressiva. Não importava o cansaço nem a distância. No final do caminho, havia alguém esperando.
Hoje, às vésperas de mais uma viagem, percebo que falta alguma coisa.
As malas estão prontas. A estrada continua a mesma. A cidade continua existindo.
Mas já não existe a casa da minha mãe.
Sei que encontrarei familiares queridos, que me receberão com carinho e generosidade. Sou profundamente agradecido por isso. Mas há uma verdade que somente quem perdeu a mãe consegue compreender: casa de mãe é casa de mãe.
Ela era mais do que um endereço. Era um porto seguro. Um lugar onde eu nunca precisava explicar minhas dores, porque ela as percebia antes mesmo das palavras. Era o café preparado com carinho, a comida que tinha gosto de infância, as conversas sem pressa, a bênção na despedida e aquela certeza silenciosa de que sempre haveria um lugar para voltar.
Agora existe um vazio.
Um vácuo.
Como se uma peça essencial da vida tivesse sido retirada, deixando tudo aparentemente no lugar, mas nada exatamente igual.
Nessas horas, lembro-me daquele verso tão simples e tão profundo:
"Quando bater a saudade, olha aqui pra cima..."
Então eu olho.
Olho para o céu, não para procurar alguém distante, mas para renovar a esperança de que o amor não morre. A fé cristã nos ensina que a morte não destrói os laços construídos no amor. Ela apenas transforma a maneira como eles continuam existindo.
Minha mãe já não me espera na janela.
Mas continua me acompanhando nas lembranças, nos valores que me ensinou, na fé que cultivou em nossa família e em cada gesto de cuidado que aprendi com ela.
Hoje compreendo que a maior herança que uma mãe deixa não é uma casa de tijolos. É a casa invisível que ela constrói dentro do coração dos filhos. Essa ninguém vende, ninguém destrói e ninguém é capaz de ocupar.
Obrigado, mãe.
Obrigado, Clélia, por cada sacrifício escondido, por cada oração feita em silêncio, por cada abraço, por cada conselho, por ter me ensinado que amar é cuidar e servir.
A saudade continua doendo, porque o amor continua vivo.
E talvez seja esse o maior privilégio de um filho: sentir falta de quem amou tanto.
Enquanto eu viver, levarei comigo sua memória, seu exemplo e sua ternura.
E quando a saudade bater mais forte, olharei para o céu.
Não apenas porque a música aconselha, mas porque a fé me garante que um dia nos reencontraremos.
Até lá, seguirei caminhando com o coração cheio de saudade, mas, acima de tudo, cheio de gratidão.
Porque o amor de uma mãe é um presente de Deus que nem a morte consegue apagar.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE

A cena durou poucos segundos. Bastaria um piscar de olhos para perdê-la. Mas há cenas que, mesmo rápidas, permanecem para sempre gravadas na consciência.

Um homem sua filha e entradi caminhavam pela calçada. Nas mãos, sacolas plásticas denunciavam que voltavam das compras. 

Uma criança. Pequena. Silenciosa. Apenas caminhava.

Nada indicava perigo. Nenhuma discussão. Nenhum choro. Nenhuma desobediência aparente.

De repente, sem aviso, o homem ergueu a perna e desferiu um chute violento na criança. O pequeno corpo foi lançado ao chão como se não tivesse valor algum. Não era um brinquedo que caía. Era uma vida.

O mundo não parou.

Os carros continuaram passando. Algumas pessoas olharam rapidamente. Outras fingiram não ver. Um cidadão fez a intervenção.

Foi impossível não pensar: assim caminha a humanidade.

Uma humanidade que perdeu a capacidade de se indignar. Que naturaliza a brutalidade. Que chama de "educação" aquilo que é agressão. Que acredita que a força substitui o amor e que o medo educa melhor do que o carinho.

O chute não atingiu apenas uma criança. Atingiu todos nós. Feriu a esperança de que as novas gerações cresçam cercadas de cuidado. Feriu a própria dignidade humana.

Enquanto crianças forem tratadas como objetos sobre os quais os adultos descarregam suas frustrações, nossa civilização continuará doente. Nenhum progresso tecnológico, nenhuma riqueza, nenhum discurso religioso ou político poderá esconder essa vergonha.

Uma sociedade é medida pela forma como trata seus pequenos, seus frágeis e seus indefesos. Quando um adulto levanta o pé contra uma criança, é toda a humanidade que cai junto.

E talvez o mais assustador não seja o chute.

Seja o silêncio.

Porque o silêncio dos que veem, dos que justificam e dos que se acostumaram é o terreno onde a violência cria raízes.

Assim caminha a humanidade... e, se não aprendermos a proteger nossas crianças, caminharemos cada vez mais depressa para o abismo.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Clélia: uma mulher que permanece!

Há exatamente um ano, 03/07/2025, minha mãe, Clélia Thereza Ciambroni Galiani, fez sua Páscoa. A palavra "Páscoa" é bonita porque não fala apenas de partida; fala de passagem. Para nós, que ficamos, permanece a saudade. Para quem viveu na fé, permanece a esperança de um encontro definitivo com Deus.
Ao longo deste primeiro ano, muitas vezes senti que a ausência física nunca consegue vencer a força das lembranças. Elas aparecem nos gestos mais simples, nas palavras que ela costumava dizer, nos valores que nos transmitiu e na maneira como nos ensinou a viver. O tempo não apaga uma mãe. Apenas transforma sua presença. Ela deixa de ser vista pelos olhos e passa a ser encontrada no coração.
Antes, porém, de recordar as mulheres da Bíblia, é importante dizer que não escrevo estas linhas para santificar minha mãe ou colocá-la num pedestal. Ela foi uma mulher de carne e osso, marcada, como todos nós, pelas limitações da condição humana. Teve virtudes admiráveis, mas também conheceu suas fragilidades, seus pecados, suas quedas e suas misérias. Em sua história também houve noites escuras, momentos de dor, dúvidas, conflitos e trevas. Como todos nós, precisou aprender, pedir perdão, recomeçar e confiar na misericórdia de Deus. Afinal, Deus não escreve sua história apenas com pessoas perfeitas, porque elas não existem. Ele realiza sua obra por meio de homens e mulheres que, entre acertos e erros, permitem que sua graça os transforme. É desse modo que me recordo de minha mãe: não como alguém sem defeitos, mas como uma mulher que procurou viver, lutar, recomeçar e amar dentro das possibilidades e dos limites de sua humanidade.
Quando penso em minha mãe, vejo nela um pouco das grandes mulheres da Bíblia. Como Maria, mãe de Jesus, viveu a humildade e fez de sua vida um constante "sim" ao amor, à família e à vontade de Deus. Sem alarde, mostrou que a grandeza está no serviço e na capacidade de cuidar.
Como Rute, foi fiel. Fiel à família, aos amigos, aos compromissos assumidos e aos princípios que jamais negociou. Sua lealdade era um porto seguro para todos os que conviviam com ela.
Também carregava a coragem de Ester. Nem sempre as batalhas eram visíveis, mas ela enfrentou com dignidade as dificuldades que a vida lhe apresentou. Sua força nunca foi feita de palavras grandiosas, mas da serenidade de quem confia em Deus.
Havia nela a sabedoria de Débora. Quantas decisões foram iluminadas por seus conselhos! Quantas vezes sua experiência ajudou a encontrar caminhos quando tudo parecia confuso! Sua palavra era firme, mas sempre acompanhada pelo carinho de quem desejava apenas o bem.
Como Ana, conhecia o poder da oração. Muitas das bênçãos que recebemos certamente passaram por suas preces silenciosas, feitas com o coração de mãe que nunca deixa de confiar na providência divina.
E como Marta, dedicou-se incansavelmente ao cuidado da casa, da família e de todos que precisavam de acolhida. Mas também tinha algo de Maria de Betânia: sabia que o amor vale mais do que qualquer riqueza e que a verdadeira felicidade nasce de um coração que sabe escutar e amar.
Hoje compreendo que essas mulheres bíblicas não pertencem apenas às páginas da Sagrada Escritura. Elas continuam vivendo na história de tantas mulheres simples e extraordinárias, como minha mãe. Em Clélia, elas encontraram um novo rosto. Um rosto marcado pela ternura, pela firmeza, pela fé e pelo amor, mas também pela luta diária para vencer suas limitações. Talvez seja justamente isso que torna seu testemunho tão belo: Deus não agiu apesar de sua fragilidade, mas através dela. Sua vida recorda que a graça de Deus não elimina nossa humanidade; ela a transforma e a conduz.
Neste primeiro aniversário de sua Páscoa, a saudade continua presente, mas já não caminha sozinha. Ela vem acompanhada da gratidão. Gratidão pelo dom de sua vida, pelos ensinamentos que deixou, pelo amor que distribuiu sem medidas, pelos perdões que concedeu e recebeu, pelas vezes em que caiu e se levantou, e pelo exemplo que continua iluminando nossos passos.
Tenho saudade de sua voz, de seu sorriso, de sua presença. Mas, acima de tudo, agradeço a Deus pelo privilégio de ter sido seu filho. O amor de uma mãe não termina com a morte. Ele atravessa o tempo, vence o silêncio e permanece vivo naqueles que aprenderam, por meio dela, o verdadeiro significado da palavra amor.
Que Deus a tenha acolhido no abraço eterno reservado aos seus filhos e filhas. E que um dia, pela infinita misericórdia do Senhor, possamos nos reencontrar, quando toda saudade dará lugar à alegria sem fim. Até lá, sua vida continuará sendo um evangelho vivido no cotidiano, escrito não com a perfeição dos impecáveis, mas com a beleza de quem nunca desistiu de amar.
Obrigado, mãe, por ter sido a mulher que Deus escolheu para me dar a vida. Obrigado por tudo o que foi, pelo bem que realizou, pelas marcas que deixou em nossa família e até pelas fragilidades que me ensinaram que todos somos necessitados da graça. Seu nome, Clélia Thereza Ciambroni Galiani, permanecerá para sempre gravado não apenas em nossa memória, mas em nossa maneira de viver, amar e acreditar. Que o Senhor, rico em misericórdia, lhe conceda o descanso eterno e faça resplandecer sobre ela a luz que não tem fim.
José Antonio Galiani