quinta-feira, 4 de junho de 2026

Edgar Morin: Um Legado Vivo para a Educação do Presente

Redação
Edgar Morin: Um Legado Vivo para a Educação do Presente
A humanidade se despede de um dos mais influentes pensadores da contemporaneidade.
 Edgar Morin deixa uma contribuição intelectual que ultrapassa fronteiras geográficas, ideológicas e acadêmicas, oferecendo à educação uma visão profundamente humana, crítica e integradora. Sua partida convida educadores, gestores, estudantes e toda a sociedade a revisitar sua obra e reconhecer a atualidade de suas reflexões para os desafios que a educação enfrenta hoje.
Quando escreveu Os Sete Saberes Necessários à Educação, Morin não estava apenas projetando um horizonte distante. Seus apontamentos revelaram necessidades urgentes que continuam presentes nas escolas, universidades e espaços formativos do nosso tempo. Mais do que uma proposta para o futuro, seus sete saberes constituem um chamado para transformar a educação no presente.
Morin nos alerta para as cegueiras do conhecimento, lembrando que o erro, a desinformação e as ilusões fazem parte da condição humana. Em uma era marcada pela circulação acelerada de informações, pelas redes sociais e pela inteligência artificial, torna-se ainda mais necessário desenvolver o pensamento crítico, a capacidade de análise e o discernimento ético.
Ao defender um conhecimento pertinente, o pensador francês criticou a excessiva fragmentação dos saberes. A realidade é complexa e os grandes desafios contemporâneos — ambientais, sociais, econômicos, tecnológicos e culturais — exigem uma compreensão integrada. A educação atual é chamada a promover conexões entre disciplinas e experiências, ajudando os estudantes a compreenderem o mundo em sua totalidade.
Outro aspecto fundamental de seu pensamento é a necessidade de ensinar a condição humana. Em uma sociedade frequentemente marcada pelo individualismo e pela intolerância, educar significa ajudar cada pessoa a compreender sua própria humanidade e reconhecer a dignidade do outro. A formação integral continua sendo uma das missões mais nobres da educação.
A consciência de uma identidade terrena também se mostra cada vez mais necessária. As mudanças climáticas, os fluxos migratórios, as crises sanitárias e os conflitos internacionais demonstram que os destinos dos povos estão interligados. Somos habitantes de uma mesma casa comum e precisamos aprender a viver com responsabilidade planetária.
Morin também nos ensina a enfrentar as incertezas. O mundo contemporâneo é marcado por rápidas transformações e por cenários imprevisíveis. Educar hoje exige preparar as novas gerações não apenas para responder perguntas conhecidas, mas também para enfrentar problemas inéditos, desenvolvendo criatividade, resiliência e capacidade de adaptação.
Da mesma forma, permanece atual a urgência de ensinar a compreensão. Em um contexto de polarizações, discursos de ódio e dificuldades de diálogo, a educação deve promover a empatia, a escuta e o respeito mútuo. Compreender o outro não significa concordar com tudo, mas reconhecer sua humanidade e sua dignidade.
Por fim, a ética do gênero humano ocupa lugar central em seu legado. Morin nos convida a construir uma ética baseada na solidariedade, na responsabilidade e no compromisso com o bem comum. Trata-se de uma ética que reconhece a interdependência entre os seres humanos e a necessidade de uma convivência fundada na justiça e na fraternidade.
Ao recordar a trajetória de Edgar Morin, celebramos não apenas um intelectual brilhante, mas um humanista que acreditou profundamente na capacidade da educação de transformar pessoas e sociedades. Seu legado permanece vivo em cada educador que busca formar cidadãos críticos, em cada estudante que aprende a pensar de forma complexa e em cada comunidade educativa comprometida com a construção de um mundo mais humano.
Sua voz silencia, mas suas ideias continuam ecoando nas salas de aula, nos centros de pesquisa e nos espaços de reflexão. Edgar Morin nos deixa uma herança preciosa: a certeza de que educar é um ato de esperança, de responsabilidade e de compromisso com a humanidade. Seu pensamento permanece como um convite permanente para que a educação seja, antes de tudo, um caminho de humanização.

CORPUS CHRISTI: O PÃO VIVO DESCIDO DO CÉU PARA A VIDA DO MUNDO

A Solenidade de Corpus Christi convida a Igreja a contemplar com profunda fé o mistério da presença real de Jesus Cristo na Eucaristia. Contudo, reduzir esta celebração apenas aos atos de culto, procissões e adoração seria empobrecer a riqueza do Sacramento que o próprio Cristo nos deixou. A Eucaristia é, ao mesmo tempo, presença, comunhão, missão e compromisso com a vida.

No Evangelho de São João, Jesus afirma: "Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo" (Jo 6,51). Essas palavras revelam que a Eucaristia não existe apenas para ser adorada, mas para ser acolhida e vivida. O Corpo de Cristo é dado para a vida do mundo, para que toda a humanidade encontre nele a fonte da verdadeira vida.

O Magistério da Igreja ensina que a Eucaristia é "fonte e ápice de toda a vida cristã" (Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, n. 11). Fonte, porque dela brota toda a graça necessária para a missão da Igreja; ápice, porque para ela convergem todas as ações e atividades do povo de Deus. Toda autêntica espiritualidade cristã nasce da Eucaristia e conduz à Eucaristia.

São João Paulo II, na Encíclica Ecclesia de Eucharistia, recorda que "a Igreja vive da Eucaristia" (n. 1). A comunidade cristã encontra nesse sacramento sua identidade mais profunda. Ao recebermos o Corpo de Cristo, tornamo-nos Corpo de Cristo no mundo, chamados a prolongar sua presença por meio de gestos concretos de amor, justiça, solidariedade e serviço.

O Papa Bento XVI, na Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, destaca que a Eucaristia possui uma dimensão social inseparável: "A união com Cristo é também união com todos aqueles aos quais Ele se entrega" (n. 14). Não é possível participar da mesa do Senhor e permanecer indiferente diante do sofrimento dos irmãos. A comunhão eucarística exige compromisso com os pobres, os excluídos, os doentes e todos aqueles cuja dignidade humana é ferida.

O Papa Francisco, por sua vez, recorda que a Eucaristia "não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos" (Evangelii Gaudium, n. 47). Alimentados por esse pão, somos enviados ao encontro das periferias existenciais para testemunhar a misericórdia de Deus.

Já São Paulo ensina: "O pão que partimos não é comunhão com o Corpo de Cristo? Porque há um só pão, nós, embora muitos, somos um só corpo" (1Cor 10,16-17). A Eucaristia constrói a fraternidade. Ela derruba barreiras, supera divisões e forma uma comunidade onde todos são chamados a reconhecer-se irmãos.

Por isso, Corpus Christi não é apenas a celebração do Cristo presente na hóstia consagrada, mas também do Cristo presente na história, que continua oferecendo sua vida pela salvação do mundo. Cada procissão deve conduzir a uma caminhada concreta de caridade; cada momento de adoração deve gerar compromisso com a transformação da realidade; cada comunhão recebida deve tornar-nos mais semelhantes a Jesus, pão repartido para a vida dos irmãos.
Celebrar Corpus Christi é reconhecer que o Senhor continua descendo ao encontro da humanidade. Ele se faz alimento para sustentar os cansados, esperança para os desanimados, força para os fracos e amor para aqueles que se sentem abandonados. Quem se alimenta do Pão Vivo é chamado a tornar-se também pão repartido, sinal do Reino de Deus no meio do mundo.

Assim, a Eucaristia não encerra a missão da Igreja dentro dos templos. Ao contrário, ela a impulsiona para as ruas, para as casas, para os ambientes de trabalho e para todos os lugares onde a vida humana precisa ser promovida e defendida. O Cristo que adoramos no altar é o mesmo Cristo que nos espera nos irmãos, especialmente nos mais necessitados. A verdadeira adoração eucarística culmina numa vida oferecida em amor, à imagem daquele que disse: "Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância" (Jo 10,10).
Na mesma perspectiva, o Papa Leão XIV recordou que a Eucaristia nos educa para a partilha e para a solidariedade. Refletindo sobre a multiplicação dos pães, afirmou: "É assim que Jesus sacia a fome da multidão: faz o que Deus faz e ensina-nos a fazer o mesmo." E acrescentou que, especialmente em nosso tempo, marcado por tantas desigualdades, "somos chamados a partilhar o nosso pão, a multiplicar a esperança e a proclamar a vinda do Reino de Deus." Dessa forma, a Eucaristia não pode permanecer restrita ao espaço litúrgico; ela deve transformar-se em compromisso concreto com a vida, a dignidade humana e a construção da fraternidade

Galiani, José A.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Educar Para Além das Paredes do Tempo

A reflexão que segue nasce da riqueza espiritual e humana do carisma de Mary Ward, mulher à frente de seu tempo, que compreendeu que educar era libertar consciências e formar pessoas capazes de transformar a sociedade pela fé, pela inteligência e pela coragem; do Beato Luigi Biraghi, fundador das Irmãs Marcelinas, cuja visão educativa defendia a formação integral da pessoa humana unindo conhecimento, espiritualidade e responsabilidade social; e do legado do Luigi Caburlotto, que enxergava nas crianças e jovens não apenas estudantes, mas vidas que precisavam ser alcançadas pela dignidade, pelo cuidado e pela esperança.
São carismas que não envelhecem porque nasceram da coragem de dialogar com o próprio tempo sem abandonar valores essenciais. Homens e mulheres que compreenderam que educar nunca significou apenas transmitir conteúdos, mas formar seres humanos conscientes, éticos e comprometidos com a transformação do mundo.
Foi justamente durante a celebração da festa das Santas Bartolomea Capitanio e Vincenza Gerosa, 18 de maio de 2026, que senti nascer esta reflexão. Uma inspiração provocada não apenas pela memória de suas obras, mas pela inquietação que seus testemunhos ainda despertam em nossos dias: afinal, que educação estamos oferecendo às nossas crianças e jovens?
Há escolas que ensinam conteúdos. Outras ensinam medo. Algumas, silenciosamente, apenas repetem fórmulas envelhecidas enquanto o mundo muda do lado de fora das salas de aula. E há, felizmente, aquelas raras instituições que compreendem que educar nunca foi empilhar informações, mas tocar almas, despertar consciências e semear esperança.
O legado da Congregação da Caridade de Jesus Redentor, inspirado pelas Santas Bartolomea e Vicenza, provoca exatamente essa inquietação: a educação não pode ser prisão do passado, precisa ser ponte para o futuro.
Entretanto, ainda vemos muitos educadores aprisionados em modelos antigos, acreditando que autoridade se sustenta pela distância, pelo silêncio imposto ou pela repetição mecânica de conteúdos. Repetem-se apostilas, repetem-se discursos, repetem-se métodos. E, às vezes, repete-se até a incapacidade de escutar. Enquanto isso, crianças e jovens gritam — muitas vezes em silêncio — que vivem em outro mundo, atravessado por tecnologias, dores emocionais, solidão digital, excesso de informações e ausência de sentido.
O problema não é o passado. O problema é transformar o passado em muro.
Há docentes que insistem em educar os jovens de hoje com as respostas que serviram para um século que já morreu. Não percebem que a criança contemporânea não rejeita limites; ela rejeita a incoerência. Não rejeita o conhecimento; rejeita a inutilidade de aprender sem compreender o sentido da vida. Não rejeita o educador; rejeita a ausência de diálogo.
Educar tornou-se muito mais difícil porque já não basta falar. É necessário alcançar.
As Santas Bartolomea e Vicenza compreenderam, em seu tempo, algo revolucionário: a caridade não era assistencialismo frio, mas encontro humano. Elas não educavam para criar obedientes; educavam para formar pessoas capazes de transformar o mundo pela dignidade, pela fé e pela consciência. Tinham coragem de olhar para as necessidades reais de seu tempo. E talvez seja justamente isso que falte hoje: coragem de olhar para o tempo presente sem nostalgia arrogante.
Existe uma tentação perigosa entre educadores: acreditar que experiência basta. Não basta. Experiência sem abertura pode transformar-se em rigidez. Tempo de profissão não garante capacidade de compreender a juventude. Há professores atualizados em diplomas, mas envelhecidos na escuta. Sabem utilizar tecnologias, mas não sabem dialogar com a dor emocional de um adolescente. Conhecem teorias pedagógicas modernas, mas ainda humilham, ironizam e deslegitimam sentimentos juvenis.
Educar exige conversão permanente.
Não se trata de abandonar valores, tampouco de romantizar um “mundo novo”. Trata-se de compreender que toda geração possui suas linguagens, suas feridas e suas formas de existir. O verdadeiro educador não é aquele que obriga o jovem a voltar ao passado; é aquele que consegue entrar no mundo do jovem sem perder sua essência, ajudando-o a construir futuro.
Talvez o maior desafio da educação contemporânea seja este: deixar de formar repetidores e começar a formar seres humanos conscientes, sensíveis e esperançosos. Porque conteúdos podem ser encontrados em segundos na internet. Mas esperança, ética, humanidade e sentido ainda dependem profundamente do encontro entre pessoas.
As crianças e os jovens não precisam apenas de professores que saibam ensinar matemática, gramática ou ciências. Precisam de adultos que saibam enxergá-los. Precisam de educadores capazes de perceber que há alunos carregando ansiedade, solidão, abandono afetivo, medo do futuro e crises de identidade escondidas atrás de um uniforme escolar.
A pedagogia da Caridade de Jesus Redentor continua atual justamente porque recorda algo essencial: educar é um ato de amor comprometido com a transformação humana. Não basta transmitir conhecimento; é preciso plantar sonhos. Não basta cobrar desempenho; é necessário despertar esperança.
Talvez o mundo não precise de educadores perfeitos. Mas necessita urgentemente de educadores dispostos a se deixar transformar para continuar educando.
J. A. Galiani 
Filósofo, Teólogo e Pedagogo 

domingo, 10 de maio de 2026

ENTRE O VENTRE E O VÍNCULO

Existe uma nobreza silenciosa na maternidade que poucos conseguem medir. Não está apenas no instante em que uma mulher descobre a gravidez, nem no milagre biológico de gerar uma vida dentro de si. A grandeza de uma mãe começa, muitas vezes, muito antes do parto — quando ela precisa enfrentar medos, renunciar projetos, reorganizar sonhos, suportar julgamentos, dores físicas, inseguranças emocionais e, não raramente, solidões que ninguém percebe.
Tornar-se mãe nunca foi apenas um ato biológico. Gerar é da natureza; maternar é escolha diária, disciplina interior, entrega constante. Há mulheres que atravessam noites sem dormir, que se dividem entre trabalho, casa, estudos, contas, culpa e exaustão, enquanto ainda encontram forças para acolher, orientar, corrigir, proteger e amar. Há mães que se tornam abrigo quando o mundo se torna hostil. Que se fazem pão quando lhes falta alimento, palavra quando tudo parece silêncio, presença quando todos já foram embora. Essas mulheres não apenas criam filhos; ajudam a formar consciências, caráter e humanidade.
Mas há uma verdade igualmente necessária: nem toda maternidade nasce do sangue, do ventre ou da genética. Existem mulheres que nunca experimentaram as dores do parto, mas conheceram profundamente as dores da entrega. Mulheres que adotaram, acolheram, criaram sobrinhos, netos, afilhados, enteados, alunos ou crianças que a vida lhes confiou. Mulheres que não ouviram o primeiro choro saindo de seus próprios corpos, mas foram presença no primeiro medo, no primeiro fracasso, na primeira queda, na primeira vitória. Elas provam que maternidade não se resume a gerar corpos, mas a formar almas. Muitas vezes, quem não pariu foi quem mais amou, quem mais protegeu e quem mais permaneceu.
Mas falar da maternidade com honestidade exige coragem para reconhecer que nem toda mulher que gera, de fato, se torna mãe.
Há as que carregam um filho no ventre, mas nunca o acolhem no coração. Há as que dão à luz e abandonam, como se a vida que nasceu delas fosse um acidente a ser descartado. Há aquelas que não abandonam fisicamente, mas promovem abandonos ainda mais profundos — emocionais, afetivos, morais. Filhos que cresceram dentro da mesma casa, mas nunca dentro do amor.
Existem mães que enxergam nas filhas não uma continuidade de vida, mas uma rivalidade absurda. Mulheres que deveriam ensinar autoestima, mas cultivam comparação; que deveriam fortalecer, mas competem; que deveriam admirar o florescimento da filha, mas se incomodam com sua juventude, sua beleza, sua autonomia ou sua força. Transformam o que deveria ser herança de amor em disputa de ego.
Há também mães que, em nome de um suposto cuidado, aprisionam. Que confundem amor com posse, proteção com controle, presença com invasão. Filhos que crescem sob vigilância constante, incapazes de decidir, de errar, de amadurecer, porque toda autonomia é interpretada como traição. E assim, aquilo que deveria libertar, sufoca.
A maternidade é uma das vocações mais sublimes da condição humana, mas também uma das que mais revela feridas não curadas. Uma mãe pode ser o primeiro lugar de cura de um ser humano — ou, infelizmente, sua primeira experiência de dor.
Por isso, honrar as grandes mães não significa romantizar a maternidade. Significa reconhecer que ser mãe vai muito além de conceber. Mãe não é apenas quem dá a vida. Mãe, em sua forma mais nobre, é quem ensina o filho a viver sem precisar carregar para sempre o peso das feridas que ela mesma deveria ter curado.
E talvez esteja aí sua verdadeira grandeza: não em prender os filhos ao próprio ventre, mas em prepará-los para caminhar com liberdade, dignidade e amor.
J. A. Galiani 

terça-feira, 14 de abril de 2026

AS CORES QUE ME HABITAM ( E AS QUE ME ROUBARAM)

AS CORES QUE ME HABITAM (E AS QUE ME ROUBARAM)
Houve um tempo em que vestir verde e amarelo era quase um sacramento civil. Não precisava explicar, não precisava justificar. Bastava vestir. Era Copa do Mundo, era rua pintada, era bandeira na janela, era grito coletivo que não perguntava em quem você votava — perguntava apenas se você acreditava.
Eu acreditava.
Acreditava no futebol como linguagem comum, na camisa da seleção como ponto de encontro, na bandeira como símbolo maior do que qualquer governo, maior do que qualquer partido, maior até do que nossas discordâncias. As cores eram nossas — do povo, da infância, das tardes de jogo no rádio, das lágrimas e dos abraços.
Mas alguma coisa aconteceu no caminho.
Roubaram as cores.
E não foi por acaso. Não foi espontâneo. Foi estratégia.
Políticos oportunistas — muitos deles sustentados por desinformação, cinismo e sede de poder — sequestraram o verde e amarelo e os transformaram em instrumento de manipulação coletiva. Vestiram a bandeira como disfarce moral, como se o uso das cores fosse suficiente para legitimar seus discursos vazios e suas práticas questionáveis. Apropriaram-se de um símbolo nacional para blindar projetos pessoais, muitos deles marcados pela irresponsabilidade, pelo autoritarismo disfarçado e pela exploração da ignorância.
Transformaram o verde e amarelo em uniforme ideológico. Não para unir — mas para identificar, excluir e atacar. Quem veste, segundo essa lógica doentia, pertence. Quem não veste, suspeito é. Criaram uma caricatura de patriotismo: barulhenta, agressiva, simplista — e profundamente desonesta.
Pintaram a bandeira com mentiras repetidas até parecerem verdade. Alimentaram um ecossistema de fake news, distorceram fatos, atacaram instituições, desacreditaram o conhecimento e transformaram o debate público em espetáculo de gritos e slogans. Não elevaram o Brasil — rebaixaram o sentido de Brasil.
E fizeram algo ainda mais grave: reduziram a complexidade de um país inteiro a uma narrativa rasa, conveniente e perigosa. Um país continental transformado em torcida organizada. Um povo plural comprimido em uma única voz — a deles.
E eu, que sempre me senti em casa dentro dessas cores, passei a me sentir estrangeiro.
Hoje penso duas vezes antes de vestir aquilo que um dia foi natural. Não por vergonha da pátria — essa permanece intacta —, mas pelo asco de ser confundido com esse projeto de poder travestido de patriotismo. Porque, no imaginário contaminado, já não se vê apenas um cidadão: vê-se um rótulo, uma adesão cega, uma cumplicidade que eu recuso.
É mais do que triste. É indigno.
Falam em defender o Brasil, mas usam o Brasil. Falam em valores, mas negociam princípios. Falam em verdade, mas sobrevivem da mentira. Invocam Deus, mas desprezam o próximo. Erguem a bandeira, mas pisam no povo real — o que sofre, o que trabalha, o que espera políticas sérias e não encenações ideológicas.
Desconhecem — ou fingem desconhecer — o Brasil profundo: o das escolas abandonadas, o das periferias esquecidas, o das políticas públicas sucateadas por gestões incompetentes ou deliberadamente negligentes. Preferem o palco ao compromisso, o confronto à responsabilidade, o delírio à realidade.
E assim, profanaram as cores.
Sim — profanaram.
Porque transformar símbolo nacional em ferramenta de manipulação não é apenas um erro político — é uma violência simbólica contra o próprio país.
E assim, as cores que deveriam unir passaram a dividir.
Mas eu não desisti delas.
Eu apenas me recuso a usá-las sob o sequestro de quem as transformou em instrumento de poder.
Porque sei — e nisso resisto — que nenhuma apropriação é eterna. Que o verde não pertence a um grupo, nem o amarelo a uma ideologia. Que a bandeira não é propriedade de políticos, mas expressão de um povo que é muito maior do que qualquer projeto de poder.
E que um dia, quando a mentira perder força e o barulho der lugar à verdade, essas cores serão devolvidas ao seu lugar de origem: o coração do povo.
Nesse dia, não será apenas a camisa que voltará às ruas.
Será a dignidade de um país que, depois de ter sido manipulado, terá coragem de se reencontrar.

domingo, 5 de abril de 2026

JESUS RESSUSCITOU: É FATO!

A Páscoa nos lembra um fato central da fé: Jesus Cristo morreu e ressuscitou.
Isso significa que a morte e o mal não têm a última palavra.
Mas isso não muda automaticamente a nossa realidade.
Continuamos enfrentando dificuldades, injustiças, problemas na família, no trabalho e na sociedade.
E entre essas injustiças está uma que grita aos nossos olhos:
a especulação imobiliária que expulsa os pobres, encarece a vida e transforma moradia — que é direito — em mercadoria para lucro.
Famílias são empurradas para longe, comunidades são desfeitas, enquanto poucos acumulam.
Diante disso, a Ressurreição não nos deixa neutros.
A diferença é outra: quem crê na Ressurreição não desiste da vida, nem se conforma com o que está errado.
A Páscoa é um chamado concreto:
rever atitudes,
abandonar o que faz mal,
agir com mais honestidade,
cuidar mais das pessoas,
e não colaborar com sistemas que geram exclusão e injustiça.
Não é um sentimento passageiro.
É decisão de viver melhor, mesmo em meio às dificuldades.
Cristo vive.
E isso nos responsabiliza: viver com mais verdade, mais fé e mais compromisso com a vida — especialmente defendendo a dignidade de quem mais sofre.
Feliz Páscoa.

sábado, 4 de abril de 2026

CRÔNICA PROFÉTICA – A NOITE EM QUE A VIDA SE LEVANTOU


A noite ainda estava escura.
Não apenas no céu — mas nas ruas, nas casas, nas consciências.
Há muito tempo tentam nos convencer de que a morte venceu.
Ela aparece bem vestida: em discursos que espalham mentira,
em sistemas que lucram com a fome,
em religiões que negociam a fé e silenciam a justiça,
em redes que transformam ódio em espetáculo.
A morte tem projeto.
E é organizado.
É o projeto que normaliza crianças sem futuro,
banaliza a violência,
culpabiliza o pobre e protege o rico,
usa o nome de Deus para excluir,
espalha fake news como se fosse evangelho.
E insiste:
“Não tem jeito. Sempre foi assim.”
Mas naquela madrugada, algo saiu do controle da morte.
As mulheres foram ao sepulcro.
Levavam dor e saudade.
Não esperavam mudança — apenas cuidar de um corpo.
E encontraram o impossível.
A pedra removida.
O túmulo vazio.
E uma voz que rasga a história:
“Não tenham medo.”
Não tenham medo — o projeto da morte fracassou.
Não tenham medo — Deus não pactua com a injustiça.
Não tenham medo — a última palavra é do Ressuscitado.
A ressurreição não é fuga da realidade.
É denúncia.
Denúncia de todo sistema que mata,
de toda mentira organizada,
de toda fé que não gera vida.
Se Cristo ressuscitou, então:
— a fome não é vontade de Deus;
— a guerra não é destino;
— a mentira não é opinião;
— a injustiça não é normal.
É Deus dizendo:
“Eu não concordo com isso que vocês chamam de mundo.”
E a Páscoa também anuncia:
Há outro projeto em curso.
Silencioso, mas real.
O projeto de vida.
Começa na criação,
passa pelo povo que atravessa o mar,
ganha força em corações novos,
e explode quando o crucificado se levanta.
Não se impõe pela força.
Cresce em gestos simples:
partilha, verdade, perdão, justiça.
O Ressuscitado não volta para dominar.
Volta para enviar.
Gente comum — como aquelas mulheres —
para anunciar:
A vida venceu.
E aqui está o ponto:
Se Cristo ressuscitou, não dá mais para viver como se a morte mandasse.
Não dá para alimentar mentira e dizer que segue a Verdade.
Não dá para aceitar injustiça como normal.
Não dá para usar a fé como máscara.
A Páscoa exige posição.
Ou se vive o projeto de morte — mesmo disfarçado —
ou o projeto de vida que nasce do túmulo vazio.
A Vigília Pascal é um chamado urgente.
Deus acende uma luz e diz:
“Agora é com vocês.”
Ser cristão é assumir o risco da luz,
incomodar as trevas,
recusar o cinismo,
viver o amor como prática.
O Ressuscitado não só venceu a morte.
Desmascarou seus projetos.
E segue caminhando —
não nos palácios,
mas nas periferias da esperança,
onde gente ferida ainda insiste em viver.
E ela é possível.
Porque naquela noite,
quando tudo parecia acabado,
a vida se levantou.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Quando o “feliz” perde o sentido na Semana Santa


A gente costuma desejar “feliz Domingo de Ramos”, “feliz Quinta-feira Santa” e até “feliz Sexta-feira da Paixão do Senhor”. Mas será que essa palavra “feliz” combina mesmo com o que estamos celebrando?
O Domingo de Ramos começa bonito, com festa, com o povo acolhendo Jesus. Mas logo depois a mesma multidão muda e grita “crucifica-o”. Então, não é um dia só de alegria — é também um dia de alerta. Mostra como o coração humano pode ser instável. Por isso, mais do que dizer “feliz”, talvez o mais certo seja desejar um domingo de conversão, de olhar pra dentro e perguntar: eu sigo Jesus de verdade ou só quando é conveniente?
Na Quinta-feira Santa, a gente recorda a ceia, o amor de Jesus que se entrega, que lava os pés dos discípulos. É um momento profundo, bonito, mas também cheio de dor, porque já anuncia a traição, a negação, o abandono. Não é uma alegria qualquer — é uma alegria misturada com responsabilidade. Jesus ensina: amar é servir. Então, mais do que “feliz”, seria um dia de desejar um coração humilde e servidor.
Já na Sexta-feira da Paixão, falar “feliz” fica ainda mais estranho. É o dia da cruz, do sofrimento, da injustiça, da morte de Jesus. É o dia em que o silêncio fala mais alto. Não é dia de festa, é dia de recolhimento, respeito e reflexão. Dizer “feliz” aqui pode até esvaziar o sentido da dor que Cristo assumiu por amor. O mais adequado seria desejar um dia de profunda oração, de gratidão e de consciência do preço do amor de Deus.
Essa reflexão não é pra julgar ninguém. Muita gente fala “feliz” por costume, por boa intenção. Mas a fé nos convida a ir mais fundo, a não viver só de palavras prontas. Cada dia da Semana Santa tem um sentimento próprio, um convite diferente.
Talvez o mais importante não seja repetir “feliz”, mas viver de verdade:
Ramos: seguir Jesus com fidelidade
Quinta-feira: servir com amor
Sexta-feira: silenciar e contemplar a cruz
A verdadeira alegria só explode mesmo na Páscoa, quando a gente pode dizer com toda força:
“Feliz Páscoa, porque Ele ressuscitou!”
Antes disso, o caminho é de entrega, de cruz e de amor que se doa até o fim.

CRÔNICA PROFÉTICA – A CRUZ E OS IMPÉRIOS DA MENTIRA


Quando o silêncio do Calvário desmascara o barulho do poder ovdia escurece.
Não apenas no céu — mas nas consciências.
O madeiro se levanta. Um corpo é pregado. E, no alto da cruz, Jesus Cristo não grita por vingança. Não convoca exércitos. Não fabrica versões.
Permanece.
E esse silêncio atravessa os séculos como denúncia.
Porque, enquanto a cruz revela a verdade nua do amor que se entrega, muitos sistemas continuam a vestir a mentira com roupas de verdade. Narrativas são construídas, fatos são distorcidos, versões são repetidas até parecerem realidade. Não para libertar — mas para controlar.
A cruz, porém, não mente.
Ali não há propaganda.
Não há manipulação.
Não há “fake news”.
Há um inocente condenado por interesses políticos, religiosos e sociais. Há um julgamento apressado. Há multidões influenciadas. Há líderes que lavam as mãos.
E tudo isso não ficou no passado.
A cada tempo, novos tribunais se levantam. Novas condenações são feitas sem verdade. A mentira ganha força quando repetida, e a justiça se enfraquece quando negociada. O que antes era grito de “Crucifica-o!” agora ecoa em manchetes distorcidas, em discursos inflamados, em mensagens espalhadas como veneno.
E o mais inquietante: o nome de Deus ainda é usado.
Há quem transforme fé em instrumento de dominação. Líderes que falam alto, apontam culpados, criam inimigos, dividem o mundo entre “puros” e “impuros”. Um fundamentalismo que não gera vida, mas medo. Que não aproxima, mas afasta. Que não cura, mas fere.
Mas o Cristo da cruz não exclui.
Não manipula.
Não oprime.
Na cruz, não há espetáculo. Há entrega.
Enquanto isso, os regimes da guerra continuam seu curso. Decidem quem vive e quem morre. Chamam destruição de estratégia. Chamam violência de solução. E o sangue derramado se torna apenas número, estatística, dano colateral.
Mas cada gota de sangue humano contradiz a cruz.
Porque o sangue de Cristo não é derramado para justificar guerras — é derramado para encerrá-las. Não é sinal de poder — é sinal de amor levado até o extremo.
A cruz desmonta todos esses sistemas.
Desmonta a política construída sobre mentira.
Desmonta a religião que se alimenta do medo.
Desmonta o poder que se sustenta na morte.
E faz uma pergunta incômoda:
De que lado se está?
Do lado dos que fabricam verdades convenientes…
ou do lado da verdade que custa caro?
Do lado dos que usam a fé para dominar…
ou do lado do Cristo que serve até o fim?
Do lado dos que promovem a guerra…
ou do lado do amor que se deixa ferir para não ferir ninguém?
A Sexta-feira Santa não permite neutralidade.
O Crucificado não é apenas objeto de devoção.
É critério.
Critério que julga consciências, estruturas, discursos.
Critério que revela o que é luz e o que é treva.
E talvez por isso incomode tanto.
Porque olhar para a cruz é perder as desculpas.
É ver que o amor verdadeiro não negocia a verdade.
Não se alia à mentira.
Não compactua com a violência.
No alto do madeiro, quando tudo parece derrota, ressoa uma palavra:
“Tudo está consumado.”
Não como fim… mas como vitória.
Vitória que não nasce da força,
mas da fidelidade.
Não da imposição,
mas da entrega.
E ali, onde o mundo enxerga fracasso, Deus revela o seu Reino.
Um Reino sem fake news,
sem manipulação religiosa,
sem guerra.
Um Reino onde a verdade não precisa gritar,
porque simplesmente é.
E continua sendo.
Silenciosa.
Firme.
E eterna.

Amém.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

CRÔNICA PROFÉTICA – QUINTA-FEIRA DA CEIA DO SENHOR (ANO A)O pão partido e o sangue derramado: quando o altar encontra a cruz

O pão partido e o sangue derramado: quando o altar encontra a cruz

A noite desce mansa sobre Jerusalém. Uma mesa simples, pão nas mãos, vinho no cálice… e um coração ardendo de amor até o fim. Ali, nesta ceia, não nasce apenas um rito. Nasce um caminho. Um destino. Um risco.
Jesus Cristo não apenas institui a Eucaristia e o sacerdócio. Entrega-se como medida. E deixa claro: quem come deste pão e bebe deste cálice não foge da cruz.
Porque o altar não é lugar de conforto. É lugar de entrega.
Nesta noite, o pão é partido… mas também anuncia o corpo ferido. O vinho é servido… mas já carrega o gosto do sangue derramado. E o sacerdote que nasce aqui não é dono de nada — é servo, é ponte, é alguém disposto a desaparecer para que o amor de Deus apareça.
Eucaristia e sacerdócio não são privilégios. São missão. São fogo. São ferida aberta no mundo.
Quem comunga de verdade não permanece neutro diante da injustiça. Quem sobe ao altar não desce indiferente à dor do povo. Porque o mesmo Cristo que se faz alimento é o Cristo que grita no pobre, no perseguido, no esquecido.
É assim com Dorothy Stang, que celebra a vida defendendo os pequenos até o fim.
É assim com Chico Mendes, que transforma a luta em oferta, o corpo em resistência viva contra a morte.
É assim com Padre Josimo, que entende que ser padre é estar ao lado dos pobres, mesmo quando isso custa a própria vida.
É assim com Oscar Romero, que cai no altar enquanto celebra — como se Deus dissesse ao mundo: “Eis aqui a Eucaristia vivida até o fim.”
E tantos outros… anônimos, esquecidos, mas eternos no coração de Deus.
O que une todos?
O pão partido.
O amor vivido.
A coragem de não voltar atrás.
Nesta noite santa, não cabe romantizar a Eucaristia. É doce, sim — mas também exigente. Consola — mas também inquieta. Alimenta — mas também envia.
Participar da Ceia do Senhor significa entrar numa aliança exigente: amar até as últimas consequências.
Talvez hoje a pergunta mais sincera não seja: “Acredita na Eucaristia?”
Mas sim: “Há disposição para viver como Eucaristia?”
O mundo não precisa apenas de quem comunga.
Precisa de quem se torna pão.
Pão repartido na família,
na comunidade,
na luta por justiça,
na defesa da vida.
O lava-pés continua acontecendo… ou precisa acontecer.
Toda vez que alguém se abaixa para servir,
toda vez que alguém escolhe amar em vez de dominar,
toda vez que alguém se compromete com os últimos,
ali a Eucaristia se prolonga.
Ali o sacerdócio acontece.
Ali Cristo vive.
Nesta noite, ao aproximar-se do altar, permanece o chamado:
o mesmo Cristo que alimenta… envia.
O mesmo pão recebido… transforma em oferta.
E, se for preciso,
até o martírio.
Amém.