sexta-feira, 3 de abril de 2026

Quando o “feliz” perde o sentido na Semana Santa


A gente costuma desejar “feliz Domingo de Ramos”, “feliz Quinta-feira Santa” e até “feliz Sexta-feira da Paixão do Senhor”. Mas será que essa palavra “feliz” combina mesmo com o que estamos celebrando?
O Domingo de Ramos começa bonito, com festa, com o povo acolhendo Jesus. Mas logo depois a mesma multidão muda e grita “crucifica-o”. Então, não é um dia só de alegria — é também um dia de alerta. Mostra como o coração humano pode ser instável. Por isso, mais do que dizer “feliz”, talvez o mais certo seja desejar um domingo de conversão, de olhar pra dentro e perguntar: eu sigo Jesus de verdade ou só quando é conveniente?
Na Quinta-feira Santa, a gente recorda a ceia, o amor de Jesus que se entrega, que lava os pés dos discípulos. É um momento profundo, bonito, mas também cheio de dor, porque já anuncia a traição, a negação, o abandono. Não é uma alegria qualquer — é uma alegria misturada com responsabilidade. Jesus ensina: amar é servir. Então, mais do que “feliz”, seria um dia de desejar um coração humilde e servidor.
Já na Sexta-feira da Paixão, falar “feliz” fica ainda mais estranho. É o dia da cruz, do sofrimento, da injustiça, da morte de Jesus. É o dia em que o silêncio fala mais alto. Não é dia de festa, é dia de recolhimento, respeito e reflexão. Dizer “feliz” aqui pode até esvaziar o sentido da dor que Cristo assumiu por amor. O mais adequado seria desejar um dia de profunda oração, de gratidão e de consciência do preço do amor de Deus.
Essa reflexão não é pra julgar ninguém. Muita gente fala “feliz” por costume, por boa intenção. Mas a fé nos convida a ir mais fundo, a não viver só de palavras prontas. Cada dia da Semana Santa tem um sentimento próprio, um convite diferente.
Talvez o mais importante não seja repetir “feliz”, mas viver de verdade:
Ramos: seguir Jesus com fidelidade
Quinta-feira: servir com amor
Sexta-feira: silenciar e contemplar a cruz
A verdadeira alegria só explode mesmo na Páscoa, quando a gente pode dizer com toda força:
“Feliz Páscoa, porque Ele ressuscitou!”
Antes disso, o caminho é de entrega, de cruz e de amor que se doa até o fim.

CRÔNICA PROFÉTICA – A CRUZ E OS IMPÉRIOS DA MENTIRA


Quando o silêncio do Calvário desmascara o barulho do poder ovdia escurece.
Não apenas no céu — mas nas consciências.
O madeiro se levanta. Um corpo é pregado. E, no alto da cruz, Jesus Cristo não grita por vingança. Não convoca exércitos. Não fabrica versões.
Permanece.
E esse silêncio atravessa os séculos como denúncia.
Porque, enquanto a cruz revela a verdade nua do amor que se entrega, muitos sistemas continuam a vestir a mentira com roupas de verdade. Narrativas são construídas, fatos são distorcidos, versões são repetidas até parecerem realidade. Não para libertar — mas para controlar.
A cruz, porém, não mente.
Ali não há propaganda.
Não há manipulação.
Não há “fake news”.
Há um inocente condenado por interesses políticos, religiosos e sociais. Há um julgamento apressado. Há multidões influenciadas. Há líderes que lavam as mãos.
E tudo isso não ficou no passado.
A cada tempo, novos tribunais se levantam. Novas condenações são feitas sem verdade. A mentira ganha força quando repetida, e a justiça se enfraquece quando negociada. O que antes era grito de “Crucifica-o!” agora ecoa em manchetes distorcidas, em discursos inflamados, em mensagens espalhadas como veneno.
E o mais inquietante: o nome de Deus ainda é usado.
Há quem transforme fé em instrumento de dominação. Líderes que falam alto, apontam culpados, criam inimigos, dividem o mundo entre “puros” e “impuros”. Um fundamentalismo que não gera vida, mas medo. Que não aproxima, mas afasta. Que não cura, mas fere.
Mas o Cristo da cruz não exclui.
Não manipula.
Não oprime.
Na cruz, não há espetáculo. Há entrega.
Enquanto isso, os regimes da guerra continuam seu curso. Decidem quem vive e quem morre. Chamam destruição de estratégia. Chamam violência de solução. E o sangue derramado se torna apenas número, estatística, dano colateral.
Mas cada gota de sangue humano contradiz a cruz.
Porque o sangue de Cristo não é derramado para justificar guerras — é derramado para encerrá-las. Não é sinal de poder — é sinal de amor levado até o extremo.
A cruz desmonta todos esses sistemas.
Desmonta a política construída sobre mentira.
Desmonta a religião que se alimenta do medo.
Desmonta o poder que se sustenta na morte.
E faz uma pergunta incômoda:
De que lado se está?
Do lado dos que fabricam verdades convenientes…
ou do lado da verdade que custa caro?
Do lado dos que usam a fé para dominar…
ou do lado do Cristo que serve até o fim?
Do lado dos que promovem a guerra…
ou do lado do amor que se deixa ferir para não ferir ninguém?
A Sexta-feira Santa não permite neutralidade.
O Crucificado não é apenas objeto de devoção.
É critério.
Critério que julga consciências, estruturas, discursos.
Critério que revela o que é luz e o que é treva.
E talvez por isso incomode tanto.
Porque olhar para a cruz é perder as desculpas.
É ver que o amor verdadeiro não negocia a verdade.
Não se alia à mentira.
Não compactua com a violência.
No alto do madeiro, quando tudo parece derrota, ressoa uma palavra:
“Tudo está consumado.”
Não como fim… mas como vitória.
Vitória que não nasce da força,
mas da fidelidade.
Não da imposição,
mas da entrega.
E ali, onde o mundo enxerga fracasso, Deus revela o seu Reino.
Um Reino sem fake news,
sem manipulação religiosa,
sem guerra.
Um Reino onde a verdade não precisa gritar,
porque simplesmente é.
E continua sendo.
Silenciosa.
Firme.
E eterna.

Amém.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

CRÔNICA PROFÉTICA – QUINTA-FEIRA DA CEIA DO SENHOR (ANO A)O pão partido e o sangue derramado: quando o altar encontra a cruz

O pão partido e o sangue derramado: quando o altar encontra a cruz

A noite desce mansa sobre Jerusalém. Uma mesa simples, pão nas mãos, vinho no cálice… e um coração ardendo de amor até o fim. Ali, nesta ceia, não nasce apenas um rito. Nasce um caminho. Um destino. Um risco.
Jesus Cristo não apenas institui a Eucaristia e o sacerdócio. Entrega-se como medida. E deixa claro: quem come deste pão e bebe deste cálice não foge da cruz.
Porque o altar não é lugar de conforto. É lugar de entrega.
Nesta noite, o pão é partido… mas também anuncia o corpo ferido. O vinho é servido… mas já carrega o gosto do sangue derramado. E o sacerdote que nasce aqui não é dono de nada — é servo, é ponte, é alguém disposto a desaparecer para que o amor de Deus apareça.
Eucaristia e sacerdócio não são privilégios. São missão. São fogo. São ferida aberta no mundo.
Quem comunga de verdade não permanece neutro diante da injustiça. Quem sobe ao altar não desce indiferente à dor do povo. Porque o mesmo Cristo que se faz alimento é o Cristo que grita no pobre, no perseguido, no esquecido.
É assim com Dorothy Stang, que celebra a vida defendendo os pequenos até o fim.
É assim com Chico Mendes, que transforma a luta em oferta, o corpo em resistência viva contra a morte.
É assim com Padre Josimo, que entende que ser padre é estar ao lado dos pobres, mesmo quando isso custa a própria vida.
É assim com Oscar Romero, que cai no altar enquanto celebra — como se Deus dissesse ao mundo: “Eis aqui a Eucaristia vivida até o fim.”
E tantos outros… anônimos, esquecidos, mas eternos no coração de Deus.
O que une todos?
O pão partido.
O amor vivido.
A coragem de não voltar atrás.
Nesta noite santa, não cabe romantizar a Eucaristia. É doce, sim — mas também exigente. Consola — mas também inquieta. Alimenta — mas também envia.
Participar da Ceia do Senhor significa entrar numa aliança exigente: amar até as últimas consequências.
Talvez hoje a pergunta mais sincera não seja: “Acredita na Eucaristia?”
Mas sim: “Há disposição para viver como Eucaristia?”
O mundo não precisa apenas de quem comunga.
Precisa de quem se torna pão.
Pão repartido na família,
na comunidade,
na luta por justiça,
na defesa da vida.
O lava-pés continua acontecendo… ou precisa acontecer.
Toda vez que alguém se abaixa para servir,
toda vez que alguém escolhe amar em vez de dominar,
toda vez que alguém se compromete com os últimos,
ali a Eucaristia se prolonga.
Ali o sacerdócio acontece.
Ali Cristo vive.
Nesta noite, ao aproximar-se do altar, permanece o chamado:
o mesmo Cristo que alimenta… envia.
O mesmo pão recebido… transforma em oferta.
E, se for preciso,
até o martírio.
Amém.

domingo, 25 de janeiro de 2026

POR UMA POLÍTICA AMBIENTAL JUSTA, EFICAZ E COMPROMETIDA COM O BEM COMUM

 

Esta reflexão nasce a partir de uma manifestação popular realizada no município de Pindamonhangaba- SP, em protesto contra a taxa do lixo aprovada pela Câmara de Vereadores. Trata-se de um movimento legítimo, que expressa a indignação da população diante de uma cobrança imposta sem que existam, de fato, políticas públicas ambientais eficazes, estruturadas e socialmente justas.

            Desde o início, é necessário afirmar que este posicionamento não é contra a política nem contra todos os políticos. Ao contrário, reconhecemos e apoiamos os políticos honestos, sérios e comprometidos com o bem comum, que compreendem a política, no sentido aristotélico, como a arte de governar para a vida boa de todos (eudaimonia), e não como instrumento de autopromoção ou interesse privado.

            No entanto, é igualmente necessário denunciar que o discurso do cuidado com a Casa Comum, embora legítimo, há muito tempo tem sido usado como palanque político. Hannah Arendt já alertava para o perigo da política esvaziada de ação concreta, quando o discurso se afasta da responsabilidade. Fala-se muito, promete-se muito, mas age-se pouco. O meio ambiente vira slogan; passada a eleição, o compromisso se dissolve.

            Historicamente, questões ambientais têm sido instrumentalizadas por muitos políticos para conquistar votos, sem se converterem em políticas públicas permanentes. Max Weber ajuda a compreender esse fenômeno ao distinguir a ética da convicção da ética da responsabilidade. Defender o meio ambiente apenas no discurso é agir por convicção aparente; governar exige responsabilidade concreta sobre as consequências das decisões — inclusive econômicas, sociais e ambientais.

            Isso se evidencia no fato de que políticas sérias e eficazes de reciclagem raramente são votadas ou priorizadas. Aqui se manifesta o que Rousseau denunciava: quando as leis deixam de expressar a vontade geral e passam a servir a interesses específicos, o pacto social se rompe. Cobra-se da população, mas não se constrói coletivamente a solução.

            Ao mesmo tempo, não existe uma campanha permanente, forte e educativa de conscientização ambiental. Paulo Freire já afirmava que não há transformação sem educação crítica. Culpabilizar o cidadão sem formá-lo é um mecanismo de opressão: transfere-se a responsabilidade estrutural para o indivíduo, sem oferecer condições reais de mudança.

            Outro ponto grave é a desvalorização dos catadores, carroceiros e ferros-velhos, que deveriam ser reconhecidos como atores centrais da política ambiental. Amartya Sen lembra que desenvolvimento não é apenas crescimento econômico, mas expansão de capacidades humanas. Ignorar esses trabalhadores é negar dignidade, renda e participação a quem, de fato, sustenta a reciclagem no país.

            Também não há enfrentamento estrutural com as indústrias, especialmente no que diz respeito à redução de embalagens. Ulrich Beck, ao falar da sociedade de risco, denuncia exatamente isso: os lucros são privatizados, enquanto os riscos e os danos ambientais são socializados. Falta legislação que obrigue, por exemplo, a indústria de bebidas a assumir responsabilidade pelas garrafas PET que coloca em circulação. Falta, igualmente, uma política consistente de logística reversa e educação ambiental.

            Diante desse cenário, a taxa do lixo aparece não como solução, mas como transferência do problema para a população, o que contraria o princípio da justiça distributiva, já presente em Aristóteles e aprofundado por John Rawls: os custos sociais não podem recair sempre sobre os mesmos, especialmente os mais vulneráveis.

            Por isso, a pergunta que nasce das ruas de Pindamonhangaba continua ecoando, incômoda e necessária:

     O que está sendo lançado, todos os dias, dentro do Rio Paraíba do Sul?

             Lixo doméstico, plástico, esgoto sem tratamento, resíduos industriais? A omissão do poder público é, como diria Arendt, uma forma de cumplicidade. Enquanto o cuidado com a Casa Comum continuar sendo discurso e não política concreta, o rio seguirá pagando a conta — e com ele, toda a sociedade.

 J. A. Galiani – Filósofo, Teólogo e Pedagogo.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Saudade que Chama pelo Nome

Era noite.
Trinta de dezembro de dois mil e vinte.
O ano já cansado se despedia,
quando a notícia chegou sem pedir licença.
Padre Pio havia partido.
Não houve barulho, não houve anúncio solene.
Houve silêncio.
E o silêncio doeu mais do que qualquer palavra.
Em Camacan, na Bahia,
a noite parecia mais escura.
Talvez porque ele sempre foi assim:
discreto, recolhido,
presença firme sem precisar se impor.
Até na morte nos ensinou
que a santidade caminha de mansinho,
sem aplausos, sem luzes.
Foi difícil acreditar.
Difícil aceitar.
Difícil compreender como alguém tão presente
podia, de repente, fazer tanta falta.
A ausência de Pio não era apenas física;
era o vazio da escuta atenta,
da palavra que confortava,
do irmão que caminhava junto.
Os corações se encontraram no silêncio.
Rezamos.
Escrevemos.
Compartilhamos lembranças como quem acende velas
para espantar a escuridão.
Ficou atravessado no peito
o abraço que não demos,
o “Feliz Natal” dito tarde demais,
o “Ano Novo” que ele celebrou já no céu.
Na missa do sétimo dia,
entre orações e lágrimas contidas,
veio uma certeza mansa:
a saudade não nascia do vazio,
mas do amor vivido.
Era preciso guardar as memórias,
partilhar as histórias,
manter viva a presença
naquilo que ele semeou em nós.
Cada lembrança traz Pio de volta.
No jeito simples de servir,
na fé sem espetáculo,
na coerência silenciosa
de quem fez do Evangelho um caminho diário.
Seu testemunho continua falando,
não em discursos,
mas no exemplo que permanece.
Pio não foi apenas um padre.
Foi amigo.
Foi irmão.
Foi sinal de que a vocação
é uma vida gasta por amor.
Ele nos provoca ainda hoje
a viver o batismo com verdade,
a servir sem esperar reconhecimento,
a amar a Igreja como quem ama a própria casa.
Entre um homem e um santo,
existe uma sintonia que não se explica,
apenas se sente.
E é nessa sintonia
que a saudade deixa de ser só dor
e se transforma em compromisso.
Padre Pio partiu,
mas não foi embora.
Permanece na memória,
na fé que nos sustenta,
e nesse laço invisível e fraterno
que nem a morte conseguiu desfazer.
J. A. Galiani

Em breve lançamento da 2a. Edição da Antologia que homenageia o Padre Pio.

Entre fogos, escombros e consciência: um Ano Novo à prova de humanidade


O Ano muda no calendário. Os fogos riscam o céu, os abraços se repetem, os votos de “feliz ano novo” se multiplicam com facilidade. Mas basta o silêncio do dia seguinte para que a realidade volte a falar — e fale alto. Ela se manifesta no lixo espalhado pelas ruas das cidades, pelos campos abandonados, pelos mares sufocados e pelos rios transformados em esgoto. Um lixo que não nasce apenas da falta de educação ambiental, mas também da irresponsabilidade política, da omissão e da corrupção de muitos que, eleitos para cuidar do bem comum, administram o descaso e normalizam a sujeira — física, social e moral.
Esse lixo tem rosto, discurso e cargo. Está nas políticas públicas que não chegam, nos projetos engavetados, nos recursos desviados, nas cidades entregues ao abandono. É o lixo da negligência institucional que ensina, pelo exemplo, que tudo pode ser usado e jogado fora — inclusive a dignidade humana.
A realidade continua a gritar. Grita com o sangue derramado nos homicídios, nos latrocínios e nas múltiplas formas de violência que se tornaram rotina e estatística. Grita com os conflitos entre povos, com as guerras que insistem em provar que a humanidade, tantas vezes, desaprendeu a ser humana. Mas se há uma guerra que precisa ser travada com urgência, ela não é contra povos nem nações, e sim contra a fome que mata em silêncio, contra o desemprego que rouba a dignidade, contra a falta de moradia que empurra pessoas para fora da própria humanidade. Essa deveria ser a grande batalha comum, capaz de unir governos e sociedades, pois nenhuma bomba destrói mais do que um prato vazio, nenhuma arma fere tanto quanto a indiferença.
Há ainda uma miséria menos visível, mas igualmente devastadora. Ela habita as redes sociais, esse grande palco onde mentiras se sustentam sobre mentiras, onde a aparência define o valor e o poder de compra tenta substituir a essência. Pessoas mostram o que não são, defendem o que não vivem e se perdem em comparações vazias. Também aí, muitos políticos se aproveitam do ambiente tóxico, espalhando desinformação, manipulando medos e transformando a mentira em método de governo.
Por trás das telas e dos discursos, existem pessoas feridas. Homens e mulheres carregando frustrações antigas, decepções acumuladas, histórias marcadas por perdas e fracassos. Crianças, jovens e idosos sem rumo, sem direção, cujo existir parece reduzido à busca incessante pelo ter e pelo prazer, como se neles estivesse a felicidade plena. E assim, a cada dia vivido, o ser humano vai perdendo algo essencial: a HUMANIDADE que lhe é própria.
Diante desse cenário, é inevitável perguntar: ainda faz sentido celebrar a passagem do Ano? Ainda é honesto desejar “feliz ano novo” quando o mundo permanece sujo, violento e marcado pela mentira? Talvez a resposta não esteja em negar a miséria, mas em encará-la com lucidez e coragem. Reconhecer que chegamos a um limite perigoso — ambiental, social, político e espiritual —, mas não definitivo.
É preciso acreditar que, em algum momento, homens, mulheres, crianças, jovens e idosos possam ir se tornando verdadeiramente humanos. Que a Casa Comum volte a ser cuidada e não explorada; que o lixo — material, moral e político — seja removido da vida pública; que a violência seja extinta; que as mentiras nascidas no coração humano e amplificadas pelas redes encontrem seu fim.
Para isso, não bastam slogans, promessas eleitorais nem rituais de virada de Ano. É preciso renovar a ESPERANÇA. Uma esperança ativa, crítica e comprometida, que cobra, participa e transforma. Deixar a Luz do Céu entrar no coração e na vida, permitindo que ela dissipe a escuridão que alimenta o narcisismo, a corrupção e a indiferença.
Se o Ano Novo começar assim — menos fogos e mais consciência, menos promessas vazias e mais verdade, menos aparência e mais compromisso — talvez possamos, enfim, desejar uns aos outros, sem cinismo, que seja um Ano verdadeiramente novo. Não um Ano iniciado por superstições ingênuas, como a crença de começar “com o pé direito”, como se gestos mágicos pudessem substituir escolhas éticas. A sociedade não precisa de um pé só para seguir adiante; precisa começar com os dois pés firmes no chão da realidade, sustentados pela justiça, pela solidariedade, pela verdade e pela esperança ativa. Só assim poderemos caminhar, não tropeçando em ilusões, mas avançando juntos na reconstrução do humano que somos chamados a ser.

J. A. Galiani 

domingo, 28 de dezembro de 2025

Veneno doméstico

Havia uma serpente que não vivia no mato fechado. Preferia o quintal da casa, o chão varrido, o lugar onde todos andavam descalços. Não se mostrava perigosa. Pelo contrário: ficava enroscada ao sol, imóvel, quase decorativa. Quem passava pensava: “Ela não faz mal”. E era justamente aí que morava o risco.
Quando atacava, não era por fome imediata. Era por controle do território. O bote vinha rápido, preciso, e depois a serpente se recolhia, como se nada tivesse acontecido. Se alguém gritava, ela se escondia. Se alguém morria, ela seguia viva. E ainda parecia ofendida quando apontavam o estrago.
Entre humanos, há quem aprenda esse mesmo método.
São pessoas que se apresentam como frágeis. Sempre cansadas, sempre sobrecarregadas, sempre incompreendidas. Se algo dá errado, foi porque deram demais. Se alguém se afasta, é porque foram ingratas. Nunca assumem o bote; apenas exibem a ferida que dizem ter recebido. O veneno, nessas mãos, vem disfarçado de lágrima.
O ataque raramente é direto. Vem em forma de frase solta:
“Depois de tudo o que fiz…”
“Não esperava isso de você…”
“Eu jamais faria isso com quem amo…”
É um silogismo silencioso e cruel:
Quem ama sofre.
Eu sofro.
Logo, quem me causa dor é culpado.
Com essa lógica, a palavra fere, a atitude humilha, o gesto diminui. Mas quem sofre nunca é o outro — é sempre quem fala. O outro apenas reage, adoece, se cala, se afasta. E quando isso acontece, a serpente humana se recolhe no papel que mais conhece: o de vítima abandonada.
Não há gratidão pelo que foi recebido, apenas uma contabilidade eterna do que “foi dado”. Tudo vira moeda. Tudo vira dívida. O amor não liberta; cobra juros. O cuidado não acolhe; vigia. E quem tenta respirar fora desse círculo logo é acusado de frieza, ingratidão, desamor.
A cobra real não finge ser outra coisa. Já essa serpente de gente veste máscaras conforme a ocasião. Na frente de uns, é doçura. Na frente de outros, sacrifício. No íntimo, necessidade de domínio. Alimenta-se não do corpo da presa, mas da culpa que consegue provocar. E com isso se mantém viva, firme, incontestável.
O mais perverso é que o veneno nunca parece veneno. Parece conselho. Parece zelo. Parece preocupação. Só depois, quando a alegria vai murchando e a paz some da casa, é que alguém percebe que foi mordido — e que a ferida não sangra por fora.
A serpente segue no quintal. O humano também. Ambos sobrevivem. Mas deixam atrás de si um rastro invisível de relações quebradas e corações cansados. E há dores que não matam o corpo, mas ensinam, cedo demais, que nem toda presença é abrigo.
O ano termina. As páginas do calendário se fecham, os ciclos se cumprem, o tempo insiste em seguir adiante. Mas nem tudo termina com ele. A serpente continua no quintal, silenciosa, no mesmo lugar. E a gente-serpente também permanece, repetindo gestos, palavras e venenos antigos. Não muda com a virada do ano, não se converte com as ausências que ajudou a criar. Ainda assim, há quem permaneça de pé. Há quem, mesmo ferido, não se deixe transformar em veneno. Há quem enfrente a serpente — e a gente-serpente — sem perder a esperança teimosa de que um dia o quintal será outro, o caminho mais seguro, e que até o veneno, enfim, perderá sua força diante da verdade, do tempo e da vida que insiste em florescer.

Pindamonhangaba, 28 dezembro de 2025.

J. A. Galiani 

quarta-feira, 11 de junho de 2025

UM TRIBUTO A FERNANDO PAGLIARO

 Em 10 de junho Fernando viveu sua Páscoa definitiva, entrando na plenitude da vida eterna com Deus.

Uma alma pura, marcada por uma inocência que se alia a um pensamento crítico diante da realidade social e eclesial. Casado, pai de duas filhas, profissional competente e amigo leal, Fernando tinha habilidades únicas de relacionamento. Sempre de bem com todos, acolhedor e ao mesmo tempo irreverente às posturas dogmáticas que muitas vezes limitam a liberdade de buscar a verdade.


Desde jovem, Fernando foi um questionador das estruturas sociais, políticas, econômicas e religiosas. Não tolerava injustiças, não se calava diante da intolerância, e não se deixava seduzir pelo poder do ter. Sua força vinha do gesto humilde de Jesus no lava-pés, que ele via como o verdadeiro caminho de liderança e serviço.

Na comunidade, era sempre disposto a participar, buscando aprofundar sua fé, especialmente na Eucaristia, que para ele era o alimento que dá vida ao mundo, o pão vivo descido do céu, fonte de esperança e renovação.

Fernando tinha uma relação especial com a Eucaristia, que alimentava sua alma e fortalecia sua luta por um mundo mais justo, humano e fraterno. Sua visão de Igreja era de uma comunidade pé no chão, cuidadora dos pobres e marginalizados, um espaço de acolhimento verdadeiro.

Sua irreverência às posturas dogmáticas muitas vezes o colocava em diálogo direto com alguns padres, sempre buscando entender e viver a fé de forma autêntica.

Amado por todos, Fernando era aquele que sempre sorria, que estabelecia amizades com facilidade, que buscava compreender o desconhecido, o esquecido, o desamparado. Muitas conversas tivemos, especialmente sobre Maria, a divindade de Jesus e sua humanidade. Mas o que mais o intrigava era a Eucaristia.

Lembro-me de quando pediu meu TCC sobre o Sacramento da Eucaristia: sacramento da Partilha. Ele leu, refletiu, questionou, e juntos chegamos à grande verdade do Evangelho: o pão vivo descido do céu é para dar vida ao mundo, é o corpo de Cristo que se partilha para que todos tenham vida em abundância. Para Fernando, essa verdade era clara: a Eucaristia é para os pecadores, para aqueles que buscam a Deus, para todos nós, porque Jesus veio justamente para isso.

Perdemos um irmão, um amigo, um catequista dedicado, um Ministro Extraordinário da Eucaristia. Mas, certamente, ganhamos um predecessor no céu, que prepara um lugar para nós onde não há dogmas, nem normas que aprisionam a liberdade de buscar a Deus.

Lá, não há "padres mandando" e leigos tendo que deixar sua comunidade para realizar sua missão em outra, nem proibições para os pecadores. Fernando viveu sua fé na Eucaristia na simplicidade das catacumbas, na esperança de um mundo melhor, na busca constante pela verdade.

Sua presença entre nós foi um testemunho de que a busca pela verdade e pelo amor é o que realmente importa. Sua alma, certamente, é uma das mais puras que tivemos.

Gratidão, meu irmão, por tudo que nos ensinaste, por teu exemplo de fé, coragem e amor. Que agora, na eternidade, tu possas celebrar a Páscoa definitiva, na alegria do Senhor.


J. A. Galiani

 

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Irmã Querubina, a Rocha da Esperança!

    Em tempos em que a esperança parece ser artigo de luxo, há pessoas que a carregam como se fosse bagagem leve, essencial, diária. Assim era Irmã Querubina, Filha de São José do Caburlotto, uma dessas almas raras que caminham pela terra deixando rastros de luz onde só havia lama.



Conheci Irmã Querubina em meio ao caos que se tornava rotina: enchentes frequentes nos arredores do Rio Aricanduva, ali pelos territórios da Paróquia São João Batista, na Vila Carrão. Um cenário desolador — ruas submersas, móveis encharcados, cadernos boiando em águas barrentas, e junto de tudo isso, um povo cansado. Mas bastava olhar para ela, de pé entre as perdas, para lembrar que recomeçar era possível.

    Ela não vinha com promessas vazias. Vinha com as mangas arregaçadas e o coração inteiro. Era como aquela manhã em que as mulheres encontraram a pedra removida do sepulcro — um espanto silencioso e santo. Irmã Querubina também removia pedras: as da desesperança, da indiferença, da desistência.

Movida por uma educação que brotava do coração  e apenas do coração, ela arrebanhava as crianças como quem junta flores num jardim escondido. Chamava cada uma pelo nome. Um nome, um mundo. Tinha a alma grande o suficiente para acolher todos esses mundos. E era isso que fazia: acolhia, incentivava, acreditava.

    Seu vínculo com a comunidade era como se ela tivesse sido semeada ali. Sabia estar em comunhão com as pastorais, com o Pároco, com cada fiel que encontrava no caminho. Era uma presença que gerava ação, uma simbiose de fé e serviço, que dava frutos na evangelização e no cuidado com os mais vulneráveis.

    Nas celebrações da novena de São José, ela estava lá como presença firme, serena, viva. A piedade fervorosa daquelas noites ganhava brilho com a doçura de seu sorriso e com a leveza com que conduzia tudo à glória de Deus. Não havia nela nada de grandioso no sentido mundano, mas tudo de sublime no sentido do Reino.

    E era impossível não se contagiar com seu humor sereno, com sua alegria que não ignorava a dor, mas a transformava. Como se dissesse: “Sim, dói, mas vamos em frente. Deus está aqui.”

    Hoje, ao lembrar de Irmã Querubina, não posso evitar a imagem de alguém que andou de mãos dadas com o Ressuscitado alguém que olhava a lama e via possibilidade, que enfrentava enchentes e via oportunidade de recomeço.

    Ela não só testemunhou a fé. Ela foi fé em forma de gente. Uma verdadeira Filha de São José, aquele carpinteiro silencioso e justo, que constrói mesmo no escuro, que protege mesmo no anonimato.

    Fica aqui meu tributo, não como encerramento, mas como eco. Porque Irmã Querubina continua no nome que ela nunca esquecia de chamar, nas mãos que ela segurava, nas lições que ela plantou em terra molhada.

Obrigada, Irmã Querubina. 

Sua vida foi Evangelho vivido e jamais se perderá.

Galiani. J. A.

quarta-feira, 14 de maio de 2025

75 anos: chamas que não se apagam!

     Na história da humanidade, há nomes que o tempo não apaga. Não por causa das grandes conquistas materiais, mas porque tocaram almas, reacenderam esperanças e mostraram o que significa viver com sentido. Entre esses nomes, brilham com doçura e firmeza os de Santas Bartolomea Capitanio e Vicenza Gerosa.

     Num mundo que parecia mergulhado na indiferença, elas ousaram cuidar. Ousaram amar. Ousaram educar. Não com discursos eloquentes, mas com gestos concretos de misericórdia, coragem e compromisso. Nas escolas, com os enfermos, levantaram caídos e reacenderam o valor de cada pessoa. Em suas mãos, a fé se tornou ação, e o amor ganhou a forma de serviço.
Hoje, tantos anos depois, o cenário mudou, mas o desafio permanece: educar com sentido, formar corações, preparar mentes e construir pontes. E aqui está você, comunidade educativa, herdeira desse legado que é chama viva.
     Num tempo em que a pressa atropela o diálogo, em que as telas substituem os olhos nos olhos, e o imediatismo tenta roubar o valor do processo, sua missão continua sagrada. Cada aula ministrada, cada escuta atenta, cada gesto de paciência é uma semente do Reino plantada com fé.
     Pode ser que, às vezes, o cansaço bata à porta. Que os frutos demorem a aparecer. Que o mundo diga que educar já não vale tanto. Mas lembre-se: vocês são continuadores de uma obra que nasceu no coração de Deus e se concretizou nas mãos generosas de Bartolomea e Vicenza.
Elas não recuaram. E hoje, vocês também são chamados a não recuar.
     Que esta comemoração não seja apenas memória, mas combustível. Que inspire, anime e renove. Porque onde há educadores apaixonados, há esperança. E onde há esperança, Deus continua escrevendo sua história.
José A Galiani