Professor Galiani
BLOG DO PROFESSOR GALIANI Filosofia, teologia, pedagogia, e tantas "ias" que fazem o dia-a-dia.... "Aflictis lentae, celeres gaudentibus horae"
sexta-feira, 3 de abril de 2026
Quando o “feliz” perde o sentido na Semana Santa
CRÔNICA PROFÉTICA – A CRUZ E OS IMPÉRIOS DA MENTIRA
quinta-feira, 2 de abril de 2026
CRÔNICA PROFÉTICA – QUINTA-FEIRA DA CEIA DO SENHOR (ANO A)O pão partido e o sangue derramado: quando o altar encontra a cruz
domingo, 25 de janeiro de 2026
POR UMA POLÍTICA AMBIENTAL JUSTA, EFICAZ E COMPROMETIDA COM O BEM COMUM
Esta
reflexão nasce a partir de uma manifestação popular realizada no município de
Pindamonhangaba- SP, em protesto contra a taxa do lixo aprovada pela Câmara de
Vereadores. Trata-se de um movimento legítimo, que expressa a indignação da
população diante de uma cobrança imposta sem que existam, de fato, políticas
públicas ambientais eficazes, estruturadas e socialmente justas.
Desde o início, é necessário afirmar
que este posicionamento não é contra a política nem contra todos os políticos.
Ao contrário, reconhecemos e apoiamos os políticos honestos, sérios e
comprometidos com o bem comum, que compreendem a política, no sentido
aristotélico, como a arte de governar para a vida boa de todos (eudaimonia), e
não como instrumento de autopromoção ou interesse privado.
No entanto, é igualmente necessário
denunciar que o discurso do cuidado com a Casa Comum, embora legítimo, há muito
tempo tem sido usado como palanque político. Hannah Arendt já alertava para o
perigo da política esvaziada de ação concreta, quando o discurso se afasta da
responsabilidade. Fala-se muito, promete-se muito, mas age-se pouco. O meio
ambiente vira slogan; passada a eleição, o compromisso se dissolve.
Historicamente, questões ambientais
têm sido instrumentalizadas por muitos políticos para conquistar votos, sem se
converterem em políticas públicas permanentes. Max Weber ajuda a compreender
esse fenômeno ao distinguir a ética da convicção da ética da responsabilidade.
Defender o meio ambiente apenas no discurso é agir por convicção aparente;
governar exige responsabilidade concreta sobre as consequências das decisões —
inclusive econômicas, sociais e ambientais.
Isso se evidencia no fato de que
políticas sérias e eficazes de reciclagem raramente são votadas ou priorizadas.
Aqui se manifesta o que Rousseau denunciava: quando as leis deixam de expressar
a vontade geral e passam a servir a interesses específicos, o pacto social se
rompe. Cobra-se da população, mas não se constrói coletivamente a solução.
Ao mesmo tempo, não existe uma
campanha permanente, forte e educativa de conscientização ambiental. Paulo
Freire já afirmava que não há transformação sem educação crítica. Culpabilizar
o cidadão sem formá-lo é um mecanismo de opressão: transfere-se a responsabilidade
estrutural para o indivíduo, sem oferecer condições reais de mudança.
Outro ponto grave é a desvalorização
dos catadores, carroceiros e ferros-velhos, que deveriam ser reconhecidos como
atores centrais da política ambiental. Amartya Sen lembra que desenvolvimento
não é apenas crescimento econômico, mas expansão de capacidades humanas.
Ignorar esses trabalhadores é negar dignidade, renda e participação a quem, de
fato, sustenta a reciclagem no país.
Também não há enfrentamento
estrutural com as indústrias, especialmente no que diz respeito à redução de
embalagens. Ulrich Beck, ao falar da sociedade de risco, denuncia exatamente
isso: os lucros são privatizados, enquanto os riscos e os danos ambientais são
socializados. Falta legislação que obrigue, por exemplo, a indústria de bebidas
a assumir responsabilidade pelas garrafas PET que coloca em circulação. Falta,
igualmente, uma política consistente de logística reversa e educação ambiental.
Diante desse cenário, a taxa do lixo
aparece não como solução, mas como transferência do problema para a população,
o que contraria o princípio da justiça distributiva, já presente em Aristóteles
e aprofundado por John Rawls: os custos sociais não podem recair sempre sobre
os mesmos, especialmente os mais vulneráveis.
Por isso, a pergunta que nasce das
ruas de Pindamonhangaba continua ecoando, incômoda e necessária:
O que está sendo lançado, todos os dias, dentro do Rio Paraíba do Sul?
terça-feira, 30 de dezembro de 2025
Saudade que Chama pelo Nome
Entre fogos, escombros e consciência: um Ano Novo à prova de humanidade
domingo, 28 de dezembro de 2025
Veneno doméstico
quarta-feira, 11 de junho de 2025
UM TRIBUTO A FERNANDO PAGLIARO
Em 10 de junho Fernando viveu sua Páscoa definitiva, entrando na plenitude da vida eterna com Deus.
Uma alma pura, marcada por uma inocência que se alia a um pensamento crítico diante da realidade social e eclesial. Casado, pai de duas filhas, profissional competente e amigo leal, Fernando tinha habilidades únicas de relacionamento. Sempre de bem com todos, acolhedor e ao mesmo tempo irreverente às posturas dogmáticas que muitas vezes limitam a liberdade de buscar a verdade.
Desde jovem, Fernando foi um questionador das estruturas sociais, políticas, econômicas e religiosas. Não tolerava injustiças, não se calava diante da intolerância, e não se deixava seduzir pelo poder do ter. Sua força vinha do gesto humilde de Jesus no lava-pés, que ele via como o verdadeiro caminho de liderança e serviço.
Na comunidade, era
sempre disposto a participar, buscando aprofundar sua fé, especialmente na
Eucaristia, que para ele era o alimento que dá vida ao mundo, o pão vivo
descido do céu, fonte de esperança e renovação.
Fernando tinha uma
relação especial com a Eucaristia, que alimentava sua alma e fortalecia sua
luta por um mundo mais justo, humano e fraterno. Sua visão de Igreja era de uma
comunidade pé no chão, cuidadora dos pobres e marginalizados, um espaço de acolhimento
verdadeiro.
Sua irreverência às
posturas dogmáticas muitas vezes o colocava em diálogo direto com alguns
padres, sempre buscando entender e viver a fé de forma autêntica.
Amado por todos,
Fernando era aquele que sempre sorria, que estabelecia amizades com facilidade,
que buscava compreender o desconhecido, o esquecido, o desamparado. Muitas
conversas tivemos, especialmente sobre Maria, a divindade de Jesus e sua
humanidade. Mas o que mais o intrigava era a Eucaristia.
Lembro-me de quando
pediu meu TCC sobre o Sacramento da Eucaristia: sacramento da Partilha. Ele
leu, refletiu, questionou, e juntos chegamos à grande verdade do Evangelho: o
pão vivo descido do céu é para dar vida ao mundo, é o corpo de Cristo que se
partilha para que todos tenham vida em abundância. Para Fernando, essa verdade
era clara: a Eucaristia é para os pecadores, para aqueles que buscam a Deus,
para todos nós, porque Jesus veio justamente para isso.
Perdemos um irmão, um
amigo, um catequista dedicado, um Ministro Extraordinário da Eucaristia. Mas,
certamente, ganhamos um predecessor no céu, que prepara um lugar para nós onde
não há dogmas, nem normas que aprisionam a liberdade de buscar a Deus.
Lá, não há "padres
mandando" e leigos tendo que deixar sua comunidade para realizar sua missão
em outra, nem proibições para os pecadores. Fernando viveu sua fé na Eucaristia
na simplicidade das catacumbas, na esperança de um mundo melhor, na busca
constante pela verdade.
Sua presença entre nós
foi um testemunho de que a busca pela verdade e pelo amor é o que realmente
importa. Sua alma, certamente, é uma das mais puras que tivemos.
Gratidão, meu irmão,
por tudo que nos ensinaste, por teu exemplo de fé, coragem e amor. Que agora,
na eternidade, tu possas celebrar a Páscoa definitiva, na alegria do Senhor.
J. A. Galiani
segunda-feira, 9 de junho de 2025
Irmã Querubina, a Rocha da Esperança!
Em tempos em que a esperança parece ser artigo de luxo, há pessoas que a carregam como se fosse bagagem leve, essencial, diária. Assim era Irmã Querubina, Filha de São José do Caburlotto, uma dessas almas raras que caminham pela terra deixando rastros de luz onde só havia lama.

Movida por uma educação que brotava do coração e apenas do coração, ela arrebanhava as crianças como quem junta flores num jardim escondido. Chamava cada uma pelo nome. Um nome, um mundo. Tinha a alma grande o suficiente para acolher todos esses mundos. E era isso que fazia: acolhia, incentivava, acreditava.
Seu vínculo com a comunidade era como se ela tivesse sido semeada ali. Sabia estar em comunhão com as pastorais, com o Pároco, com cada fiel que encontrava no caminho. Era uma presença que gerava ação, uma simbiose de fé e serviço, que dava frutos na evangelização e no cuidado com os mais vulneráveis.
Nas celebrações da novena de São José, ela estava lá como presença firme, serena, viva. A piedade fervorosa daquelas noites ganhava brilho com a doçura de seu sorriso e com a leveza com que conduzia tudo à glória de Deus. Não havia nela nada de grandioso no sentido mundano, mas tudo de sublime no sentido do Reino.
E era impossível não se contagiar com seu humor sereno, com sua alegria que não ignorava a dor, mas a transformava. Como se dissesse: “Sim, dói, mas vamos em frente. Deus está aqui.”
Hoje, ao lembrar de Irmã Querubina, não posso evitar a imagem de alguém que andou de mãos dadas com o Ressuscitado alguém que olhava a lama e via possibilidade, que enfrentava enchentes e via oportunidade de recomeço.
Ela não só testemunhou a fé. Ela foi fé em forma de gente. Uma verdadeira Filha de São José, aquele carpinteiro silencioso e justo, que constrói mesmo no escuro, que protege mesmo no anonimato.
Fica aqui meu tributo, não como encerramento, mas como eco. Porque Irmã Querubina continua no nome que ela nunca esquecia de chamar, nas mãos que ela segurava, nas lições que ela plantou em terra molhada.
Obrigada, Irmã Querubina.
Sua vida foi Evangelho vivido e jamais se perderá.
Galiani. J. A.


