segunda-feira, 7 de setembro de 2026

7 DE SETEMBRO: A PÁTRIA QUE AINDA PRECISAMOS CONQUISTAR

Sete de Setembro.
O dia amanhece vestido de verde e amarelo. As bandeiras tremulam, os hinos ecoam, os desfiles percorrem as ruas e, por algumas horas, somos convidados a lembrar que pertencemos a uma mesma terra.
É bonito.
Mas uma pergunta insiste em atravessar a festa:
Que independência estamos celebrando?
Independência de quem? Para quem? E para quê?
Talvez seja preciso, neste Dia da Pátria, diminuir o volume dos discursos e aumentar o volume da consciência.
Porque o Brasil não cabe nos palanques.
Não cabe nas brigas de esquerda contra direita. Não cabe nas guerras das redes sociais. Não cabe nos escândalos de cada manhã, nas acusações de cada noite, nas fake news travestidas de verdade nem nas verdades convenientemente escondidas.
O Brasil é muito maior do que a politicagem que, tantas vezes, sequestra a nossa esperança.
Enquanto alguns discutem quem é o culpado, milhões de brasileiros continuam perguntando quem vai lhes dar uma oportunidade.
Enquanto uns disputam poder, outros disputam um prato de comida.
Enquanto alguns acumulam milhões, outros contam moedas para comprar o pão.
Enquanto alguns discutem ideologias, há crianças que ainda lutam contra a fome e a falta de uma escola capaz de lhes abrir as portas do futuro.
Este também é o Brasil.
E talvez seja justamente esse Brasil que precisamos enxergar neste 7 de Setembro.
Um Brasil que possui uma das maiores riquezas naturais do planeta.
Um Brasil de rios imensos, florestas majestosas, praias deslumbrantes, montanhas, campos férteis e uma natureza que parece ter sido desenhada pela mão de Deus.
Um Brasil de cidades que encantam, estradas que atravessam paisagens extraordinárias e lugares que fazem qualquer visitante compreender por que esta terra é tão admirada.
Mas há uma contradição dolorosa escondida atrás de tanta beleza.
Como pode uma terra tão rica conviver com tanta pobreza?
Como podemos produzir tanto alimento e ainda permitir que brasileiros passem fome?
Como podemos falar em desenvolvimento enquanto milhões não têm acesso a uma educação capaz de romper o círculo da pobreza?
Como podemos celebrar o futuro quando tantos jovens não encontram outra perspectiva senão a violência, o tráfico, a marginalidade ou a migração em busca de uma vida melhor?
O Brasil produz riqueza.
E muita riqueza.
O problema não é produzir.
O problema é quando a riqueza produzida por muitos termina concentrada nas mãos de poucos.
O lucro não é pecado. O capital não é inimigo. Empreender, produzir, investir, crescer e prosperar fazem parte da vida econômica de uma sociedade.
Mas há uma fronteira que não podemos ultrapassar:
quando o dinheiro vale mais do que a pessoa, a economia deixa de servir à vida.
Quando o lucro se torna absoluto, o ser humano vira instrumento.
Quando a riqueza não é acompanhada de responsabilidade social, a prosperidade de alguns pode se transformar na miséria de muitos.
E quando a desigualdade se torna insuportável, nasce o terreno fértil para a corrupção, para o populismo, para a manipulação, para a compra de consciências e para a velha politicagem que se alimenta justamente da pobreza que deveria combater.
E nós, brasileiros, continuamos brigando.
Brigamos por políticos como se fossem jogadores de futebol.
Defendemos partidos como se fossem religiões.
Compartilhamos notícias sem saber se são verdadeiras.
Acreditamos naquilo que confirma nossas convicções e rejeitamos aquilo que nos incomoda.
E, enquanto isso, a Pátria permanece esperando.
Esperando por educação.
Esperando por saúde.
Esperando por segurança.
Esperando por justiça.
Esperando por trabalho.
Esperando por dignidade.
Talvez o Brasil não precise de mais brasileiros apaixonados por políticos.
Precise, sim, de brasileiros apaixonados pelo Brasil.
Apaixonados pelo professor que ensina.
Pelo trabalhador que acorda antes do sol.
Pelo agricultor que coloca alimento na nossa mesa.
Pela criança que precisa de uma escola.
Pelo jovem que precisa de oportunidade.
Pelo idoso que merece respeito.
Pela família que luta para sobreviver.
Pela cidade que precisa ser cuidada.
Pela natureza que não pode continuar sendo destruída em nome da ganância.
Pelo cidadão que tem direito de viver sem medo.
Pátria não é apenas uma bandeira hasteada.
Pátria é uma criança alimentada.
Pátria é uma escola que funciona.
Pátria é um hospital que acolhe.
Pátria é uma estrada segura.
Pátria é uma família que pode viver em paz.
Pátria é um trabalhador que recebe salário digno.
Pátria é um jovem que consegue sonhar sem precisar abandonar sua terra.
Pátria é uma sociedade na qual ninguém seja considerado menos humano porque nasceu pobre.
Por isso, talvez o nosso maior gesto patriótico neste 7 de Setembro não seja apenas cantar o Hino Nacional.
Seja perguntar:
O que estou fazendo para construir o Brasil que desejo?
Porque é muito fácil amar a Pátria quando ela aparece nos desfiles.
Difícil é amá-la quando encontramos um menino pedindo comida na rua.
Difícil é amá-la quando vemos uma família morando em condições indignas.
Difícil é amá-la quando encontramos uma criança sem escola, um jovem sem esperança ou um idoso abandonado.
É aí que o patriotismo deixa de ser discurso e se transforma em compromisso.
O Brasil não é lixo.
Lixo é aquilo que fazemos da Pátria quando permitimos que a corrupção, a ganância, a mentira, a violência e a indiferença destruam aquilo que poderia ser uma das maiores nações do mundo.
Não precisamos destruir o Brasil.
Precisamos reconstruí-lo.
Não precisamos de uma Pátria perfeita.
Precisamos de uma Pátria mais justa.
Não precisamos de unanimidade.
Precisamos aprender a conviver com nossas diferenças sem transformar o outro em inimigo.
Somos uma nação mestiça, plural, construída pelo encontro de povos, culturas, histórias e sofrimentos.
Aqui se encontram indígenas, africanos, europeus, asiáticos e tantos outros povos.
O Brasil é mistura.
É diversidade.
É contradição.
É dor e esperança.
É pobreza e riqueza.
É desigualdade e solidariedade.
É lágrima e carnaval.
É sofrimento e festa.
É um povo que, mesmo quando quase não tem nada, muitas vezes ainda encontra forças para repartir o pouco que possui.
Talvez essa seja a nossa maior riqueza: o brasileiro.
Neste 7 de Setembro, portanto, não quero apenas um Brasil independente de Portugal.
Quero um Brasil independente da fome.
Independente do analfabetismo.
Independente da violência.
Independente da corrupção.
Independente da manipulação.
Independente da miséria.
Independente da desigualdade que transforma riqueza em privilégio e pobreza em destino.
Quero um Brasil onde o capital esteja a serviço do desenvolvimento humano.
Onde o lucro caminhe ao lado da responsabilidade.
Onde a política seja serviço, e não negócio.
Onde governar seja cuidar.
Onde o poder tenha limites.
Onde a verdade não seja fabricada para favorecer interesses.
Onde nenhuma criança seja condenada pela pobreza em que nasceu.
Onde nenhum jovem precise escolher entre a fome e o crime.
Onde nenhum brasileiro tenha vergonha de ser brasileiro.
Porque a independência que celebramos em 1822 foi política.
A independência que ainda precisamos conquistar é social.
E essa não será proclamada por um príncipe às margens de um riacho.
Será construída todos os dias.
Nas escolas.
Nas famílias.
Nas empresas.
Nas igrejas.
Nas comunidades.
Nas ruas.
Nas urnas.
E, sobretudo, dentro da consciência de cada brasileiro.
Que neste 7 de Setembro o verde e o amarelo não sejam propriedade de partidos, grupos ou ideologias.
Que sejam as cores de todos nós.
Que o Hino Nacional não seja apenas uma música que cantamos.
Que seja um compromisso que assumimos.
E que a nossa bandeira não seja apenas um pedaço de tecido tremulando ao vento.
Que ela seja um lembrete permanente de que esta terra é nossa responsabilidade.
Porque o Brasil não está pronto.
O Brasil está esperando por nós.
E a verdadeira independência começará no dia em que todos os brasileiros puderem olhar para esta imensa Pátria e dizer, sem medo e sem vergonha:
“Esta terra também é minha.
Esta riqueza também me pertence.
Esta Pátria também cuidou de mim.”
José A. Galiani 

domingo, 19 de julho de 2026

São João Batista - 90 de Presença: A Igreja que Fez Morada Entre Nós

E há lugares que apenas frequentamos. E há lugares que nos formam. A Paróquia São João Batista é um desses lugares. Ao celebrar seus noventa anos de história, não comemoramos apenas a idade de uma comunidade. Celebramos noventa anos de Evangelho vivido, de fé partilhada, de vidas transformadas e de uma Igreja que escolheu permanecer no meio do povo.
Hoje, ao olhar para trás, meu coração se enche de gratidão. Gratidão, antes de tudo, aos pioneiros: aos sacerdotes palotinos e aos inúmeros leigos e leigas que sonharam esta comunidade, ergueram suas paredes e, sobretudo, construíram uma Igreja viva, feita de pessoas, de oração e de serviço.
Com alegria e um legítimo orgulho, posso dizer: "Sou da São João!"
Há trinta e quatro anos esta paróquia é parte da minha história e da história da minha família. Aqui aprendi que evangelizar é muito mais do que falar de Jesus; é colocar a própria vida a serviço do Reino de Deus.
Quantas experiências cabem em três décadas! Limpar a igreja antes das celebrações, preparar a catequese, proclamar a Palavra como leitor, tocar nas missas, pregar retiros e encontros, formar pais e padrinhos, acompanhar casais no Curso de Noivos, servir o ECC, estudar e ensinar o Catecismo da Igreja Católica, apresentar os documentos da Igreja, refletir sobre os textos-base da Campanha da Fraternidade, conduzir retiros para Ministros Extraordinários da Sagrada Comunhão, promover formações para os leigos da Fé e Política, preparar pequenas encenações para ajudar as crianças a compreenderem o Evangelho, organizar teatros com os jovens durante a Semana Santa, caminhar nas procissões anunciando Cristo pelas ruas, animar comunidades, participar dos conselhos pastorais, trabalhar nas festas do mês de maio...
Poderia continuar enumerando tantos outros serviços. Mas, olhando hoje, percebo que nenhum deles foi um peso. Todos foram um privilégio. Servir à Igreja nunca me empobreceu; ao contrário, fez de mim uma pessoa melhor.
Ao longo desses anos, tive a graça de conviver com cerca de nove párocos. Cada um tinha seu jeito, sua personalidade, seus dons e desafios. Nenhum era igual ao outro. Mas todos tinham algo em comum: eram homens de Deus. Sacerdotes palotinos que acreditavam na força do laicato e abriam espaço para que cada batizado pudesse colocar seus dons a serviço da comunidade. Pastorearam nosso povo com fé, esperança e caridade. A todos, minha sincera gratidão.
Quando penso na Paróquia São João Batista, não vejo apenas um templo. Vejo um lugar onde crianças foram batizadas, jovens descobriram sua vocação, casais iniciaram suas famílias, idosos encontraram consolo e tantos irmãos despediram-se desta vida sustentados pela esperança da ressurreição.
A Igreja esteve presente em nosso bairro quando havia motivos para sorrir e também quando as lágrimas pareciam não ter fim. Esteve nas casas, nas ruas, nas capelas, nos salões, nas festas, nas missões, nas celebrações simples e nas grandes solenidades. Sempre anunciando que Deus caminha conosco.
Noventa anos não pertencem apenas ao passado. São uma responsabilidade para o futuro. Cada geração recebeu a fé como um dom e tem o compromisso de transmiti-la à geração seguinte. Agora cabe a nós manter acesa essa chama que tantos, antes de nós, conservaram com sacrifício, oração e amor.
Minha gratidão não nasce apenas das lembranças. Nasce da certeza de que Deus escreveu uma parte importante da minha história dentro desta comunidade. Tudo o que pude oferecer foi pequeno diante de tudo o que recebi.
Parabéns, Paróquia São João Batista, pelos seus noventa anos de evangelização. Que São João Batista continue apontando para Cristo, como sempre fez: "É preciso que Ele cresça."
E que, muitos anos depois de nós, outras pessoas possam olhar para esta mesma comunidade e dizer, com o mesmo brilho nos olhos e a mesma alegria no coração:
"Também eu sou da São João!"

sexta-feira, 17 de julho de 2026

A Casa da Mãe Nunca Deixa de Existir


Há ausências que não fazem barulho, mas mudam completamente o sentido das coisas.
O luto não é uma estrada reta. Ele passa pela negação, pela revolta, pela tristeza profunda, pela aceitação... e, mesmo quando pensamos ter aprendido a conviver com a perda, basta um detalhe para que a saudade volte com toda a sua força.
É assim comigo.
Durante anos, viajar significava preparar o coração para voltar à casa da minha mãe, Clélia Thereza Ciambroni Galiani. Era um compromisso sagrado. Organizava a agenda, economizava o dinheiro da viagem, fazia planos e iniciava a contagem regressiva. Não importava o cansaço nem a distância. No final do caminho, havia alguém esperando.
Hoje, às vésperas de mais uma viagem, percebo que falta alguma coisa.
As malas estão prontas. A estrada continua a mesma. A cidade continua existindo.
Mas já não existe a casa da minha mãe.
Sei que encontrarei familiares queridos, que me receberão com carinho e generosidade. Sou profundamente agradecido por isso. Mas há uma verdade que somente quem perdeu a mãe consegue compreender: casa de mãe é casa de mãe.
Ela era mais do que um endereço. Era um porto seguro. Um lugar onde eu nunca precisava explicar minhas dores, porque ela as percebia antes mesmo das palavras. Era o café preparado com carinho, a comida que tinha gosto de infância, as conversas sem pressa, a bênção na despedida e aquela certeza silenciosa de que sempre haveria um lugar para voltar.
Agora existe um vazio.
Um vácuo.
Como se uma peça essencial da vida tivesse sido retirada, deixando tudo aparentemente no lugar, mas nada exatamente igual.
Nessas horas, lembro-me daquele verso tão simples e tão profundo:
"Quando bater a saudade, olha aqui pra cima..."
Então eu olho.
Olho para o céu, não para procurar alguém distante, mas para renovar a esperança de que o amor não morre. A fé cristã nos ensina que a morte não destrói os laços construídos no amor. Ela apenas transforma a maneira como eles continuam existindo.
Minha mãe já não me espera na janela.
Mas continua me acompanhando nas lembranças, nos valores que me ensinou, na fé que cultivou em nossa família e em cada gesto de cuidado que aprendi com ela.
Hoje compreendo que a maior herança que uma mãe deixa não é uma casa de tijolos. É a casa invisível que ela constrói dentro do coração dos filhos. Essa ninguém vende, ninguém destrói e ninguém é capaz de ocupar.
Obrigado, mãe.
Obrigado, Clélia, por cada sacrifício escondido, por cada oração feita em silêncio, por cada abraço, por cada conselho, por ter me ensinado que amar é cuidar e servir.
A saudade continua doendo, porque o amor continua vivo.
E talvez seja esse o maior privilégio de um filho: sentir falta de quem amou tanto.
Enquanto eu viver, levarei comigo sua memória, seu exemplo e sua ternura.
E quando a saudade bater mais forte, olharei para o céu.
Não apenas porque a música aconselha, mas porque a fé me garante que um dia nos reencontraremos.
Até lá, seguirei caminhando com o coração cheio de saudade, mas, acima de tudo, cheio de gratidão.
Porque o amor de uma mãe é um presente de Deus que nem a morte consegue apagar.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE

A cena durou poucos segundos. Bastaria um piscar de olhos para perdê-la. Mas há cenas que, mesmo rápidas, permanecem para sempre gravadas na consciência.

Um homem sua filha e entradi caminhavam pela calçada. Nas mãos, sacolas plásticas denunciavam que voltavam das compras. 

Uma criança. Pequena. Silenciosa. Apenas caminhava.

Nada indicava perigo. Nenhuma discussão. Nenhum choro. Nenhuma desobediência aparente.

De repente, sem aviso, o homem ergueu a perna e desferiu um chute violento na criança. O pequeno corpo foi lançado ao chão como se não tivesse valor algum. Não era um brinquedo que caía. Era uma vida.

O mundo não parou.

Os carros continuaram passando. Algumas pessoas olharam rapidamente. Outras fingiram não ver. Um cidadão fez a intervenção.

Foi impossível não pensar: assim caminha a humanidade.

Uma humanidade que perdeu a capacidade de se indignar. Que naturaliza a brutalidade. Que chama de "educação" aquilo que é agressão. Que acredita que a força substitui o amor e que o medo educa melhor do que o carinho.

O chute não atingiu apenas uma criança. Atingiu todos nós. Feriu a esperança de que as novas gerações cresçam cercadas de cuidado. Feriu a própria dignidade humana.

Enquanto crianças forem tratadas como objetos sobre os quais os adultos descarregam suas frustrações, nossa civilização continuará doente. Nenhum progresso tecnológico, nenhuma riqueza, nenhum discurso religioso ou político poderá esconder essa vergonha.

Uma sociedade é medida pela forma como trata seus pequenos, seus frágeis e seus indefesos. Quando um adulto levanta o pé contra uma criança, é toda a humanidade que cai junto.

E talvez o mais assustador não seja o chute.

Seja o silêncio.

Porque o silêncio dos que veem, dos que justificam e dos que se acostumaram é o terreno onde a violência cria raízes.

Assim caminha a humanidade... e, se não aprendermos a proteger nossas crianças, caminharemos cada vez mais depressa para o abismo.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Clélia: uma mulher que permanece!

Há exatamente um ano, 03/07/2025, minha mãe, Clélia Thereza Ciambroni Galiani, fez sua Páscoa. A palavra "Páscoa" é bonita porque não fala apenas de partida; fala de passagem. Para nós, que ficamos, permanece a saudade. Para quem viveu na fé, permanece a esperança de um encontro definitivo com Deus.
Ao longo deste primeiro ano, muitas vezes senti que a ausência física nunca consegue vencer a força das lembranças. Elas aparecem nos gestos mais simples, nas palavras que ela costumava dizer, nos valores que nos transmitiu e na maneira como nos ensinou a viver. O tempo não apaga uma mãe. Apenas transforma sua presença. Ela deixa de ser vista pelos olhos e passa a ser encontrada no coração.
Antes, porém, de recordar as mulheres da Bíblia, é importante dizer que não escrevo estas linhas para santificar minha mãe ou colocá-la num pedestal. Ela foi uma mulher de carne e osso, marcada, como todos nós, pelas limitações da condição humana. Teve virtudes admiráveis, mas também conheceu suas fragilidades, seus pecados, suas quedas e suas misérias. Em sua história também houve noites escuras, momentos de dor, dúvidas, conflitos e trevas. Como todos nós, precisou aprender, pedir perdão, recomeçar e confiar na misericórdia de Deus. Afinal, Deus não escreve sua história apenas com pessoas perfeitas, porque elas não existem. Ele realiza sua obra por meio de homens e mulheres que, entre acertos e erros, permitem que sua graça os transforme. É desse modo que me recordo de minha mãe: não como alguém sem defeitos, mas como uma mulher que procurou viver, lutar, recomeçar e amar dentro das possibilidades e dos limites de sua humanidade.
Quando penso em minha mãe, vejo nela um pouco das grandes mulheres da Bíblia. Como Maria, mãe de Jesus, viveu a humildade e fez de sua vida um constante "sim" ao amor, à família e à vontade de Deus. Sem alarde, mostrou que a grandeza está no serviço e na capacidade de cuidar.
Como Rute, foi fiel. Fiel à família, aos amigos, aos compromissos assumidos e aos princípios que jamais negociou. Sua lealdade era um porto seguro para todos os que conviviam com ela.
Também carregava a coragem de Ester. Nem sempre as batalhas eram visíveis, mas ela enfrentou com dignidade as dificuldades que a vida lhe apresentou. Sua força nunca foi feita de palavras grandiosas, mas da serenidade de quem confia em Deus.
Havia nela a sabedoria de Débora. Quantas decisões foram iluminadas por seus conselhos! Quantas vezes sua experiência ajudou a encontrar caminhos quando tudo parecia confuso! Sua palavra era firme, mas sempre acompanhada pelo carinho de quem desejava apenas o bem.
Como Ana, conhecia o poder da oração. Muitas das bênçãos que recebemos certamente passaram por suas preces silenciosas, feitas com o coração de mãe que nunca deixa de confiar na providência divina.
E como Marta, dedicou-se incansavelmente ao cuidado da casa, da família e de todos que precisavam de acolhida. Mas também tinha algo de Maria de Betânia: sabia que o amor vale mais do que qualquer riqueza e que a verdadeira felicidade nasce de um coração que sabe escutar e amar.
Hoje compreendo que essas mulheres bíblicas não pertencem apenas às páginas da Sagrada Escritura. Elas continuam vivendo na história de tantas mulheres simples e extraordinárias, como minha mãe. Em Clélia, elas encontraram um novo rosto. Um rosto marcado pela ternura, pela firmeza, pela fé e pelo amor, mas também pela luta diária para vencer suas limitações. Talvez seja justamente isso que torna seu testemunho tão belo: Deus não agiu apesar de sua fragilidade, mas através dela. Sua vida recorda que a graça de Deus não elimina nossa humanidade; ela a transforma e a conduz.
Neste primeiro aniversário de sua Páscoa, a saudade continua presente, mas já não caminha sozinha. Ela vem acompanhada da gratidão. Gratidão pelo dom de sua vida, pelos ensinamentos que deixou, pelo amor que distribuiu sem medidas, pelos perdões que concedeu e recebeu, pelas vezes em que caiu e se levantou, e pelo exemplo que continua iluminando nossos passos.
Tenho saudade de sua voz, de seu sorriso, de sua presença. Mas, acima de tudo, agradeço a Deus pelo privilégio de ter sido seu filho. O amor de uma mãe não termina com a morte. Ele atravessa o tempo, vence o silêncio e permanece vivo naqueles que aprenderam, por meio dela, o verdadeiro significado da palavra amor.
Que Deus a tenha acolhido no abraço eterno reservado aos seus filhos e filhas. E que um dia, pela infinita misericórdia do Senhor, possamos nos reencontrar, quando toda saudade dará lugar à alegria sem fim. Até lá, sua vida continuará sendo um evangelho vivido no cotidiano, escrito não com a perfeição dos impecáveis, mas com a beleza de quem nunca desistiu de amar.
Obrigado, mãe, por ter sido a mulher que Deus escolheu para me dar a vida. Obrigado por tudo o que foi, pelo bem que realizou, pelas marcas que deixou em nossa família e até pelas fragilidades que me ensinaram que todos somos necessitados da graça. Seu nome, Clélia Thereza Ciambroni Galiani, permanecerá para sempre gravado não apenas em nossa memória, mas em nossa maneira de viver, amar e acreditar. Que o Senhor, rico em misericórdia, lhe conceda o descanso eterno e faça resplandecer sobre ela a luz que não tem fim.
José Antonio Galiani 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Edgar Morin: Um Legado Vivo para a Educação do Presente

Redação
Edgar Morin: Um Legado Vivo para a Educação do Presente
A humanidade se despede de um dos mais influentes pensadores da contemporaneidade.
 Edgar Morin deixa uma contribuição intelectual que ultrapassa fronteiras geográficas, ideológicas e acadêmicas, oferecendo à educação uma visão profundamente humana, crítica e integradora. Sua partida convida educadores, gestores, estudantes e toda a sociedade a revisitar sua obra e reconhecer a atualidade de suas reflexões para os desafios que a educação enfrenta hoje.
Quando escreveu Os Sete Saberes Necessários à Educação, Morin não estava apenas projetando um horizonte distante. Seus apontamentos revelaram necessidades urgentes que continuam presentes nas escolas, universidades e espaços formativos do nosso tempo. Mais do que uma proposta para o futuro, seus sete saberes constituem um chamado para transformar a educação no presente.
Morin nos alerta para as cegueiras do conhecimento, lembrando que o erro, a desinformação e as ilusões fazem parte da condição humana. Em uma era marcada pela circulação acelerada de informações, pelas redes sociais e pela inteligência artificial, torna-se ainda mais necessário desenvolver o pensamento crítico, a capacidade de análise e o discernimento ético.
Ao defender um conhecimento pertinente, o pensador francês criticou a excessiva fragmentação dos saberes. A realidade é complexa e os grandes desafios contemporâneos — ambientais, sociais, econômicos, tecnológicos e culturais — exigem uma compreensão integrada. A educação atual é chamada a promover conexões entre disciplinas e experiências, ajudando os estudantes a compreenderem o mundo em sua totalidade.
Outro aspecto fundamental de seu pensamento é a necessidade de ensinar a condição humana. Em uma sociedade frequentemente marcada pelo individualismo e pela intolerância, educar significa ajudar cada pessoa a compreender sua própria humanidade e reconhecer a dignidade do outro. A formação integral continua sendo uma das missões mais nobres da educação.
A consciência de uma identidade terrena também se mostra cada vez mais necessária. As mudanças climáticas, os fluxos migratórios, as crises sanitárias e os conflitos internacionais demonstram que os destinos dos povos estão interligados. Somos habitantes de uma mesma casa comum e precisamos aprender a viver com responsabilidade planetária.
Morin também nos ensina a enfrentar as incertezas. O mundo contemporâneo é marcado por rápidas transformações e por cenários imprevisíveis. Educar hoje exige preparar as novas gerações não apenas para responder perguntas conhecidas, mas também para enfrentar problemas inéditos, desenvolvendo criatividade, resiliência e capacidade de adaptação.
Da mesma forma, permanece atual a urgência de ensinar a compreensão. Em um contexto de polarizações, discursos de ódio e dificuldades de diálogo, a educação deve promover a empatia, a escuta e o respeito mútuo. Compreender o outro não significa concordar com tudo, mas reconhecer sua humanidade e sua dignidade.
Por fim, a ética do gênero humano ocupa lugar central em seu legado. Morin nos convida a construir uma ética baseada na solidariedade, na responsabilidade e no compromisso com o bem comum. Trata-se de uma ética que reconhece a interdependência entre os seres humanos e a necessidade de uma convivência fundada na justiça e na fraternidade.
Ao recordar a trajetória de Edgar Morin, celebramos não apenas um intelectual brilhante, mas um humanista que acreditou profundamente na capacidade da educação de transformar pessoas e sociedades. Seu legado permanece vivo em cada educador que busca formar cidadãos críticos, em cada estudante que aprende a pensar de forma complexa e em cada comunidade educativa comprometida com a construção de um mundo mais humano.
Sua voz silencia, mas suas ideias continuam ecoando nas salas de aula, nos centros de pesquisa e nos espaços de reflexão. Edgar Morin nos deixa uma herança preciosa: a certeza de que educar é um ato de esperança, de responsabilidade e de compromisso com a humanidade. Seu pensamento permanece como um convite permanente para que a educação seja, antes de tudo, um caminho de humanização.

CORPUS CHRISTI: O PÃO VIVO DESCIDO DO CÉU PARA A VIDA DO MUNDO

A Solenidade de Corpus Christi convida a Igreja a contemplar com profunda fé o mistério da presença real de Jesus Cristo na Eucaristia. Contudo, reduzir esta celebração apenas aos atos de culto, procissões e adoração seria empobrecer a riqueza do Sacramento que o próprio Cristo nos deixou. A Eucaristia é, ao mesmo tempo, presença, comunhão, missão e compromisso com a vida.

No Evangelho de São João, Jesus afirma: "Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo" (Jo 6,51). Essas palavras revelam que a Eucaristia não existe apenas para ser adorada, mas para ser acolhida e vivida. O Corpo de Cristo é dado para a vida do mundo, para que toda a humanidade encontre nele a fonte da verdadeira vida.

O Magistério da Igreja ensina que a Eucaristia é "fonte e ápice de toda a vida cristã" (Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, n. 11). Fonte, porque dela brota toda a graça necessária para a missão da Igreja; ápice, porque para ela convergem todas as ações e atividades do povo de Deus. Toda autêntica espiritualidade cristã nasce da Eucaristia e conduz à Eucaristia.

São João Paulo II, na Encíclica Ecclesia de Eucharistia, recorda que "a Igreja vive da Eucaristia" (n. 1). A comunidade cristã encontra nesse sacramento sua identidade mais profunda. Ao recebermos o Corpo de Cristo, tornamo-nos Corpo de Cristo no mundo, chamados a prolongar sua presença por meio de gestos concretos de amor, justiça, solidariedade e serviço.

O Papa Bento XVI, na Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, destaca que a Eucaristia possui uma dimensão social inseparável: "A união com Cristo é também união com todos aqueles aos quais Ele se entrega" (n. 14). Não é possível participar da mesa do Senhor e permanecer indiferente diante do sofrimento dos irmãos. A comunhão eucarística exige compromisso com os pobres, os excluídos, os doentes e todos aqueles cuja dignidade humana é ferida.

O Papa Francisco, por sua vez, recorda que a Eucaristia "não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos" (Evangelii Gaudium, n. 47). Alimentados por esse pão, somos enviados ao encontro das periferias existenciais para testemunhar a misericórdia de Deus.

Já São Paulo ensina: "O pão que partimos não é comunhão com o Corpo de Cristo? Porque há um só pão, nós, embora muitos, somos um só corpo" (1Cor 10,16-17). A Eucaristia constrói a fraternidade. Ela derruba barreiras, supera divisões e forma uma comunidade onde todos são chamados a reconhecer-se irmãos.

Por isso, Corpus Christi não é apenas a celebração do Cristo presente na hóstia consagrada, mas também do Cristo presente na história, que continua oferecendo sua vida pela salvação do mundo. Cada procissão deve conduzir a uma caminhada concreta de caridade; cada momento de adoração deve gerar compromisso com a transformação da realidade; cada comunhão recebida deve tornar-nos mais semelhantes a Jesus, pão repartido para a vida dos irmãos.
Celebrar Corpus Christi é reconhecer que o Senhor continua descendo ao encontro da humanidade. Ele se faz alimento para sustentar os cansados, esperança para os desanimados, força para os fracos e amor para aqueles que se sentem abandonados. Quem se alimenta do Pão Vivo é chamado a tornar-se também pão repartido, sinal do Reino de Deus no meio do mundo.

Assim, a Eucaristia não encerra a missão da Igreja dentro dos templos. Ao contrário, ela a impulsiona para as ruas, para as casas, para os ambientes de trabalho e para todos os lugares onde a vida humana precisa ser promovida e defendida. O Cristo que adoramos no altar é o mesmo Cristo que nos espera nos irmãos, especialmente nos mais necessitados. A verdadeira adoração eucarística culmina numa vida oferecida em amor, à imagem daquele que disse: "Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância" (Jo 10,10).
Na mesma perspectiva, o Papa Leão XIV recordou que a Eucaristia nos educa para a partilha e para a solidariedade. Refletindo sobre a multiplicação dos pães, afirmou: "É assim que Jesus sacia a fome da multidão: faz o que Deus faz e ensina-nos a fazer o mesmo." E acrescentou que, especialmente em nosso tempo, marcado por tantas desigualdades, "somos chamados a partilhar o nosso pão, a multiplicar a esperança e a proclamar a vinda do Reino de Deus." Dessa forma, a Eucaristia não pode permanecer restrita ao espaço litúrgico; ela deve transformar-se em compromisso concreto com a vida, a dignidade humana e a construção da fraternidade

Galiani, José A.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Educar Para Além das Paredes do Tempo

A reflexão que segue nasce da riqueza espiritual e humana do carisma de Mary Ward, mulher à frente de seu tempo, que compreendeu que educar era libertar consciências e formar pessoas capazes de transformar a sociedade pela fé, pela inteligência e pela coragem; do Beato Luigi Biraghi, fundador das Irmãs Marcelinas, cuja visão educativa defendia a formação integral da pessoa humana unindo conhecimento, espiritualidade e responsabilidade social; e do legado do Luigi Caburlotto, que enxergava nas crianças e jovens não apenas estudantes, mas vidas que precisavam ser alcançadas pela dignidade, pelo cuidado e pela esperança.
São carismas que não envelhecem porque nasceram da coragem de dialogar com o próprio tempo sem abandonar valores essenciais. Homens e mulheres que compreenderam que educar nunca significou apenas transmitir conteúdos, mas formar seres humanos conscientes, éticos e comprometidos com a transformação do mundo.
Foi justamente durante a celebração da festa das Santas Bartolomea Capitanio e Vincenza Gerosa, 18 de maio de 2026, que senti nascer esta reflexão. Uma inspiração provocada não apenas pela memória de suas obras, mas pela inquietação que seus testemunhos ainda despertam em nossos dias: afinal, que educação estamos oferecendo às nossas crianças e jovens?
Há escolas que ensinam conteúdos. Outras ensinam medo. Algumas, silenciosamente, apenas repetem fórmulas envelhecidas enquanto o mundo muda do lado de fora das salas de aula. E há, felizmente, aquelas raras instituições que compreendem que educar nunca foi empilhar informações, mas tocar almas, despertar consciências e semear esperança.
O legado da Congregação da Caridade de Jesus Redentor, inspirado pelas Santas Bartolomea e Vicenza, provoca exatamente essa inquietação: a educação não pode ser prisão do passado, precisa ser ponte para o futuro.
Entretanto, ainda vemos muitos educadores aprisionados em modelos antigos, acreditando que autoridade se sustenta pela distância, pelo silêncio imposto ou pela repetição mecânica de conteúdos. Repetem-se apostilas, repetem-se discursos, repetem-se métodos. E, às vezes, repete-se até a incapacidade de escutar. Enquanto isso, crianças e jovens gritam — muitas vezes em silêncio — que vivem em outro mundo, atravessado por tecnologias, dores emocionais, solidão digital, excesso de informações e ausência de sentido.
O problema não é o passado. O problema é transformar o passado em muro.
Há docentes que insistem em educar os jovens de hoje com as respostas que serviram para um século que já morreu. Não percebem que a criança contemporânea não rejeita limites; ela rejeita a incoerência. Não rejeita o conhecimento; rejeita a inutilidade de aprender sem compreender o sentido da vida. Não rejeita o educador; rejeita a ausência de diálogo.
Educar tornou-se muito mais difícil porque já não basta falar. É necessário alcançar.
As Santas Bartolomea e Vicenza compreenderam, em seu tempo, algo revolucionário: a caridade não era assistencialismo frio, mas encontro humano. Elas não educavam para criar obedientes; educavam para formar pessoas capazes de transformar o mundo pela dignidade, pela fé e pela consciência. Tinham coragem de olhar para as necessidades reais de seu tempo. E talvez seja justamente isso que falte hoje: coragem de olhar para o tempo presente sem nostalgia arrogante.
Existe uma tentação perigosa entre educadores: acreditar que experiência basta. Não basta. Experiência sem abertura pode transformar-se em rigidez. Tempo de profissão não garante capacidade de compreender a juventude. Há professores atualizados em diplomas, mas envelhecidos na escuta. Sabem utilizar tecnologias, mas não sabem dialogar com a dor emocional de um adolescente. Conhecem teorias pedagógicas modernas, mas ainda humilham, ironizam e deslegitimam sentimentos juvenis.
Educar exige conversão permanente.
Não se trata de abandonar valores, tampouco de romantizar um “mundo novo”. Trata-se de compreender que toda geração possui suas linguagens, suas feridas e suas formas de existir. O verdadeiro educador não é aquele que obriga o jovem a voltar ao passado; é aquele que consegue entrar no mundo do jovem sem perder sua essência, ajudando-o a construir futuro.
Talvez o maior desafio da educação contemporânea seja este: deixar de formar repetidores e começar a formar seres humanos conscientes, sensíveis e esperançosos. Porque conteúdos podem ser encontrados em segundos na internet. Mas esperança, ética, humanidade e sentido ainda dependem profundamente do encontro entre pessoas.
As crianças e os jovens não precisam apenas de professores que saibam ensinar matemática, gramática ou ciências. Precisam de adultos que saibam enxergá-los. Precisam de educadores capazes de perceber que há alunos carregando ansiedade, solidão, abandono afetivo, medo do futuro e crises de identidade escondidas atrás de um uniforme escolar.
A pedagogia da Caridade de Jesus Redentor continua atual justamente porque recorda algo essencial: educar é um ato de amor comprometido com a transformação humana. Não basta transmitir conhecimento; é preciso plantar sonhos. Não basta cobrar desempenho; é necessário despertar esperança.
Talvez o mundo não precise de educadores perfeitos. Mas necessita urgentemente de educadores dispostos a se deixar transformar para continuar educando.
J. A. Galiani 
Filósofo, Teólogo e Pedagogo 

domingo, 10 de maio de 2026

ENTRE O VENTRE E O VÍNCULO

Existe uma nobreza silenciosa na maternidade que poucos conseguem medir. Não está apenas no instante em que uma mulher descobre a gravidez, nem no milagre biológico de gerar uma vida dentro de si. A grandeza de uma mãe começa, muitas vezes, muito antes do parto — quando ela precisa enfrentar medos, renunciar projetos, reorganizar sonhos, suportar julgamentos, dores físicas, inseguranças emocionais e, não raramente, solidões que ninguém percebe.
Tornar-se mãe nunca foi apenas um ato biológico. Gerar é da natureza; maternar é escolha diária, disciplina interior, entrega constante. Há mulheres que atravessam noites sem dormir, que se dividem entre trabalho, casa, estudos, contas, culpa e exaustão, enquanto ainda encontram forças para acolher, orientar, corrigir, proteger e amar. Há mães que se tornam abrigo quando o mundo se torna hostil. Que se fazem pão quando lhes falta alimento, palavra quando tudo parece silêncio, presença quando todos já foram embora. Essas mulheres não apenas criam filhos; ajudam a formar consciências, caráter e humanidade.
Mas há uma verdade igualmente necessária: nem toda maternidade nasce do sangue, do ventre ou da genética. Existem mulheres que nunca experimentaram as dores do parto, mas conheceram profundamente as dores da entrega. Mulheres que adotaram, acolheram, criaram sobrinhos, netos, afilhados, enteados, alunos ou crianças que a vida lhes confiou. Mulheres que não ouviram o primeiro choro saindo de seus próprios corpos, mas foram presença no primeiro medo, no primeiro fracasso, na primeira queda, na primeira vitória. Elas provam que maternidade não se resume a gerar corpos, mas a formar almas. Muitas vezes, quem não pariu foi quem mais amou, quem mais protegeu e quem mais permaneceu.
Mas falar da maternidade com honestidade exige coragem para reconhecer que nem toda mulher que gera, de fato, se torna mãe.
Há as que carregam um filho no ventre, mas nunca o acolhem no coração. Há as que dão à luz e abandonam, como se a vida que nasceu delas fosse um acidente a ser descartado. Há aquelas que não abandonam fisicamente, mas promovem abandonos ainda mais profundos — emocionais, afetivos, morais. Filhos que cresceram dentro da mesma casa, mas nunca dentro do amor.
Existem mães que enxergam nas filhas não uma continuidade de vida, mas uma rivalidade absurda. Mulheres que deveriam ensinar autoestima, mas cultivam comparação; que deveriam fortalecer, mas competem; que deveriam admirar o florescimento da filha, mas se incomodam com sua juventude, sua beleza, sua autonomia ou sua força. Transformam o que deveria ser herança de amor em disputa de ego.
Há também mães que, em nome de um suposto cuidado, aprisionam. Que confundem amor com posse, proteção com controle, presença com invasão. Filhos que crescem sob vigilância constante, incapazes de decidir, de errar, de amadurecer, porque toda autonomia é interpretada como traição. E assim, aquilo que deveria libertar, sufoca.
A maternidade é uma das vocações mais sublimes da condição humana, mas também uma das que mais revela feridas não curadas. Uma mãe pode ser o primeiro lugar de cura de um ser humano — ou, infelizmente, sua primeira experiência de dor.
Por isso, honrar as grandes mães não significa romantizar a maternidade. Significa reconhecer que ser mãe vai muito além de conceber. Mãe não é apenas quem dá a vida. Mãe, em sua forma mais nobre, é quem ensina o filho a viver sem precisar carregar para sempre o peso das feridas que ela mesma deveria ter curado.
E talvez esteja aí sua verdadeira grandeza: não em prender os filhos ao próprio ventre, mas em prepará-los para caminhar com liberdade, dignidade e amor.
J. A. Galiani 

terça-feira, 14 de abril de 2026

AS CORES QUE ME HABITAM ( E AS QUE ME ROUBARAM)

AS CORES QUE ME HABITAM (E AS QUE ME ROUBARAM)
Houve um tempo em que vestir verde e amarelo era quase um sacramento civil. Não precisava explicar, não precisava justificar. Bastava vestir. Era Copa do Mundo, era rua pintada, era bandeira na janela, era grito coletivo que não perguntava em quem você votava — perguntava apenas se você acreditava.
Eu acreditava.
Acreditava no futebol como linguagem comum, na camisa da seleção como ponto de encontro, na bandeira como símbolo maior do que qualquer governo, maior do que qualquer partido, maior até do que nossas discordâncias. As cores eram nossas — do povo, da infância, das tardes de jogo no rádio, das lágrimas e dos abraços.
Mas alguma coisa aconteceu no caminho.
Roubaram as cores.
E não foi por acaso. Não foi espontâneo. Foi estratégia.
Políticos oportunistas — muitos deles sustentados por desinformação, cinismo e sede de poder — sequestraram o verde e amarelo e os transformaram em instrumento de manipulação coletiva. Vestiram a bandeira como disfarce moral, como se o uso das cores fosse suficiente para legitimar seus discursos vazios e suas práticas questionáveis. Apropriaram-se de um símbolo nacional para blindar projetos pessoais, muitos deles marcados pela irresponsabilidade, pelo autoritarismo disfarçado e pela exploração da ignorância.
Transformaram o verde e amarelo em uniforme ideológico. Não para unir — mas para identificar, excluir e atacar. Quem veste, segundo essa lógica doentia, pertence. Quem não veste, suspeito é. Criaram uma caricatura de patriotismo: barulhenta, agressiva, simplista — e profundamente desonesta.
Pintaram a bandeira com mentiras repetidas até parecerem verdade. Alimentaram um ecossistema de fake news, distorceram fatos, atacaram instituições, desacreditaram o conhecimento e transformaram o debate público em espetáculo de gritos e slogans. Não elevaram o Brasil — rebaixaram o sentido de Brasil.
E fizeram algo ainda mais grave: reduziram a complexidade de um país inteiro a uma narrativa rasa, conveniente e perigosa. Um país continental transformado em torcida organizada. Um povo plural comprimido em uma única voz — a deles.
E eu, que sempre me senti em casa dentro dessas cores, passei a me sentir estrangeiro.
Hoje penso duas vezes antes de vestir aquilo que um dia foi natural. Não por vergonha da pátria — essa permanece intacta —, mas pelo asco de ser confundido com esse projeto de poder travestido de patriotismo. Porque, no imaginário contaminado, já não se vê apenas um cidadão: vê-se um rótulo, uma adesão cega, uma cumplicidade que eu recuso.
É mais do que triste. É indigno.
Falam em defender o Brasil, mas usam o Brasil. Falam em valores, mas negociam princípios. Falam em verdade, mas sobrevivem da mentira. Invocam Deus, mas desprezam o próximo. Erguem a bandeira, mas pisam no povo real — o que sofre, o que trabalha, o que espera políticas sérias e não encenações ideológicas.
Desconhecem — ou fingem desconhecer — o Brasil profundo: o das escolas abandonadas, o das periferias esquecidas, o das políticas públicas sucateadas por gestões incompetentes ou deliberadamente negligentes. Preferem o palco ao compromisso, o confronto à responsabilidade, o delírio à realidade.
E assim, profanaram as cores.
Sim — profanaram.
Porque transformar símbolo nacional em ferramenta de manipulação não é apenas um erro político — é uma violência simbólica contra o próprio país.
E assim, as cores que deveriam unir passaram a dividir.
Mas eu não desisti delas.
Eu apenas me recuso a usá-las sob o sequestro de quem as transformou em instrumento de poder.
Porque sei — e nisso resisto — que nenhuma apropriação é eterna. Que o verde não pertence a um grupo, nem o amarelo a uma ideologia. Que a bandeira não é propriedade de políticos, mas expressão de um povo que é muito maior do que qualquer projeto de poder.
E que um dia, quando a mentira perder força e o barulho der lugar à verdade, essas cores serão devolvidas ao seu lugar de origem: o coração do povo.
Nesse dia, não será apenas a camisa que voltará às ruas.
Será a dignidade de um país que, depois de ter sido manipulado, terá coragem de se reencontrar.