A noite ainda estava escura.
Não apenas no céu — mas nas ruas, nas casas, nas consciências.
Há muito tempo tentam nos convencer de que a morte venceu.
Ela aparece bem vestida: em discursos que espalham mentira,
em sistemas que lucram com a fome,
em religiões que negociam a fé e silenciam a justiça,
em redes que transformam ódio em espetáculo.
A morte tem projeto.
E é organizado.
É o projeto que normaliza crianças sem futuro,
banaliza a violência,
culpabiliza o pobre e protege o rico,
usa o nome de Deus para excluir,
espalha fake news como se fosse evangelho.
E insiste:
“Não tem jeito. Sempre foi assim.”
Mas naquela madrugada, algo saiu do controle da morte.
As mulheres foram ao sepulcro.
Levavam dor e saudade.
Não esperavam mudança — apenas cuidar de um corpo.
E encontraram o impossível.
A pedra removida.
O túmulo vazio.
E uma voz que rasga a história:
“Não tenham medo.”
Não tenham medo — o projeto da morte fracassou.
Não tenham medo — Deus não pactua com a injustiça.
Não tenham medo — a última palavra é do Ressuscitado.
A ressurreição não é fuga da realidade.
É denúncia.
Denúncia de todo sistema que mata,
de toda mentira organizada,
de toda fé que não gera vida.
Se Cristo ressuscitou, então:
— a fome não é vontade de Deus;
— a guerra não é destino;
— a mentira não é opinião;
— a injustiça não é normal.
É Deus dizendo:
“Eu não concordo com isso que vocês chamam de mundo.”
E a Páscoa também anuncia:
Há outro projeto em curso.
Silencioso, mas real.
O projeto de vida.
Começa na criação,
passa pelo povo que atravessa o mar,
ganha força em corações novos,
e explode quando o crucificado se levanta.
Não se impõe pela força.
Cresce em gestos simples:
partilha, verdade, perdão, justiça.
O Ressuscitado não volta para dominar.
Volta para enviar.
Gente comum — como aquelas mulheres —
para anunciar:
A vida venceu.
E aqui está o ponto:
Se Cristo ressuscitou, não dá mais para viver como se a morte mandasse.
Não dá para alimentar mentira e dizer que segue a Verdade.
Não dá para aceitar injustiça como normal.
Não dá para usar a fé como máscara.
A Páscoa exige posição.
Ou se vive o projeto de morte — mesmo disfarçado —
ou o projeto de vida que nasce do túmulo vazio.
A Vigília Pascal é um chamado urgente.
Deus acende uma luz e diz:
“Agora é com vocês.”
Ser cristão é assumir o risco da luz,
incomodar as trevas,
recusar o cinismo,
viver o amor como prática.
O Ressuscitado não só venceu a morte.
Desmascarou seus projetos.
E segue caminhando —
não nos palácios,
mas nas periferias da esperança,
onde gente ferida ainda insiste em viver.
E ela é possível.
Porque naquela noite,
quando tudo parecia acabado,
a vida se levantou.
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