segunda-feira, 18 de maio de 2026

Educar Para Além das Paredes do Tempo

A reflexão que segue nasce da riqueza espiritual e humana do carisma de Mary Ward, mulher à frente de seu tempo, que compreendeu que educar era libertar consciências e formar pessoas capazes de transformar a sociedade pela fé, pela inteligência e pela coragem; do Beato Luigi Biraghi, fundador das Irmãs Marcelinas, cuja visão educativa defendia a formação integral da pessoa humana unindo conhecimento, espiritualidade e responsabilidade social; e do legado do Luigi Caburlotto, que enxergava nas crianças e jovens não apenas estudantes, mas vidas que precisavam ser alcançadas pela dignidade, pelo cuidado e pela esperança.
São carismas que não envelhecem porque nasceram da coragem de dialogar com o próprio tempo sem abandonar valores essenciais. Homens e mulheres que compreenderam que educar nunca significou apenas transmitir conteúdos, mas formar seres humanos conscientes, éticos e comprometidos com a transformação do mundo.
Foi justamente durante a celebração da festa das Santas Bartolomea Capitanio e Vincenza Gerosa, 18 de maio de 2026, que senti nascer esta reflexão. Uma inspiração provocada não apenas pela memória de suas obras, mas pela inquietação que seus testemunhos ainda despertam em nossos dias: afinal, que educação estamos oferecendo às nossas crianças e jovens?
Há escolas que ensinam conteúdos. Outras ensinam medo. Algumas, silenciosamente, apenas repetem fórmulas envelhecidas enquanto o mundo muda do lado de fora das salas de aula. E há, felizmente, aquelas raras instituições que compreendem que educar nunca foi empilhar informações, mas tocar almas, despertar consciências e semear esperança.
O legado da Congregação da Caridade de Jesus Redentor, inspirado pelas Santas Bartolomea e Vicenza, provoca exatamente essa inquietação: a educação não pode ser prisão do passado, precisa ser ponte para o futuro.
Entretanto, ainda vemos muitos educadores aprisionados em modelos antigos, acreditando que autoridade se sustenta pela distância, pelo silêncio imposto ou pela repetição mecânica de conteúdos. Repetem-se apostilas, repetem-se discursos, repetem-se métodos. E, às vezes, repete-se até a incapacidade de escutar. Enquanto isso, crianças e jovens gritam — muitas vezes em silêncio — que vivem em outro mundo, atravessado por tecnologias, dores emocionais, solidão digital, excesso de informações e ausência de sentido.
O problema não é o passado. O problema é transformar o passado em muro.
Há docentes que insistem em educar os jovens de hoje com as respostas que serviram para um século que já morreu. Não percebem que a criança contemporânea não rejeita limites; ela rejeita a incoerência. Não rejeita o conhecimento; rejeita a inutilidade de aprender sem compreender o sentido da vida. Não rejeita o educador; rejeita a ausência de diálogo.
Educar tornou-se muito mais difícil porque já não basta falar. É necessário alcançar.
As Santas Bartolomea e Vicenza compreenderam, em seu tempo, algo revolucionário: a caridade não era assistencialismo frio, mas encontro humano. Elas não educavam para criar obedientes; educavam para formar pessoas capazes de transformar o mundo pela dignidade, pela fé e pela consciência. Tinham coragem de olhar para as necessidades reais de seu tempo. E talvez seja justamente isso que falte hoje: coragem de olhar para o tempo presente sem nostalgia arrogante.
Existe uma tentação perigosa entre educadores: acreditar que experiência basta. Não basta. Experiência sem abertura pode transformar-se em rigidez. Tempo de profissão não garante capacidade de compreender a juventude. Há professores atualizados em diplomas, mas envelhecidos na escuta. Sabem utilizar tecnologias, mas não sabem dialogar com a dor emocional de um adolescente. Conhecem teorias pedagógicas modernas, mas ainda humilham, ironizam e deslegitimam sentimentos juvenis.
Educar exige conversão permanente.
Não se trata de abandonar valores, tampouco de romantizar um “mundo novo”. Trata-se de compreender que toda geração possui suas linguagens, suas feridas e suas formas de existir. O verdadeiro educador não é aquele que obriga o jovem a voltar ao passado; é aquele que consegue entrar no mundo do jovem sem perder sua essência, ajudando-o a construir futuro.
Talvez o maior desafio da educação contemporânea seja este: deixar de formar repetidores e começar a formar seres humanos conscientes, sensíveis e esperançosos. Porque conteúdos podem ser encontrados em segundos na internet. Mas esperança, ética, humanidade e sentido ainda dependem profundamente do encontro entre pessoas.
As crianças e os jovens não precisam apenas de professores que saibam ensinar matemática, gramática ou ciências. Precisam de adultos que saibam enxergá-los. Precisam de educadores capazes de perceber que há alunos carregando ansiedade, solidão, abandono afetivo, medo do futuro e crises de identidade escondidas atrás de um uniforme escolar.
A pedagogia da Caridade de Jesus Redentor continua atual justamente porque recorda algo essencial: educar é um ato de amor comprometido com a transformação humana. Não basta transmitir conhecimento; é preciso plantar sonhos. Não basta cobrar desempenho; é necessário despertar esperança.
Talvez o mundo não precise de educadores perfeitos. Mas necessita urgentemente de educadores dispostos a se deixar transformar para continuar educando.
J. A. Galiani 
Filósofo, Teólogo e Pedagogo 

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