Quando a política transforma Jesus em palanque e o católico se esquece da própria história
O Estado brasileiro é
laico. Isso não significa que seja ateu, que deva expulsar a religião da vida
pública ou que os cidadãos precisem abandonar suas convicções religiosas quando
entram na política. Estado laico significa que nenhuma religião é dona do Estado,
que nenhuma Igreja pode impor sua fé à totalidade da população e que todas as
crenças devem ter liberdade para existir, manifestar-se e dialogar com a
sociedade.
Afinal, quem ocupa o
Legislativo, o Executivo ou participa de partidos políticos não deixa suas
convicções religiosas, morais e éticas na porta do Congresso. Cada pessoa
carrega consigo sua história, seus valores e suas crenças. É por isso que
temos, inclusive, a conhecida bancada evangélica na Câmara dos Deputados e no
Senado Federal.
O problema não está na
presença de pessoas religiosas na política. O problema começa quando a religião
deixa de ser fonte de valores para se transformar em instrumento de dominação;
quando Deus passa a ser propriedade de um partido e Jesus se transforma em cabo
eleitoral.
Nas eleições
presidenciais de 2026, assistimos a uma situação particularmente preocupante:
igrejas transformadas em palanques, discursos religiosos utilizados como
propaganda eleitoral e lideranças religiosas ocupando espaços de destaque não
necessariamente pela profundidade de sua fé, mas pela capacidade de mobilizar
eleitores. Jesus foi chamado para o palanque, enquanto o Evangelho, muitas
vezes, ficou esquecido do lado de fora.
É nesse cenário que
dirijo uma provocação aos cristãos, especialmente àqueles que professam a fé
católica apostólica romana:
VOTEI CONTRA A MÃE!
Não se trata de
discutir a liberdade de escolher candidatos. Cada cidadão tem esse direito e
deve exercê-lo livremente. Trata-se de uma reflexão sobre coerência, identidade
e fidelidade à própria história religiosa.
Nós, católicos, temos
motivos para nos orgulhar de nossa Igreja. Não porque ela seja perfeita, pois
não é. Não porque seus membros estejam livres de contradições, pois também não
estão. Mas porque temos uma tradição de fé, um patrimônio espiritual, uma história
de compromisso com os pobres e uma Doutrina Social que nos ensina a olhar para
a dignidade humana, a justiça, a solidariedade, o bem comum e a defesa da
democracia.
Quando nossos bispos,
diante dos riscos que enxergavam para a democracia brasileira e para a
soberania nacional, chamaram os fiéis ao discernimento, fizeram aquilo que se
espera de pastores comprometidos com o Evangelho: orientaram as consciências.
Não deveriam ser tratados como cabos eleitorais, mas reconhecidos como homens
que têm a responsabilidade de iluminar a realidade social à luz de Jesus
Cristo.
Entretanto, o que
fizeram alguns católicos? Em vez de refletir sobre os argumentos apresentados,
preferiram atacar seus pastores. Chamaram bispos de comunistas, acusaram-nos de
defender ladrões, disseram que estavam contra o povo e que não tinham sabedoria
para orientar os fiéis.
Desde quando discordar
de um bispo significa deixar de ser católico? Não! Mas desde quando ser
católico significa desprezar o ensinamento de seus pastores quando ele
contraria nossas preferências políticas?
A Igreja não determina
em quem devemos votar. A Igreja forma consciências. E a Doutrina Social da
Igreja oferece critérios para avaliar projetos políticos: dignidade da pessoa
humana, opção preferencial pelos pobres, solidariedade, subsidiariedade, justiça
social, participação popular e bem comum.
Um cristão não pode
avaliar um projeto político apenas pelo discurso religioso de quem o apresenta.
Precisa perguntar: que país esse projeto pretende construir? Quem será
beneficiado? Quem continuará esquecido? O que acontecerá com os trabalhadores,
os assalariados, os pobres, os que não tiveram acesso à educação e os que lutam
diariamente para sobreviver?
Política não é apenas
escolher um sobrenome, uma família ou uma bandeira. É decidir sobre a vida de
milhões de pessoas.
E a nossa Mãe, onde
fica nessa história?
Nossa Senhora Aparecida
não é apenas uma imagem de barro. É memória, identidade, cultura e
espiritualidade de um povo. É a representação de uma história que atravessa
gerações e que encontrou, na pequena imagem negra retirada das águas do Rio
Paraíba do Sul, um sinal de esperança para os pobres, os simples e os
esquecidos.
Em 1717, três
pescadores encontraram primeiro o corpo e depois a cabeça daquela pequena
imagem. A pesca, que até então não havia produzido resultados, tornou-se
abundante. A partir daquele acontecimento, nasceu uma devoção que atravessou
séculos e se tornou uma das maiores expressões da religiosidade brasileira.
Mas é preciso olhar
também para o contexto histórico daquele encontro.
O Brasil vivia sob o
domínio colonial português. A exploração econômica, a cobrança de impostos, a
escravidão e as desigualdades marcavam profundamente a vida da população. O
ouro alimentava os interesses da Coroa, enquanto os trabalhadores e os mais pobres
suportavam o peso de um sistema que concentrava riquezas e poder.
Os três pescadores
estavam inseridos naquela realidade colonial, marcada pelos interesses das
autoridades e pelas obrigações impostas à população. A pequena imagem
encontrada nas águas, porém, tornou-se símbolo de uma devoção que não ficou
restrita aos poderosos. Foi acolhida pelo povo, especialmente pelos mais
simples.
Aparecida tornou-se Mãe
de um povo que precisava de esperança.
E aqui chegamos a uma
questão que nós, católicos, não podemos tratar como secundária: a proposta de
retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil, defendida
por JB Carvalho em seu livro Bomba – A Verdade Pode Ser Explosiva
(2001).
A gravidade dessa
posição aparece na convocação apresentada na obra, pág. 82:
"Convoco a todos
os brasileiros cristãos, que amam a Deus, que se levantem e verbalizem a
vontade de Deus expressa em Sua Palavra que Aparecida não seja mais Senhora em
nossa nação."
Não estamos falando de
uma divergência teológica qualquer, nem de uma simples diferença entre
católicos e evangélicos. Estamos diante de uma manifestação explícita contra o
reconhecimento de Nossa Senhora Aparecida como Senhora de nossa nação, título
que, para nós católicos, está profundamente ligado à sua condição de Padroeira
do Brasil.
É preciso reconhecer
que cada denominação religiosa tem o direito de professar sua fé e apresentar
suas interpretações teológicas. Nenhum evangélico é obrigado a venerar Nossa
Senhora. Nenhum cidadão precisa compartilhar a devoção católica. Mas a liberdade
religiosa que protege o direito de alguém não acreditar na intercessão de Maria
também protege o direito dos católicos de amá-la, venerá-la e reconhecer sua
importância na história do Brasil.
O que não podemos
aceitar é que uma convicção religiosa particular se transforme em projeto de
imposição sobre toda a sociedade.
E é aqui que entra
Flávio Bolsonaro.
É verdade que não
podemos afirmar que o candidato tenha declarado pessoalmente que pretende
retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil. Mas também
não podemos fechar os olhos para suas relações políticas e religiosas,
especialmente quando se aproxima de lideranças que defendem publicamente
propostas dessa natureza.
Quando um candidato se
apresenta como aliado, discípulo ou representante de determinada liderança
religiosa, é legítimo perguntar até que ponto as ideias e os projetos dessa
liderança também encontram espaço em seu projeto político.
Não basta dizer que se
é cristão, levantar a Bíblia ou anunciar que se pretende decretar o Brasil como
nação do Senhor Jesus. É preciso esclarecer que lugar haverá para os milhões de
brasileiros que professam outras religiões e, particularmente, para a tradição
católica que ajudou a construir a história espiritual e cultural deste país.
O problema não é um
evangélico defender sua fé. Ele tem todo o direito de fazê-lo. O problema é
querer transformar sua interpretação religiosa em projeto de Estado, diminuindo
ou desqualificando a fé dos outros.
Por isso, um católico
que vota em um candidato associado a esse ambiente religioso precisa, no
mínimo, refletir sobre o que está apoiando. Não se trata de exigir que todos
votem da mesma maneira, mas de perguntar se existe coerência entre a fé que se
professa e o projeto político que se ajuda a eleger.
Afinal, como explicar
que alguém que reza diante de Nossa Senhora Aparecida, participa de suas
festas, carrega sua medalha e se emociona diante de sua imagem não considere
preocupante apoiar um projeto político que se aproxima de uma liderança
empenhada em questionar seu lugar como Padroeira do Brasil?
É nesse sentido que a
expressão ganha força:
VOTEI CONTRA A MÃE!
Talvez alguns tenham
votado sem conhecer o livro, sem saber das propostas de seu autor ou sem
compreender as implicações dessas alianças. Mas a falta de conhecimento não
elimina a necessidade de discernimento. A fé também exige estudo, memória e
responsabilidade.
Nossa Senhora Aparecida
não pertence exclusivamente aos católicos. Sua história ultrapassou os limites
da Igreja e tornou-se parte da memória afetiva e cultural de milhões de
brasileiros. Querer diminuir seu lugar na história nacional é desconsiderar uma
herança que pertence à história do próprio Brasil.
A Mãe do Magnificat não
é Mãe dos poderosos!
Maria não é símbolo de
autoritarismo. Não é instrumento de perseguição religiosa. Não é bandeira de
partido. Não é propriedade de uma liderança religiosa.
Maria é aquela mulher
de Nazaré que disse sim a Deus. É aquela que, no Magnificat, anunciou que Deus
derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes, sacia de bens os
famintos e despede os ricos de mãos vazias (Lc 1,46-55).
Essa é a Maria do
Evangelho!
A mesma Maria que não
se colocou ao lado dos poderosos para garantir privilégios, mas reconheceu a
ação de Deus na história dos pequenos. A mesma mulher que nos aponta para Jesus
e nos ensina a fazer tudo aquilo que Ele nos disser.
Portanto, não basta
carregar uma imagem de Nossa Senhora no peito, colocar seu retrato na parede ou
organizar grandes festas em sua homenagem. É preciso compreender o Evangelho
que ela nos ajuda a viver.
E há outra contradição
que não podemos ignorar: a história de Nossa Senhora Aparecida nasceu em um
Brasil marcado pela exploração colonial. Naquele tempo, a riqueza do ouro era
levada para sustentar os interesses da Coroa Portuguesa, enquanto a população
sofria com impostos, escravidão e desigualdades.
Hoje, diante das
discussões sobre soberania nacional, riquezas minerais estratégicas, terras
raras e interesses econômicos de grandes potências, não podemos aceitar que o
Brasil volte a ser tratado como território disponível para os interesses de
outros países.
Ontem, a Coroa
Portuguesa. Hoje, os interesses econômicos internacionais. Os contextos são
diferentes, mas a pergunta permanece: a quem serve a riqueza de nossa terra? Ao
povo brasileiro ou aos poderosos que pretendem controlar seus destinos?
Aparecida, em sua
origem popular, lembra-nos que a esperança não nasce dos palácios, mas também
das águas, das mãos trabalhadoras e da vida dos pequenos.
Quem ama Nossa Senhora
precisa respeitar a dignidade de todos os filhos e filhas de Deus,
independentemente da religião que professam. Quem se orgulha da Igreja precisa
conhecer sua história, sua tradição, seu magistério e sua Doutrina Social.
E, sobretudo, precisa
aprender que a fé não pode ser utilizada para justificar projetos de submissão
econômica, desigualdade social, autoritarismo ou desprezo pelos mais
vulneráveis.
Não basta dizer que
acredita. É preciso saber em que acredita!
Não podemos repetir os
erros da história. Houve um tempo em que a religião esteve submetida aos
interesses da Coroa Portuguesa, no regime do Padroado. Hoje, não podemos
aceitar que a fé seja colocada a serviço de projetos políticos que pretendam
submeter o Estado a uma única expressão religiosa ou transformar a Igreja em
instrumento de poder.
Aparecida nasceu nas
águas de um Brasil marcado pela exploração e pela desigualdade. Sua imagem
tornou-se sinal de esperança para um povo que não queria continuar vivendo de
joelhos diante dos poderosos.
Talvez esteja na hora
de nós, católicos, recuperarmos um pouco dessa memória.
Não precisamos
concordar com todos os bispos, nem transformar a Igreja em partido político.
Precisamos, sim, ter maturidade para distinguir a orientação pastoral de uma
liderança religiosa de uma disputa eleitoral. Precisamos compreender que o
Evangelho não cabe inteiro em nenhum partido e que nenhum candidato pode
reivindicar o monopólio de Deus.
A pergunta que fica não
é simplesmente em quem você votou. É outra, muito mais profunda:
O seu voto foi coerente
com a fé que você professa?
Porque, no final das
contas, não adianta chamar Maria de Mãe e apoiar, sem discernimento, projetos
que desrespeitam sua história, sua espiritualidade e a liberdade religiosa de
nosso povo.
Não adianta levantar a
Bíblia, gritar o nome de Jesus e esquecer que Ele passou a vida ao lado dos
pobres, dos doentes, dos excluídos e daqueles que não tinham voz.
Se a política
transformou Jesus em palanque, que os cristãos tenham coragem de devolver Jesus
ao Evangelho.
Se transformaram as
igrejas em comitês eleitorais, que os cristãos tenham coragem de devolver os
templos à oração, à comunhão e ao serviço.
E se, na hora do voto,
alguns se esqueceram da Mãe, que ao menos agora tenham coragem de rever sua
própria história.
Nossa Senhora Aparecida
não precisa de votos para continuar sendo Mãe. Mas nós, católicos, precisamos
de consciência para não votar contra aquilo que dizemos acreditar.
VOTEI CONTRA A MÃE!
Que essa expressão não
seja apenas uma provocação eleitoral, mas um convite à conversão da
consciência, à fidelidade ao Evangelho e ao respeito pela história de nossa
Igreja.
Porque uma coisa é
discordar de Maria. Outra, muito diferente, é esquecer que ela é a Mãe que
aprendemos a amar e que faz parte da história da nossa fé e da nossa gente.
