segunda-feira, 7 de setembro de 2026

7 DE SETEMBRO: A PÁTRIA QUE AINDA PRECISAMOS CONQUISTAR

Sete de Setembro.
O dia amanhece vestido de verde e amarelo. As bandeiras tremulam, os hinos ecoam, os desfiles percorrem as ruas e, por algumas horas, somos convidados a lembrar que pertencemos a uma mesma terra.
É bonito.
Mas uma pergunta insiste em atravessar a festa:
Que independência estamos celebrando?
Independência de quem? Para quem? E para quê?
Talvez seja preciso, neste Dia da Pátria, diminuir o volume dos discursos e aumentar o volume da consciência.
Porque o Brasil não cabe nos palanques.
Não cabe nas brigas de esquerda contra direita. Não cabe nas guerras das redes sociais. Não cabe nos escândalos de cada manhã, nas acusações de cada noite, nas fake news travestidas de verdade nem nas verdades convenientemente escondidas.
O Brasil é muito maior do que a politicagem que, tantas vezes, sequestra a nossa esperança.
Enquanto alguns discutem quem é o culpado, milhões de brasileiros continuam perguntando quem vai lhes dar uma oportunidade.
Enquanto uns disputam poder, outros disputam um prato de comida.
Enquanto alguns acumulam milhões, outros contam moedas para comprar o pão.
Enquanto alguns discutem ideologias, há crianças que ainda lutam contra a fome e a falta de uma escola capaz de lhes abrir as portas do futuro.
Este também é o Brasil.
E talvez seja justamente esse Brasil que precisamos enxergar neste 7 de Setembro.
Um Brasil que possui uma das maiores riquezas naturais do planeta.
Um Brasil de rios imensos, florestas majestosas, praias deslumbrantes, montanhas, campos férteis e uma natureza que parece ter sido desenhada pela mão de Deus.
Um Brasil de cidades que encantam, estradas que atravessam paisagens extraordinárias e lugares que fazem qualquer visitante compreender por que esta terra é tão admirada.
Mas há uma contradição dolorosa escondida atrás de tanta beleza.
Como pode uma terra tão rica conviver com tanta pobreza?
Como podemos produzir tanto alimento e ainda permitir que brasileiros passem fome?
Como podemos falar em desenvolvimento enquanto milhões não têm acesso a uma educação capaz de romper o círculo da pobreza?
Como podemos celebrar o futuro quando tantos jovens não encontram outra perspectiva senão a violência, o tráfico, a marginalidade ou a migração em busca de uma vida melhor?
O Brasil produz riqueza.
E muita riqueza.
O problema não é produzir.
O problema é quando a riqueza produzida por muitos termina concentrada nas mãos de poucos.
O lucro não é pecado. O capital não é inimigo. Empreender, produzir, investir, crescer e prosperar fazem parte da vida econômica de uma sociedade.
Mas há uma fronteira que não podemos ultrapassar:
quando o dinheiro vale mais do que a pessoa, a economia deixa de servir à vida.
Quando o lucro se torna absoluto, o ser humano vira instrumento.
Quando a riqueza não é acompanhada de responsabilidade social, a prosperidade de alguns pode se transformar na miséria de muitos.
E quando a desigualdade se torna insuportável, nasce o terreno fértil para a corrupção, para o populismo, para a manipulação, para a compra de consciências e para a velha politicagem que se alimenta justamente da pobreza que deveria combater.
E nós, brasileiros, continuamos brigando.
Brigamos por políticos como se fossem jogadores de futebol.
Defendemos partidos como se fossem religiões.
Compartilhamos notícias sem saber se são verdadeiras.
Acreditamos naquilo que confirma nossas convicções e rejeitamos aquilo que nos incomoda.
E, enquanto isso, a Pátria permanece esperando.
Esperando por educação.
Esperando por saúde.
Esperando por segurança.
Esperando por justiça.
Esperando por trabalho.
Esperando por dignidade.
Talvez o Brasil não precise de mais brasileiros apaixonados por políticos.
Precise, sim, de brasileiros apaixonados pelo Brasil.
Apaixonados pelo professor que ensina.
Pelo trabalhador que acorda antes do sol.
Pelo agricultor que coloca alimento na nossa mesa.
Pela criança que precisa de uma escola.
Pelo jovem que precisa de oportunidade.
Pelo idoso que merece respeito.
Pela família que luta para sobreviver.
Pela cidade que precisa ser cuidada.
Pela natureza que não pode continuar sendo destruída em nome da ganância.
Pelo cidadão que tem direito de viver sem medo.
Pátria não é apenas uma bandeira hasteada.
Pátria é uma criança alimentada.
Pátria é uma escola que funciona.
Pátria é um hospital que acolhe.
Pátria é uma estrada segura.
Pátria é uma família que pode viver em paz.
Pátria é um trabalhador que recebe salário digno.
Pátria é um jovem que consegue sonhar sem precisar abandonar sua terra.
Pátria é uma sociedade na qual ninguém seja considerado menos humano porque nasceu pobre.
Por isso, talvez o nosso maior gesto patriótico neste 7 de Setembro não seja apenas cantar o Hino Nacional.
Seja perguntar:
O que estou fazendo para construir o Brasil que desejo?
Porque é muito fácil amar a Pátria quando ela aparece nos desfiles.
Difícil é amá-la quando encontramos um menino pedindo comida na rua.
Difícil é amá-la quando vemos uma família morando em condições indignas.
Difícil é amá-la quando encontramos uma criança sem escola, um jovem sem esperança ou um idoso abandonado.
É aí que o patriotismo deixa de ser discurso e se transforma em compromisso.
O Brasil não é lixo.
Lixo é aquilo que fazemos da Pátria quando permitimos que a corrupção, a ganância, a mentira, a violência e a indiferença destruam aquilo que poderia ser uma das maiores nações do mundo.
Não precisamos destruir o Brasil.
Precisamos reconstruí-lo.
Não precisamos de uma Pátria perfeita.
Precisamos de uma Pátria mais justa.
Não precisamos de unanimidade.
Precisamos aprender a conviver com nossas diferenças sem transformar o outro em inimigo.
Somos uma nação mestiça, plural, construída pelo encontro de povos, culturas, histórias e sofrimentos.
Aqui se encontram indígenas, africanos, europeus, asiáticos e tantos outros povos.
O Brasil é mistura.
É diversidade.
É contradição.
É dor e esperança.
É pobreza e riqueza.
É desigualdade e solidariedade.
É lágrima e carnaval.
É sofrimento e festa.
É um povo que, mesmo quando quase não tem nada, muitas vezes ainda encontra forças para repartir o pouco que possui.
Talvez essa seja a nossa maior riqueza: o brasileiro.
Neste 7 de Setembro, portanto, não quero apenas um Brasil independente de Portugal.
Quero um Brasil independente da fome.
Independente do analfabetismo.
Independente da violência.
Independente da corrupção.
Independente da manipulação.
Independente da miséria.
Independente da desigualdade que transforma riqueza em privilégio e pobreza em destino.
Quero um Brasil onde o capital esteja a serviço do desenvolvimento humano.
Onde o lucro caminhe ao lado da responsabilidade.
Onde a política seja serviço, e não negócio.
Onde governar seja cuidar.
Onde o poder tenha limites.
Onde a verdade não seja fabricada para favorecer interesses.
Onde nenhuma criança seja condenada pela pobreza em que nasceu.
Onde nenhum jovem precise escolher entre a fome e o crime.
Onde nenhum brasileiro tenha vergonha de ser brasileiro.
Porque a independência que celebramos em 1822 foi política.
A independência que ainda precisamos conquistar é social.
E essa não será proclamada por um príncipe às margens de um riacho.
Será construída todos os dias.
Nas escolas.
Nas famílias.
Nas empresas.
Nas igrejas.
Nas comunidades.
Nas ruas.
Nas urnas.
E, sobretudo, dentro da consciência de cada brasileiro.
Que neste 7 de Setembro o verde e o amarelo não sejam propriedade de partidos, grupos ou ideologias.
Que sejam as cores de todos nós.
Que o Hino Nacional não seja apenas uma música que cantamos.
Que seja um compromisso que assumimos.
E que a nossa bandeira não seja apenas um pedaço de tecido tremulando ao vento.
Que ela seja um lembrete permanente de que esta terra é nossa responsabilidade.
Porque o Brasil não está pronto.
O Brasil está esperando por nós.
E a verdadeira independência começará no dia em que todos os brasileiros puderem olhar para esta imensa Pátria e dizer, sem medo e sem vergonha:
“Esta terra também é minha.
Esta riqueza também me pertence.
Esta Pátria também cuidou de mim.”
José A. Galiani 

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