terça-feira, 14 de abril de 2026

AS CORES QUE ME HABITAM ( E AS QUE ME ROUBARAM)

AS CORES QUE ME HABITAM (E AS QUE ME ROUBARAM)
Houve um tempo em que vestir verde e amarelo era quase um sacramento civil. Não precisava explicar, não precisava justificar. Bastava vestir. Era Copa do Mundo, era rua pintada, era bandeira na janela, era grito coletivo que não perguntava em quem você votava — perguntava apenas se você acreditava.
Eu acreditava.
Acreditava no futebol como linguagem comum, na camisa da seleção como ponto de encontro, na bandeira como símbolo maior do que qualquer governo, maior do que qualquer partido, maior até do que nossas discordâncias. As cores eram nossas — do povo, da infância, das tardes de jogo no rádio, das lágrimas e dos abraços.
Mas alguma coisa aconteceu no caminho.
Roubaram as cores.
E não foi por acaso. Não foi espontâneo. Foi estratégia.
Políticos oportunistas — muitos deles sustentados por desinformação, cinismo e sede de poder — sequestraram o verde e amarelo e os transformaram em instrumento de manipulação coletiva. Vestiram a bandeira como disfarce moral, como se o uso das cores fosse suficiente para legitimar seus discursos vazios e suas práticas questionáveis. Apropriaram-se de um símbolo nacional para blindar projetos pessoais, muitos deles marcados pela irresponsabilidade, pelo autoritarismo disfarçado e pela exploração da ignorância.
Transformaram o verde e amarelo em uniforme ideológico. Não para unir — mas para identificar, excluir e atacar. Quem veste, segundo essa lógica doentia, pertence. Quem não veste, suspeito é. Criaram uma caricatura de patriotismo: barulhenta, agressiva, simplista — e profundamente desonesta.
Pintaram a bandeira com mentiras repetidas até parecerem verdade. Alimentaram um ecossistema de fake news, distorceram fatos, atacaram instituições, desacreditaram o conhecimento e transformaram o debate público em espetáculo de gritos e slogans. Não elevaram o Brasil — rebaixaram o sentido de Brasil.
E fizeram algo ainda mais grave: reduziram a complexidade de um país inteiro a uma narrativa rasa, conveniente e perigosa. Um país continental transformado em torcida organizada. Um povo plural comprimido em uma única voz — a deles.
E eu, que sempre me senti em casa dentro dessas cores, passei a me sentir estrangeiro.
Hoje penso duas vezes antes de vestir aquilo que um dia foi natural. Não por vergonha da pátria — essa permanece intacta —, mas pelo asco de ser confundido com esse projeto de poder travestido de patriotismo. Porque, no imaginário contaminado, já não se vê apenas um cidadão: vê-se um rótulo, uma adesão cega, uma cumplicidade que eu recuso.
É mais do que triste. É indigno.
Falam em defender o Brasil, mas usam o Brasil. Falam em valores, mas negociam princípios. Falam em verdade, mas sobrevivem da mentira. Invocam Deus, mas desprezam o próximo. Erguem a bandeira, mas pisam no povo real — o que sofre, o que trabalha, o que espera políticas sérias e não encenações ideológicas.
Desconhecem — ou fingem desconhecer — o Brasil profundo: o das escolas abandonadas, o das periferias esquecidas, o das políticas públicas sucateadas por gestões incompetentes ou deliberadamente negligentes. Preferem o palco ao compromisso, o confronto à responsabilidade, o delírio à realidade.
E assim, profanaram as cores.
Sim — profanaram.
Porque transformar símbolo nacional em ferramenta de manipulação não é apenas um erro político — é uma violência simbólica contra o próprio país.
E assim, as cores que deveriam unir passaram a dividir.
Mas eu não desisti delas.
Eu apenas me recuso a usá-las sob o sequestro de quem as transformou em instrumento de poder.
Porque sei — e nisso resisto — que nenhuma apropriação é eterna. Que o verde não pertence a um grupo, nem o amarelo a uma ideologia. Que a bandeira não é propriedade de políticos, mas expressão de um povo que é muito maior do que qualquer projeto de poder.
E que um dia, quando a mentira perder força e o barulho der lugar à verdade, essas cores serão devolvidas ao seu lugar de origem: o coração do povo.
Nesse dia, não será apenas a camisa que voltará às ruas.
Será a dignidade de um país que, depois de ter sido manipulado, terá coragem de se reencontrar.

Um comentário:

  1. Caríssimo, tenho orgulho de poder chamá-lo de amigo. Este seu texto, irrepreensível, oportuno e necessário, é um daqueles que eu mesmo gostaria de ter escrito. Enchergo-me nele, e ele me representa. Muito obrigado! Parabéns! Obrigado! (Diác. Mario Braggio)

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