domingo, 25 de janeiro de 2026

POR UMA POLÍTICA AMBIENTAL JUSTA, EFICAZ E COMPROMETIDA COM O BEM COMUM

 

Esta reflexão nasce a partir de uma manifestação popular realizada no município de Pindamonhangaba- SP, em protesto contra a taxa do lixo aprovada pela Câmara de Vereadores. Trata-se de um movimento legítimo, que expressa a indignação da população diante de uma cobrança imposta sem que existam, de fato, políticas públicas ambientais eficazes, estruturadas e socialmente justas.

            Desde o início, é necessário afirmar que este posicionamento não é contra a política nem contra todos os políticos. Ao contrário, reconhecemos e apoiamos os políticos honestos, sérios e comprometidos com o bem comum, que compreendem a política, no sentido aristotélico, como a arte de governar para a vida boa de todos (eudaimonia), e não como instrumento de autopromoção ou interesse privado.

            No entanto, é igualmente necessário denunciar que o discurso do cuidado com a Casa Comum, embora legítimo, há muito tempo tem sido usado como palanque político. Hannah Arendt já alertava para o perigo da política esvaziada de ação concreta, quando o discurso se afasta da responsabilidade. Fala-se muito, promete-se muito, mas age-se pouco. O meio ambiente vira slogan; passada a eleição, o compromisso se dissolve.

            Historicamente, questões ambientais têm sido instrumentalizadas por muitos políticos para conquistar votos, sem se converterem em políticas públicas permanentes. Max Weber ajuda a compreender esse fenômeno ao distinguir a ética da convicção da ética da responsabilidade. Defender o meio ambiente apenas no discurso é agir por convicção aparente; governar exige responsabilidade concreta sobre as consequências das decisões — inclusive econômicas, sociais e ambientais.

            Isso se evidencia no fato de que políticas sérias e eficazes de reciclagem raramente são votadas ou priorizadas. Aqui se manifesta o que Rousseau denunciava: quando as leis deixam de expressar a vontade geral e passam a servir a interesses específicos, o pacto social se rompe. Cobra-se da população, mas não se constrói coletivamente a solução.

            Ao mesmo tempo, não existe uma campanha permanente, forte e educativa de conscientização ambiental. Paulo Freire já afirmava que não há transformação sem educação crítica. Culpabilizar o cidadão sem formá-lo é um mecanismo de opressão: transfere-se a responsabilidade estrutural para o indivíduo, sem oferecer condições reais de mudança.

            Outro ponto grave é a desvalorização dos catadores, carroceiros e ferros-velhos, que deveriam ser reconhecidos como atores centrais da política ambiental. Amartya Sen lembra que desenvolvimento não é apenas crescimento econômico, mas expansão de capacidades humanas. Ignorar esses trabalhadores é negar dignidade, renda e participação a quem, de fato, sustenta a reciclagem no país.

            Também não há enfrentamento estrutural com as indústrias, especialmente no que diz respeito à redução de embalagens. Ulrich Beck, ao falar da sociedade de risco, denuncia exatamente isso: os lucros são privatizados, enquanto os riscos e os danos ambientais são socializados. Falta legislação que obrigue, por exemplo, a indústria de bebidas a assumir responsabilidade pelas garrafas PET que coloca em circulação. Falta, igualmente, uma política consistente de logística reversa e educação ambiental.

            Diante desse cenário, a taxa do lixo aparece não como solução, mas como transferência do problema para a população, o que contraria o princípio da justiça distributiva, já presente em Aristóteles e aprofundado por John Rawls: os custos sociais não podem recair sempre sobre os mesmos, especialmente os mais vulneráveis.

            Por isso, a pergunta que nasce das ruas de Pindamonhangaba continua ecoando, incômoda e necessária:

     O que está sendo lançado, todos os dias, dentro do Rio Paraíba do Sul?

             Lixo doméstico, plástico, esgoto sem tratamento, resíduos industriais? A omissão do poder público é, como diria Arendt, uma forma de cumplicidade. Enquanto o cuidado com a Casa Comum continuar sendo discurso e não política concreta, o rio seguirá pagando a conta — e com ele, toda a sociedade.

 J. A. Galiani – Filósofo, Teólogo e Pedagogo.

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