terça-feira, 15 de setembro de 2026

A FESTA E O ANALFABETO POLÍTICO!

 

Sobre analfabetismo político e outras grosserias.


(imagem gerada pelo GPT)

Há um tipo curioso de analfabetismo que não aparece nos censos, não se mede em provas e não se resolve com diploma.

É o analfabetismo de quem sabe ler palavras, mas não sabe ler o ambiente.

Sabe escrever, mas não sabe conversar.

Sabe opinar, mas não sabe ouvir.

Sabe exigir respeito, mas não sabe respeitar.

E, principalmente, não compreende uma regra elementar da convivência: a casa dos outros não é extensão da própria casa.

Há pessoas que chegam a uma festa como quem chega para fiscalizar território. Comem, bebem, sentam-se à mesa, conversam com sua tribo, divertem-se e, de repente, esquecem uma pequena palavra chamada educação.

Foi assim que, certa vez, uma simples referência à política, em meio a uma confraternização, recebeu uma resposta digna de um pequeno manual de autoritarismo doméstico:

Se começar a falar de política, eu saio da mesa, O MESMO QUE CALE A BOCA!

Que curioso!

Não querer falar de política é um direito.

Pedir para mudar de assunto é perfeitamente legítimo.

Levantar-se e sair também.

Mas mandar alguém calar a boca é outra coisa.

“Prefiro não falar sobre política” é limite.

“Se continuar, eu saio” é escolha.

“Cala a boca” é grosseria.

A diferença parece pequena, mas revela muito. Porque quem não quer ouvir pode simplesmente não ouvir. Quem não quer participar pode se retirar. O problema começa quando alguém transforma sua preferência pessoal em regra para todos.

Afinal, ninguém é obrigado a gostar de política.

Mas será que precisamos mandar alguém calar a boca para afirmar isso?

Não aprendemos que é possível discordar sem humilhar?

Não seria mais civilizado dizer: “Esse assunto me incomoda. Podemos conversar sobre outra coisa?”

Talvez.

Mas há pessoas que confundem convicção com arrogância, liberdade com imposição e limite com censura.

E aqui está o detalhe que parece escapar ao analfabeto político: a pessoa estava em uma festa que não era dela.

Recebeu convite.

Recebeu hospitalidade.

Sentou-se à mesa.

Participou da confraternização.

E, de repente, comportou-se como se o convite tivesse vindo acompanhado de uma procuração.

Como se tivesse recebido também o direito de determinar o que o anfitrião poderia ou não dizer.

É uma curiosa inversão de papéis: o convidado vira autoridade; o anfitrião vira subordinado; a hospitalidade vira obrigação; e a gratidão desaparece debaixo da mesa.

Há pessoas assim.

Não entram em uma casa. Ocupam um território.

Não participam da festa. Tomam posse dela.

Não dialogam. Sentenciam.

E depois confundem grosseria com personalidade.

Talvez precisem reaprender uma regra antiga: na casa dos outros, podemos não gostar de tudo. Só não precisamos ser grosseiros por causa disso.

A festa não precisa obedecer às nossas convicções.

A brincadeira não precisa passar pelo nosso tribunal moral.

O anfitrião não precisa pedir autorização para falar.

Podemos discordar. Podemos ficar quietos. Podemos mudar de assunto. Podemos até ir embora.

Mas existe uma diferença monumental entre sair da mesa porque algo nos incomoda e tentar calar a mesa inteira para não ouvir aquilo de que discordamos.

Isso não é liberdade. É intolerância.

O analfabeto político não é necessariamente aquele que nada entende de política. Às vezes conhece slogans, repete frases, identifica inimigos e sabe perfeitamente quem merece sua indignação.

Só não aprendeu a fazer uma pergunta simples e devastadora: “E se eu estiver errado?”

Essa pergunta exige humildade.

E humildade parece ser artigo raro.

O analfabeto político vive dentro da própria bolha. Ali, todos pensam igual, repetem as mesmas certezas e confirmam as mesmas verdades.

Quando alguém pensa diferente, a bolha se sente ameaçada.

Então vem a ironia.

O julgamento.

A grosseria.

O “cala a boca”.

Porque, quando não se consegue dialogar com o diferente, tenta-se silenciá-lo.

E é assim que uma frase de poucos segundos pode destruir uma memória de muitos anos.

Uma festa que deveria produzir alegria deixa um desconforto.

Um encontro que deveria aproximar cria distância.

Um gesto de acolhimento termina marcado por uma palavra atravessada.

Depois alguém pergunta: “Por que as pessoas estão se afastando?”

Talvez porque ninguém queira permanecer onde precisa medir cada palavra para não ser desrespeitado.

Ninguém é obrigado a concordar conosco.

Mas todos deveriam ser capazes de respeitar quem pensa diferente.

O sujeito pode até não falar de política.

Mas sua atitude é profundamente política.

Porque autoritarismo também é uma posição política, ainda que o autoritário não perceba.

É querer controlar.

É impor.

É acreditar que o outro precisa se calar para que nossa certeza permaneça intacta.

E talvez seja por isso que existam tantos analfabetos políticos entre nós: gente que fala de democracia e pratica autoritarismo; que fala de família e destrói relações; que fala de Deus e não consegue enxergar o próximo; que fala de respeito e manda os outros calarem a boca.

Gente que recebe carinho e devolve grosseria. Gente que come do prato servido com generosidade e depois cospe exatamente no prato que lhe alimentou.

Talvez seja hora de uma pequena revisão de consciência.

Antes de corrigir o outro, olhar para a própria trave.

Antes de fiscalizar a boca alheia, aprender a governar a própria língua.

Antes de exigir silêncio, aprender a escutar.

Antes de entrar na casa dos outros com certezas absolutas, lembrar: o convite não transfere a propriedade.

E talvez essa seja a grande ironia dos nossos tempos: há pessoas tão preocupadas em controlar o que os outros dizem que jamais percebem o que suas próprias palavras revelam sobre elas.

Porque um “cala a boca” pode durar dois segundos.

Mas há palavras que permanecem.

Ficam sentadas à mesa depois que todos vão embora.

Ficam no silêncio depois da festa.

Ficam na memória de quem ofereceu a casa, a comida, o afeto e a acolhida.

E é nesse silêncio que começa o verdadeiro julgamento: não o julgamento dos outros, mas aquele que fazemos de nós mesmos quando já não existe plateia.

Então fica uma pergunta para quem um dia se sentou à mesa alheia, desfrutou da hospitalidade de quem o recebeu e, diante de uma simples divergência, decidiu impor ao anfitrião o próprio limite: Você mandou o outro calar a boca porque precisava proteger a sua paz — ou porque não suportava ouvir uma voz que não obedecia à sua?

E outra, ainda mais incômoda: quando você disse “se começar a falar de política, eu saio da mesa”, percebeu que a mesa não era sua?

Porque sair é um direito.

Discordar é um direito.

Não ouvir é um direito.

Mas humilhar nunca foi direito de ninguém.

Talvez, depois de tanta preocupação com aquilo que os outros deveriam falar, pensar ou fazer, reste uma última pergunta: o que havia de tão ameaçador na voz do outro para que você precisasse mandá-la calar?

Talvez a resposta esteja justamente no silêncio.

Não naquele que você tentou impor.

Mas naquele que sobra quando a festa termina, a música acaba, os copos são recolhidos e cada um volta para sua casa.

É nesse silêncio que a consciência pergunta.

É nesse silêncio que a arrogância perde a voz.

É nesse silêncio que descobrimos se éramos realmente donos de nossas convicções — ou apenas prisioneiros delas.

Porque, no fim, a mesa era do anfitrião. A casa era do anfitrião. A festa era do anfitrião.

Mas a educação deveria ser de todos.

E talvez essa seja a única regra que jamais deveria precisar ser anunciada: quem não sabe respeitar a mesa que o acolheu talvez ainda não tenha aprendido a merecer o lugar que ocupa nela.