Sobre analfabetismo
político e outras grosserias.
Há um tipo curioso de
analfabetismo que não aparece nos censos, não se mede em provas e não se
resolve com diploma.
É o analfabetismo de
quem sabe ler palavras, mas não sabe ler o ambiente.
Sabe escrever, mas não
sabe conversar.
Sabe opinar, mas não
sabe ouvir.
Sabe exigir respeito,
mas não sabe respeitar.
E, principalmente, não
compreende uma regra elementar da convivência: a casa dos outros não é extensão
da própria casa.
Há pessoas que chegam a
uma festa como quem chega para fiscalizar território. Comem, bebem, sentam-se à
mesa, conversam com sua tribo, divertem-se e, de repente, esquecem uma pequena
palavra chamada educação.
Foi assim que, certa
vez, uma simples referência à política, em meio a uma confraternização, recebeu
uma resposta digna de um pequeno manual de autoritarismo doméstico:
Se começar a falar de
política, eu saio da mesa, O MESMO QUE CALE A BOCA!
Que curioso!
Não querer falar de
política é um direito.
Pedir para mudar de
assunto é perfeitamente legítimo.
Levantar-se e sair
também.
Mas mandar alguém calar
a boca é outra coisa.
“Prefiro não falar
sobre política” é limite.
“Se continuar, eu saio”
é escolha.
“Cala a boca” é
grosseria.
A diferença parece
pequena, mas revela muito. Porque quem não quer ouvir pode simplesmente não
ouvir. Quem não quer participar pode se retirar. O problema começa quando
alguém transforma sua preferência pessoal em regra para todos.
Afinal, ninguém é
obrigado a gostar de política.
Mas será que precisamos
mandar alguém calar a boca para afirmar isso?
Não aprendemos que é
possível discordar sem humilhar?
Não seria mais
civilizado dizer: “Esse assunto me incomoda. Podemos conversar sobre outra
coisa?”
Talvez.
Mas há pessoas que
confundem convicção com arrogância, liberdade com imposição e limite com
censura.
E aqui está o detalhe
que parece escapar ao analfabeto político: a pessoa estava em uma festa que não
era dela.
Recebeu convite.
Recebeu hospitalidade.
Sentou-se à mesa.
Participou da
confraternização.
E, de repente,
comportou-se como se o convite tivesse vindo acompanhado de uma procuração.
Como se tivesse
recebido também o direito de determinar o que o anfitrião poderia ou não dizer.
É uma curiosa inversão
de papéis: o convidado vira autoridade; o anfitrião vira subordinado; a
hospitalidade vira obrigação; e a gratidão desaparece debaixo da mesa.
Há pessoas assim.
Não entram em uma casa.
Ocupam um território.
Não participam da
festa. Tomam posse dela.
Não dialogam. Sentenciam.
E depois confundem
grosseria com personalidade.
Talvez precisem
reaprender uma regra antiga: na casa dos outros, podemos não gostar de tudo. Só
não precisamos ser grosseiros por causa disso.
A festa não precisa
obedecer às nossas convicções.
A brincadeira não
precisa passar pelo nosso tribunal moral.
O anfitrião não precisa
pedir autorização para falar.
Podemos discordar.
Podemos ficar quietos. Podemos mudar de assunto. Podemos até ir embora.
Mas existe uma
diferença monumental entre sair da mesa porque algo nos incomoda e tentar calar
a mesa inteira para não ouvir aquilo de que discordamos.
Isso não é liberdade. É
intolerância.
O analfabeto político
não é necessariamente aquele que nada entende de política. Às vezes conhece
slogans, repete frases, identifica inimigos e sabe perfeitamente quem merece
sua indignação.
Só não aprendeu a fazer
uma pergunta simples e devastadora: “E se eu estiver errado?”
Essa pergunta exige
humildade.
E humildade parece ser
artigo raro.
O analfabeto político
vive dentro da própria bolha. Ali, todos pensam igual, repetem as mesmas
certezas e confirmam as mesmas verdades.
Quando alguém pensa
diferente, a bolha se sente ameaçada.
Então vem a ironia.
O julgamento.
A grosseria.
O “cala a boca”.
Porque, quando não se
consegue dialogar com o diferente, tenta-se silenciá-lo.
E é assim que uma frase
de poucos segundos pode destruir uma memória de muitos anos.
Uma festa que deveria
produzir alegria deixa um desconforto.
Um encontro que deveria
aproximar cria distância.
Um gesto de acolhimento
termina marcado por uma palavra atravessada.
Depois alguém pergunta:
“Por que as pessoas estão se afastando?”
Talvez porque ninguém
queira permanecer onde precisa medir cada palavra para não ser desrespeitado.
Ninguém é obrigado a
concordar conosco.
Mas todos deveriam ser
capazes de respeitar quem pensa diferente.
O sujeito pode até não
falar de política.
Mas sua atitude é
profundamente política.
Porque autoritarismo
também é uma posição política, ainda que o autoritário não perceba.
É querer controlar.
É impor.
É acreditar que o outro
precisa se calar para que nossa certeza permaneça intacta.
E talvez seja por isso
que existam tantos analfabetos políticos entre nós: gente que fala de
democracia e pratica autoritarismo; que fala de família e destrói relações; que
fala de Deus e não consegue enxergar o próximo; que fala de respeito e manda os
outros calarem a boca.
Gente que recebe
carinho e devolve grosseria. Gente que come do prato servido com generosidade e
depois cospe exatamente no prato que lhe alimentou.
Talvez seja hora de uma
pequena revisão de consciência.
Antes de corrigir o
outro, olhar para a própria trave.
Antes de fiscalizar a
boca alheia, aprender a governar a própria língua.
Antes de exigir
silêncio, aprender a escutar.
Antes de entrar na casa
dos outros com certezas absolutas, lembrar: o convite não transfere a
propriedade.
E talvez essa seja a
grande ironia dos nossos tempos: há pessoas tão preocupadas em controlar o que
os outros dizem que jamais percebem o que suas próprias palavras revelam sobre
elas.
Porque um “cala a boca”
pode durar dois segundos.
Mas há palavras que
permanecem.
Ficam sentadas à mesa
depois que todos vão embora.
Ficam no silêncio
depois da festa.
Ficam na memória de
quem ofereceu a casa, a comida, o afeto e a acolhida.
E é nesse silêncio que
começa o verdadeiro julgamento: não o julgamento dos outros, mas aquele que
fazemos de nós mesmos quando já não existe plateia.
Então fica uma pergunta
para quem um dia se sentou à mesa alheia, desfrutou da hospitalidade de quem o
recebeu e, diante de uma simples divergência, decidiu impor ao anfitrião o
próprio limite: Você mandou o outro calar a boca porque precisava proteger a
sua paz — ou porque não suportava ouvir uma voz que não obedecia à sua?
E outra, ainda mais
incômoda: quando você disse “se começar a falar de política, eu saio da mesa”,
percebeu que a mesa não era sua?
Porque sair é um
direito.
Discordar é um direito.
Não ouvir é um direito.
Mas humilhar nunca foi
direito de ninguém.
Talvez, depois de tanta
preocupação com aquilo que os outros deveriam falar, pensar ou fazer, reste uma
última pergunta: o que havia de tão ameaçador na voz do outro para que você
precisasse mandá-la calar?
Talvez a resposta
esteja justamente no silêncio.
Não naquele que você
tentou impor.
Mas naquele que sobra
quando a festa termina, a música acaba, os copos são recolhidos e cada um volta
para sua casa.
É nesse silêncio que a
consciência pergunta.
É nesse silêncio que a
arrogância perde a voz.
É nesse silêncio que
descobrimos se éramos realmente donos de nossas convicções — ou apenas
prisioneiros delas.
Porque, no fim, a mesa
era do anfitrião. A casa era do anfitrião. A festa era do anfitrião.
Mas a educação deveria
ser de todos.
E talvez essa seja a
única regra que jamais deveria precisar ser anunciada: quem não sabe respeitar
a mesa que o acolheu talvez ainda não tenha aprendido a merecer o lugar que
ocupa nela.