sábado, 26 de setembro de 2026

NOSSA SENHORA NÃO PRECISA DE CABO ELEITORAL

Nossa Senhora Aparecida deve estar um pouco cansada.
Não de carregar o Menino Jesus — isso ela faz há séculos.
Talvez esteja cansada de carregar também os nossos discursos.
Ultimamente, parece que descobriram uma nova modalidade de devoção mariana: a devoção eleitoral.
Funciona mais ou menos assim: pega-se Nossa Senhora, coloca-se a imagem no meio da disputa política, acrescenta-se uma informação — verdadeira, falsa, distorcida ou mal compreendida — e pronto.
Temos uma guerra santa.
De um lado, os defensores da fé.
Do outro, os inimigos da fé.
E, no meio, Nossa Senhora Aparecida, provavelmente perguntando:
“Mas alguém aí se lembrou de Jesus?”
A polêmica recente mostrou como é fácil transformar a religião em munição eleitoral.
É importante, porém, colocar as coisas no seu devido lugar.
Circulou a informação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. O próprio candidato negou. A GloboNews corrigiu a informação e pediu desculpas, e o TSE determinou a remoção de publicações que apresentassem como verdadeira essa associação. O projeto citado nas redes é de 2007, foi apresentado pelo então deputado Victório Galli e arquivado em 2008.
Até aqui, os fatos.
Mas há um detalhe que não deveria ser simplesmente jogado para debaixo do tapete.
Flávio Bolsonaro afirmou publicamente que, se eleito presidente, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.
Não é preciso demonizar a frase.
Também não é preciso santificá-la.
É preciso apenas perguntar:
O que significa transformar uma profissão de fé em ato de governo?
Porque Jesus Cristo não precisa de decreto presidencial.
E o Reino de Deus não se estabelece por decreto, medida provisória ou assinatura de chefe de Estado.
É justamente aqui que a conversa fica séria.
Uma frase religiosa pode ser perfeitamente legítima como manifestação pessoal de fé. Mas, quando pronunciada por alguém que disputa a Presidência da República, ela inevitavelmente entra no debate sobre Estado, democracia, pluralismo religioso e liberdade de consciência.
E talvez essa linguagem tenha servido de gatilho — ou, pelo menos, de combustível — para que a disputa eleitoral passasse também pelo território dos símbolos religiosos.
De repente, Jesus de um lado.
Maria do outro.
E nós, pobres pecadores, fazendo dos dois cabos eleitorais.
É uma situação quase surreal.
Porque a Igreja Católica, justamente no contexto das eleições de 2026, está dizendo outra coisa.
A CNBB não indica candidatos nem partidos. Em sua mensagem ao povo brasileiro, os bispos convidam os católicos a participar das eleições com consciência, liberdade e responsabilidade, colocando no centro a dignidade humana, o bem comum e o compromisso ético.
E a própria análise de conjuntura da CNBB chama atenção para um problema que parece ter sido feito sob medida para os nossos tempos: polarização, desconfiança, dificuldade de diálogo e incapacidade de conviver com quem pensa diferente. A mensagem é simples e profundamente democrática: uma sociedade democrática não é aquela em que todos pensam da mesma maneira, mas aquela em que pessoas diferentes conseguem compartilhar instituições, respeitar regras comuns e reconhecer a dignidade de quem pensa diferente.
É uma pena que isso não viralize tanto quanto uma briga.
Porque talvez fosse exatamente disso que precisássemos nas redes sociais.
Menos “quem é o verdadeiro cristão?”
Mais:
“Como estamos tratando o nosso irmão?”
Menos guerra santa.
Mais discernimento.
Menos fake news com imagem de santo.
Mais verdade.
Menos candidato transformado em messias.
Mais cidadania.
Menos uso político da fé.
Mais fé transformando a política em serviço.
A própria formação eleitoral promovida por organismos ligados à CNBB chama atenção para a necessidade de combater a desinformação, a compra de votos, a corrupção, o abuso do poder e também a manipulação da fé.
Ora, eis uma palavra que deveria ficar escrita na porta de toda igreja durante o período eleitoral:
MANIPULAÇÃO.
Porque é possível manipular a fé de muitos modos.
Pode-se manipular Jesus.
Pode-se manipular Maria.
Pode-se manipular a Bíblia.
Pode-se manipular o medo.
Pode-se manipular a esperança.
E pode-se até manipular o sentimento religioso de um povo simples que ama Nossa Senhora e quer apenas viver sua fé em paz.
Por isso, talvez seja necessário repetir:
Nossa Senhora Aparecida não é cabo eleitoral.
Não é patrimônio de partido.
Não é propriedade ideológica.
Não pertence à direita.
Não pertence à esquerda.
Não pertence a candidato algum.
Maria pertence ao Evangelho.
E o Evangelho não é propriedade privada de ninguém.
Nossa Senhora Aparecida não foi encontrada nas águas do Paraíba para ser cabo eleitoral.
Não apareceu para escolher partido.
Não pediu santinho.
Não gravou vídeo.
Não participou de comício.
E, até onde sabemos, nunca declarou voto.
Ela simplesmente apareceu.
Pequena.
Quebrada.
Negra.
Silenciosa.
E o povo reconheceu nela a presença materna.
Talvez justamente por isso incomode tanto quando tentamos transformá-la em propriedade ideológica.
Maria é grande demais para caber em partido.
O Evangelho é grande demais para caber em ideologia.
E Jesus é grande demais para caber na legenda de qualquer candidato.
O problema é que nós gostamos de diminuir aquilo que é sagrado até caber perfeitamente nas nossas opiniões.
Se o candidato que eu apoio fala de Nossa Senhora, eu digo:
“Homem de fé!”
Se o adversário fala, desconfio:
“Está usando a religião!”
Se alguém critica o meu candidato, digo que está atacando a Igreja.
Se alguém critica o candidato do outro, considero legítimo exercício da democracia.
É uma teologia bastante conveniente.
Temos até uma espécie de dogma da dupla medida:
quando favorece os meus, é fé;
quando favorece os outros, é manipulação.
E Nossa Senhora?
Continua em silêncio.
Talvez porque tenha aprendido, desde Caná, que não precisa disputar espaço com ninguém.
Ela simplesmente diz:
“Fazei tudo o que ele vos disser.”
E Jesus não disse:
“Transformai o adversário político em inimigo.”
Não disse:
“Compartilhai qualquer notícia que confirme aquilo que vocês já pensam.”
Não disse:
“Defendei minha Mãe atacando o irmão.”
Disse:
“Amai-vos.”
E isso é muito mais difícil.
É fácil defender Nossa Senhora numa postagem.
Difícil é defender a verdade quando ela desmente aquilo que gostaríamos que fosse verdade.
É fácil publicar uma imagem de Maria.
Difícil é tratar com respeito alguém que vota diferente de nós.
É fácil dizer “Salve Rainha”.
Difícil é não transformar o outro em demônio porque ele pensa diferente.
É fácil rezar uma Ave-Maria.
Difícil é viver como irmão.
E aqui está a ironia de tudo isso:
estamos brigando para decidir quem defende Nossa Senhora, enquanto ninguém parece perguntar se Nossa Senhora aprovaria o modo como estamos brigando.
Talvez a grande heresia do nosso tempo não seja deixar de falar de Deus.
Talvez seja falar tanto de Deus que já não conseguimos ouvir o que Deus está dizendo.
E, enquanto discutimos quem é mais católico, a fome continua.
Enquanto discutimos quem defende mais Nossa Senhora, existem pessoas sem moradia.
Enquanto brigamos por causa de políticos, famílias continuam divididas.
Enquanto disputamos quem tem a fé verdadeira, há gente abandonada precisando de uma palavra, de um prato de comida, de uma visita, de uma mão estendida.
E Maria?
Maria continua apontando para Jesus.
Como sempre.
Talvez esteja na hora de nós também olharmos para onde ela aponta.
Porque Nossa Senhora Aparecida não precisa de defensores que espalhem ódio.
Não precisa de devotos que espalhem mentira.
Não precisa de cristãos que transformem política em religião e religião em arma política.
Ela precisa de filhos que levem a sério o Evangelho.
E talvez seja justamente por isso que a pequena imagem negra encontrada nas águas continue sendo tão poderosa.
Porque ela não grita.
Não acusa.
Não faz campanha.
Não divide.
Não precisa provar nada.
Ela simplesmente aponta para Jesus.
Nós é que, às vezes, fazemos questão de colocar o dedo na frente dela.
E, olhando para nossas próprias mãos, começamos a discutir:
“Meu candidato é mais cristão que o seu.”
Enquanto Maria, lá do alto do altar, talvez esteja pensando:
“Meus filhos, eu não trouxe vocês até aqui para isso.”
Salve Nossa Senhora Aparecida.
E que ela nos livre de uma coisa ainda mais perigosa do que perder uma eleição:
perder o Evangelho tentando vencê-la.

J. A. Galiani 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

A FESTA E O ANALFABETO POLÍTICO!

 

Sobre analfabetismo político e outras grosserias.


(imagem gerada pelo GPT)

Há um tipo curioso de analfabetismo que não aparece nos censos, não se mede em provas e não se resolve com diploma.

É o analfabetismo de quem sabe ler palavras, mas não sabe ler o ambiente.

Sabe escrever, mas não sabe conversar.

Sabe opinar, mas não sabe ouvir.

Sabe exigir respeito, mas não sabe respeitar.

E, principalmente, não compreende uma regra elementar da convivência: a casa dos outros não é extensão da própria casa.

Há pessoas que chegam a uma festa como quem chega para fiscalizar território. Comem, bebem, sentam-se à mesa, conversam com sua tribo, divertem-se e, de repente, esquecem uma pequena palavra chamada educação.

Foi assim que, certa vez, uma simples referência à política, em meio a uma confraternização, recebeu uma resposta digna de um pequeno manual de autoritarismo doméstico:

Se começar a falar de política, eu saio da mesa, O MESMO QUE CALE A BOCA!

Que curioso!

Não querer falar de política é um direito.

Pedir para mudar de assunto é perfeitamente legítimo.

Levantar-se e sair também.

Mas mandar alguém calar a boca é outra coisa.

“Prefiro não falar sobre política” é limite.

“Se continuar, eu saio” é escolha.

“Cala a boca” é grosseria.

A diferença parece pequena, mas revela muito. Porque quem não quer ouvir pode simplesmente não ouvir. Quem não quer participar pode se retirar. O problema começa quando alguém transforma sua preferência pessoal em regra para todos.

Afinal, ninguém é obrigado a gostar de política.

Mas será que precisamos mandar alguém calar a boca para afirmar isso?

Não aprendemos que é possível discordar sem humilhar?

Não seria mais civilizado dizer: “Esse assunto me incomoda. Podemos conversar sobre outra coisa?”

Talvez.

Mas há pessoas que confundem convicção com arrogância, liberdade com imposição e limite com censura.

E aqui está o detalhe que parece escapar ao analfabeto político: a pessoa estava em uma festa que não era dela.

Recebeu convite.

Recebeu hospitalidade.

Sentou-se à mesa.

Participou da confraternização.

E, de repente, comportou-se como se o convite tivesse vindo acompanhado de uma procuração.

Como se tivesse recebido também o direito de determinar o que o anfitrião poderia ou não dizer.

É uma curiosa inversão de papéis: o convidado vira autoridade; o anfitrião vira subordinado; a hospitalidade vira obrigação; e a gratidão desaparece debaixo da mesa.

Há pessoas assim.

Não entram em uma casa. Ocupam um território.

Não participam da festa. Tomam posse dela.

Não dialogam. Sentenciam.

E depois confundem grosseria com personalidade.

Talvez precisem reaprender uma regra antiga: na casa dos outros, podemos não gostar de tudo. Só não precisamos ser grosseiros por causa disso.

A festa não precisa obedecer às nossas convicções.

A brincadeira não precisa passar pelo nosso tribunal moral.

O anfitrião não precisa pedir autorização para falar.

Podemos discordar. Podemos ficar quietos. Podemos mudar de assunto. Podemos até ir embora.

Mas existe uma diferença monumental entre sair da mesa porque algo nos incomoda e tentar calar a mesa inteira para não ouvir aquilo de que discordamos.

Isso não é liberdade. É intolerância.

O analfabeto político não é necessariamente aquele que nada entende de política. Às vezes conhece slogans, repete frases, identifica inimigos e sabe perfeitamente quem merece sua indignação.

Só não aprendeu a fazer uma pergunta simples e devastadora: “E se eu estiver errado?”

Essa pergunta exige humildade.

E humildade parece ser artigo raro.

O analfabeto político vive dentro da própria bolha. Ali, todos pensam igual, repetem as mesmas certezas e confirmam as mesmas verdades.

Quando alguém pensa diferente, a bolha se sente ameaçada.

Então vem a ironia.

O julgamento.

A grosseria.

O “cala a boca”.

Porque, quando não se consegue dialogar com o diferente, tenta-se silenciá-lo.

E é assim que uma frase de poucos segundos pode destruir uma memória de muitos anos.

Uma festa que deveria produzir alegria deixa um desconforto.

Um encontro que deveria aproximar cria distância.

Um gesto de acolhimento termina marcado por uma palavra atravessada.

Depois alguém pergunta: “Por que as pessoas estão se afastando?”

Talvez porque ninguém queira permanecer onde precisa medir cada palavra para não ser desrespeitado.

Ninguém é obrigado a concordar conosco.

Mas todos deveriam ser capazes de respeitar quem pensa diferente.

O sujeito pode até não falar de política.

Mas sua atitude é profundamente política.

Porque autoritarismo também é uma posição política, ainda que o autoritário não perceba.

É querer controlar.

É impor.

É acreditar que o outro precisa se calar para que nossa certeza permaneça intacta.

E talvez seja por isso que existam tantos analfabetos políticos entre nós: gente que fala de democracia e pratica autoritarismo; que fala de família e destrói relações; que fala de Deus e não consegue enxergar o próximo; que fala de respeito e manda os outros calarem a boca.

Gente que recebe carinho e devolve grosseria. Gente que come do prato servido com generosidade e depois cospe exatamente no prato que lhe alimentou.

Talvez seja hora de uma pequena revisão de consciência.

Antes de corrigir o outro, olhar para a própria trave.

Antes de fiscalizar a boca alheia, aprender a governar a própria língua.

Antes de exigir silêncio, aprender a escutar.

Antes de entrar na casa dos outros com certezas absolutas, lembrar: o convite não transfere a propriedade.

E talvez essa seja a grande ironia dos nossos tempos: há pessoas tão preocupadas em controlar o que os outros dizem que jamais percebem o que suas próprias palavras revelam sobre elas.

Porque um “cala a boca” pode durar dois segundos.

Mas há palavras que permanecem.

Ficam sentadas à mesa depois que todos vão embora.

Ficam no silêncio depois da festa.

Ficam na memória de quem ofereceu a casa, a comida, o afeto e a acolhida.

E é nesse silêncio que começa o verdadeiro julgamento: não o julgamento dos outros, mas aquele que fazemos de nós mesmos quando já não existe plateia.

Então fica uma pergunta para quem um dia se sentou à mesa alheia, desfrutou da hospitalidade de quem o recebeu e, diante de uma simples divergência, decidiu impor ao anfitrião o próprio limite: Você mandou o outro calar a boca porque precisava proteger a sua paz — ou porque não suportava ouvir uma voz que não obedecia à sua?

E outra, ainda mais incômoda: quando você disse “se começar a falar de política, eu saio da mesa”, percebeu que a mesa não era sua?

Porque sair é um direito.

Discordar é um direito.

Não ouvir é um direito.

Mas humilhar nunca foi direito de ninguém.

Talvez, depois de tanta preocupação com aquilo que os outros deveriam falar, pensar ou fazer, reste uma última pergunta: o que havia de tão ameaçador na voz do outro para que você precisasse mandá-la calar?

Talvez a resposta esteja justamente no silêncio.

Não naquele que você tentou impor.

Mas naquele que sobra quando a festa termina, a música acaba, os copos são recolhidos e cada um volta para sua casa.

É nesse silêncio que a consciência pergunta.

É nesse silêncio que a arrogância perde a voz.

É nesse silêncio que descobrimos se éramos realmente donos de nossas convicções — ou apenas prisioneiros delas.

Porque, no fim, a mesa era do anfitrião. A casa era do anfitrião. A festa era do anfitrião.

Mas a educação deveria ser de todos.

E talvez essa seja a única regra que jamais deveria precisar ser anunciada: quem não sabe respeitar a mesa que o acolheu talvez ainda não tenha aprendido a merecer o lugar que ocupa nela.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

7 DE SETEMBRO: A PÁTRIA QUE AINDA PRECISAMOS CONQUISTAR

Sete de Setembro.
O dia amanhece vestido de verde e amarelo. As bandeiras tremulam, os hinos ecoam, os desfiles percorrem as ruas e, por algumas horas, somos convidados a lembrar que pertencemos a uma mesma terra.
É bonito.
Mas uma pergunta insiste em atravessar a festa:
Que independência estamos celebrando?
Independência de quem? Para quem? E para quê?
Talvez seja preciso, neste Dia da Pátria, diminuir o volume dos discursos e aumentar o volume da consciência.
Porque o Brasil não cabe nos palanques.
Não cabe nas brigas de esquerda contra direita. Não cabe nas guerras das redes sociais. Não cabe nos escândalos de cada manhã, nas acusações de cada noite, nas fake news travestidas de verdade nem nas verdades convenientemente escondidas.
O Brasil é muito maior do que a politicagem que, tantas vezes, sequestra a nossa esperança.
Enquanto alguns discutem quem é o culpado, milhões de brasileiros continuam perguntando quem vai lhes dar uma oportunidade.
Enquanto uns disputam poder, outros disputam um prato de comida.
Enquanto alguns acumulam milhões, outros contam moedas para comprar o pão.
Enquanto alguns discutem ideologias, há crianças que ainda lutam contra a fome e a falta de uma escola capaz de lhes abrir as portas do futuro.
Este também é o Brasil.
E talvez seja justamente esse Brasil que precisamos enxergar neste 7 de Setembro.
Um Brasil que possui uma das maiores riquezas naturais do planeta.
Um Brasil de rios imensos, florestas majestosas, praias deslumbrantes, montanhas, campos férteis e uma natureza que parece ter sido desenhada pela mão de Deus.
Um Brasil de cidades que encantam, estradas que atravessam paisagens extraordinárias e lugares que fazem qualquer visitante compreender por que esta terra é tão admirada.
Mas há uma contradição dolorosa escondida atrás de tanta beleza.
Como pode uma terra tão rica conviver com tanta pobreza?
Como podemos produzir tanto alimento e ainda permitir que brasileiros passem fome?
Como podemos falar em desenvolvimento enquanto milhões não têm acesso a uma educação capaz de romper o círculo da pobreza?
Como podemos celebrar o futuro quando tantos jovens não encontram outra perspectiva senão a violência, o tráfico, a marginalidade ou a migração em busca de uma vida melhor?
O Brasil produz riqueza.
E muita riqueza.
O problema não é produzir.
O problema é quando a riqueza produzida por muitos termina concentrada nas mãos de poucos.
O lucro não é pecado. O capital não é inimigo. Empreender, produzir, investir, crescer e prosperar fazem parte da vida econômica de uma sociedade.
Mas há uma fronteira que não podemos ultrapassar:
quando o dinheiro vale mais do que a pessoa, a economia deixa de servir à vida.
Quando o lucro se torna absoluto, o ser humano vira instrumento.
Quando a riqueza não é acompanhada de responsabilidade social, a prosperidade de alguns pode se transformar na miséria de muitos.
E quando a desigualdade se torna insuportável, nasce o terreno fértil para a corrupção, para o populismo, para a manipulação, para a compra de consciências e para a velha politicagem que se alimenta justamente da pobreza que deveria combater.
E nós, brasileiros, continuamos brigando.
Brigamos por políticos como se fossem jogadores de futebol.
Defendemos partidos como se fossem religiões.
Compartilhamos notícias sem saber se são verdadeiras.
Acreditamos naquilo que confirma nossas convicções e rejeitamos aquilo que nos incomoda.
E, enquanto isso, a Pátria permanece esperando.
Esperando por educação.
Esperando por saúde.
Esperando por segurança.
Esperando por justiça.
Esperando por trabalho.
Esperando por dignidade.
Talvez o Brasil não precise de mais brasileiros apaixonados por políticos.
Precise, sim, de brasileiros apaixonados pelo Brasil.
Apaixonados pelo professor que ensina.
Pelo trabalhador que acorda antes do sol.
Pelo agricultor que coloca alimento na nossa mesa.
Pela criança que precisa de uma escola.
Pelo jovem que precisa de oportunidade.
Pelo idoso que merece respeito.
Pela família que luta para sobreviver.
Pela cidade que precisa ser cuidada.
Pela natureza que não pode continuar sendo destruída em nome da ganância.
Pelo cidadão que tem direito de viver sem medo.
Pátria não é apenas uma bandeira hasteada.
Pátria é uma criança alimentada.
Pátria é uma escola que funciona.
Pátria é um hospital que acolhe.
Pátria é uma estrada segura.
Pátria é uma família que pode viver em paz.
Pátria é um trabalhador que recebe salário digno.
Pátria é um jovem que consegue sonhar sem precisar abandonar sua terra.
Pátria é uma sociedade na qual ninguém seja considerado menos humano porque nasceu pobre.
Por isso, talvez o nosso maior gesto patriótico neste 7 de Setembro não seja apenas cantar o Hino Nacional.
Seja perguntar:
O que estou fazendo para construir o Brasil que desejo?
Porque é muito fácil amar a Pátria quando ela aparece nos desfiles.
Difícil é amá-la quando encontramos um menino pedindo comida na rua.
Difícil é amá-la quando vemos uma família morando em condições indignas.
Difícil é amá-la quando encontramos uma criança sem escola, um jovem sem esperança ou um idoso abandonado.
É aí que o patriotismo deixa de ser discurso e se transforma em compromisso.
O Brasil não é lixo.
Lixo é aquilo que fazemos da Pátria quando permitimos que a corrupção, a ganância, a mentira, a violência e a indiferença destruam aquilo que poderia ser uma das maiores nações do mundo.
Não precisamos destruir o Brasil.
Precisamos reconstruí-lo.
Não precisamos de uma Pátria perfeita.
Precisamos de uma Pátria mais justa.
Não precisamos de unanimidade.
Precisamos aprender a conviver com nossas diferenças sem transformar o outro em inimigo.
Somos uma nação mestiça, plural, construída pelo encontro de povos, culturas, histórias e sofrimentos.
Aqui se encontram indígenas, africanos, europeus, asiáticos e tantos outros povos.
O Brasil é mistura.
É diversidade.
É contradição.
É dor e esperança.
É pobreza e riqueza.
É desigualdade e solidariedade.
É lágrima e carnaval.
É sofrimento e festa.
É um povo que, mesmo quando quase não tem nada, muitas vezes ainda encontra forças para repartir o pouco que possui.
Talvez essa seja a nossa maior riqueza: o brasileiro.
Neste 7 de Setembro, portanto, não quero apenas um Brasil independente de Portugal.
Quero um Brasil independente da fome.
Independente do analfabetismo.
Independente da violência.
Independente da corrupção.
Independente da manipulação.
Independente da miséria.
Independente da desigualdade que transforma riqueza em privilégio e pobreza em destino.
Quero um Brasil onde o capital esteja a serviço do desenvolvimento humano.
Onde o lucro caminhe ao lado da responsabilidade.
Onde a política seja serviço, e não negócio.
Onde governar seja cuidar.
Onde o poder tenha limites.
Onde a verdade não seja fabricada para favorecer interesses.
Onde nenhuma criança seja condenada pela pobreza em que nasceu.
Onde nenhum jovem precise escolher entre a fome e o crime.
Onde nenhum brasileiro tenha vergonha de ser brasileiro.
Porque a independência que celebramos em 1822 foi política.
A independência que ainda precisamos conquistar é social.
E essa não será proclamada por um príncipe às margens de um riacho.
Será construída todos os dias.
Nas escolas.
Nas famílias.
Nas empresas.
Nas igrejas.
Nas comunidades.
Nas ruas.
Nas urnas.
E, sobretudo, dentro da consciência de cada brasileiro.
Que neste 7 de Setembro o verde e o amarelo não sejam propriedade de partidos, grupos ou ideologias.
Que sejam as cores de todos nós.
Que o Hino Nacional não seja apenas uma música que cantamos.
Que seja um compromisso que assumimos.
E que a nossa bandeira não seja apenas um pedaço de tecido tremulando ao vento.
Que ela seja um lembrete permanente de que esta terra é nossa responsabilidade.
Porque o Brasil não está pronto.
O Brasil está esperando por nós.
E a verdadeira independência começará no dia em que todos os brasileiros puderem olhar para esta imensa Pátria e dizer, sem medo e sem vergonha:
“Esta terra também é minha.
Esta riqueza também me pertence.
Esta Pátria também cuidou de mim.”
José A. Galiani