Nossa Senhora Aparecida deve estar um pouco cansada.
Não de carregar o Menino Jesus — isso ela faz há séculos.
Talvez esteja cansada de carregar também os nossos discursos.
Ultimamente, parece que descobriram uma nova modalidade de devoção mariana: a devoção eleitoral.
Funciona mais ou menos assim: pega-se Nossa Senhora, coloca-se a imagem no meio da disputa política, acrescenta-se uma informação — verdadeira, falsa, distorcida ou mal compreendida — e pronto.
Temos uma guerra santa.
De um lado, os defensores da fé.
Do outro, os inimigos da fé.
E, no meio, Nossa Senhora Aparecida, provavelmente perguntando:
“Mas alguém aí se lembrou de Jesus?”
A polêmica recente mostrou como é fácil transformar a religião em munição eleitoral.
É importante, porém, colocar as coisas no seu devido lugar.
Circulou a informação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. O próprio candidato negou. A GloboNews corrigiu a informação e pediu desculpas, e o TSE determinou a remoção de publicações que apresentassem como verdadeira essa associação. O projeto citado nas redes é de 2007, foi apresentado pelo então deputado Victório Galli e arquivado em 2008.
Até aqui, os fatos.
Mas há um detalhe que não deveria ser simplesmente jogado para debaixo do tapete.
Flávio Bolsonaro afirmou publicamente que, se eleito presidente, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.
Não é preciso demonizar a frase.
Também não é preciso santificá-la.
É preciso apenas perguntar:
O que significa transformar uma profissão de fé em ato de governo?
Porque Jesus Cristo não precisa de decreto presidencial.
E o Reino de Deus não se estabelece por decreto, medida provisória ou assinatura de chefe de Estado.
É justamente aqui que a conversa fica séria.
Uma frase religiosa pode ser perfeitamente legítima como manifestação pessoal de fé. Mas, quando pronunciada por alguém que disputa a Presidência da República, ela inevitavelmente entra no debate sobre Estado, democracia, pluralismo religioso e liberdade de consciência.
E talvez essa linguagem tenha servido de gatilho — ou, pelo menos, de combustível — para que a disputa eleitoral passasse também pelo território dos símbolos religiosos.
De repente, Jesus de um lado.
Maria do outro.
E nós, pobres pecadores, fazendo dos dois cabos eleitorais.
É uma situação quase surreal.
Porque a Igreja Católica, justamente no contexto das eleições de 2026, está dizendo outra coisa.
A CNBB não indica candidatos nem partidos. Em sua mensagem ao povo brasileiro, os bispos convidam os católicos a participar das eleições com consciência, liberdade e responsabilidade, colocando no centro a dignidade humana, o bem comum e o compromisso ético.
E a própria análise de conjuntura da CNBB chama atenção para um problema que parece ter sido feito sob medida para os nossos tempos: polarização, desconfiança, dificuldade de diálogo e incapacidade de conviver com quem pensa diferente. A mensagem é simples e profundamente democrática: uma sociedade democrática não é aquela em que todos pensam da mesma maneira, mas aquela em que pessoas diferentes conseguem compartilhar instituições, respeitar regras comuns e reconhecer a dignidade de quem pensa diferente.
É uma pena que isso não viralize tanto quanto uma briga.
Porque talvez fosse exatamente disso que precisássemos nas redes sociais.
Menos “quem é o verdadeiro cristão?”
Mais:
“Como estamos tratando o nosso irmão?”
Menos guerra santa.
Mais discernimento.
Menos fake news com imagem de santo.
Mais verdade.
Menos candidato transformado em messias.
Mais cidadania.
Menos uso político da fé.
Mais fé transformando a política em serviço.
A própria formação eleitoral promovida por organismos ligados à CNBB chama atenção para a necessidade de combater a desinformação, a compra de votos, a corrupção, o abuso do poder e também a manipulação da fé.
Ora, eis uma palavra que deveria ficar escrita na porta de toda igreja durante o período eleitoral:
MANIPULAÇÃO.
Porque é possível manipular a fé de muitos modos.
Pode-se manipular Jesus.
Pode-se manipular Maria.
Pode-se manipular a Bíblia.
Pode-se manipular o medo.
Pode-se manipular a esperança.
E pode-se até manipular o sentimento religioso de um povo simples que ama Nossa Senhora e quer apenas viver sua fé em paz.
Por isso, talvez seja necessário repetir:
Nossa Senhora Aparecida não é cabo eleitoral.
Não é patrimônio de partido.
Não é propriedade ideológica.
Não pertence à direita.
Não pertence à esquerda.
Não pertence a candidato algum.
Maria pertence ao Evangelho.
E o Evangelho não é propriedade privada de ninguém.
Nossa Senhora Aparecida não foi encontrada nas águas do Paraíba para ser cabo eleitoral.
Não apareceu para escolher partido.
Não pediu santinho.
Não gravou vídeo.
Não participou de comício.
E, até onde sabemos, nunca declarou voto.
Ela simplesmente apareceu.
Pequena.
Quebrada.
Negra.
Silenciosa.
E o povo reconheceu nela a presença materna.
Talvez justamente por isso incomode tanto quando tentamos transformá-la em propriedade ideológica.
Maria é grande demais para caber em partido.
O Evangelho é grande demais para caber em ideologia.
E Jesus é grande demais para caber na legenda de qualquer candidato.
O problema é que nós gostamos de diminuir aquilo que é sagrado até caber perfeitamente nas nossas opiniões.
Se o candidato que eu apoio fala de Nossa Senhora, eu digo:
“Homem de fé!”
Se o adversário fala, desconfio:
“Está usando a religião!”
Se alguém critica o meu candidato, digo que está atacando a Igreja.
Se alguém critica o candidato do outro, considero legítimo exercício da democracia.
É uma teologia bastante conveniente.
Temos até uma espécie de dogma da dupla medida:
quando favorece os meus, é fé;
quando favorece os outros, é manipulação.
E Nossa Senhora?
Continua em silêncio.
Talvez porque tenha aprendido, desde Caná, que não precisa disputar espaço com ninguém.
Ela simplesmente diz:
“Fazei tudo o que ele vos disser.”
E Jesus não disse:
“Transformai o adversário político em inimigo.”
Não disse:
“Compartilhai qualquer notícia que confirme aquilo que vocês já pensam.”
Não disse:
“Defendei minha Mãe atacando o irmão.”
Disse:
“Amai-vos.”
E isso é muito mais difícil.
É fácil defender Nossa Senhora numa postagem.
Difícil é defender a verdade quando ela desmente aquilo que gostaríamos que fosse verdade.
É fácil publicar uma imagem de Maria.
Difícil é tratar com respeito alguém que vota diferente de nós.
É fácil dizer “Salve Rainha”.
Difícil é não transformar o outro em demônio porque ele pensa diferente.
É fácil rezar uma Ave-Maria.
Difícil é viver como irmão.
E aqui está a ironia de tudo isso:
estamos brigando para decidir quem defende Nossa Senhora, enquanto ninguém parece perguntar se Nossa Senhora aprovaria o modo como estamos brigando.
Talvez a grande heresia do nosso tempo não seja deixar de falar de Deus.
Talvez seja falar tanto de Deus que já não conseguimos ouvir o que Deus está dizendo.
E, enquanto discutimos quem é mais católico, a fome continua.
Enquanto discutimos quem defende mais Nossa Senhora, existem pessoas sem moradia.
Enquanto brigamos por causa de políticos, famílias continuam divididas.
Enquanto disputamos quem tem a fé verdadeira, há gente abandonada precisando de uma palavra, de um prato de comida, de uma visita, de uma mão estendida.
E Maria?
Maria continua apontando para Jesus.
Como sempre.
Talvez esteja na hora de nós também olharmos para onde ela aponta.
Porque Nossa Senhora Aparecida não precisa de defensores que espalhem ódio.
Não precisa de devotos que espalhem mentira.
Não precisa de cristãos que transformem política em religião e religião em arma política.
Ela precisa de filhos que levem a sério o Evangelho.
E talvez seja justamente por isso que a pequena imagem negra encontrada nas águas continue sendo tão poderosa.
Porque ela não grita.
Não acusa.
Não faz campanha.
Não divide.
Não precisa provar nada.
Ela simplesmente aponta para Jesus.
Nós é que, às vezes, fazemos questão de colocar o dedo na frente dela.
E, olhando para nossas próprias mãos, começamos a discutir:
“Meu candidato é mais cristão que o seu.”
Enquanto Maria, lá do alto do altar, talvez esteja pensando:
“Meus filhos, eu não trouxe vocês até aqui para isso.”
Salve Nossa Senhora Aparecida.
E que ela nos livre de uma coisa ainda mais perigosa do que perder uma eleição:
perder o Evangelho tentando vencê-la.
J. A. Galiani