Professor Galiani
BLOG DO PROFESSOR GALIANI Filosofia, teologia, pedagogia, e tantas "ias" que fazem o dia-a-dia.... "Aflictis lentae, celeres gaudentibus horae"
terça-feira, 30 de dezembro de 2025
Saudade que Chama pelo Nome
Entre fogos, escombros e consciência: um Ano Novo à prova de humanidade
domingo, 28 de dezembro de 2025
Veneno doméstico
quarta-feira, 11 de junho de 2025
UM TRIBUTO A FERNANDO PAGLIARO
Em 10 de junho Fernando viveu sua Páscoa definitiva, entrando na plenitude da vida eterna com Deus.
Uma alma pura, marcada por uma inocência que se alia a um pensamento crítico diante da realidade social e eclesial. Casado, pai de duas filhas, profissional competente e amigo leal, Fernando tinha habilidades únicas de relacionamento. Sempre de bem com todos, acolhedor e ao mesmo tempo irreverente às posturas dogmáticas que muitas vezes limitam a liberdade de buscar a verdade.
Desde jovem, Fernando foi um questionador das estruturas sociais, políticas, econômicas e religiosas. Não tolerava injustiças, não se calava diante da intolerância, e não se deixava seduzir pelo poder do ter. Sua força vinha do gesto humilde de Jesus no lava-pés, que ele via como o verdadeiro caminho de liderança e serviço.
Na comunidade, era
sempre disposto a participar, buscando aprofundar sua fé, especialmente na
Eucaristia, que para ele era o alimento que dá vida ao mundo, o pão vivo
descido do céu, fonte de esperança e renovação.
Fernando tinha uma
relação especial com a Eucaristia, que alimentava sua alma e fortalecia sua
luta por um mundo mais justo, humano e fraterno. Sua visão de Igreja era de uma
comunidade pé no chão, cuidadora dos pobres e marginalizados, um espaço de acolhimento
verdadeiro.
Sua irreverência às
posturas dogmáticas muitas vezes o colocava em diálogo direto com alguns
padres, sempre buscando entender e viver a fé de forma autêntica.
Amado por todos,
Fernando era aquele que sempre sorria, que estabelecia amizades com facilidade,
que buscava compreender o desconhecido, o esquecido, o desamparado. Muitas
conversas tivemos, especialmente sobre Maria, a divindade de Jesus e sua
humanidade. Mas o que mais o intrigava era a Eucaristia.
Lembro-me de quando
pediu meu TCC sobre o Sacramento da Eucaristia: sacramento da Partilha. Ele
leu, refletiu, questionou, e juntos chegamos à grande verdade do Evangelho: o
pão vivo descido do céu é para dar vida ao mundo, é o corpo de Cristo que se
partilha para que todos tenham vida em abundância. Para Fernando, essa verdade
era clara: a Eucaristia é para os pecadores, para aqueles que buscam a Deus,
para todos nós, porque Jesus veio justamente para isso.
Perdemos um irmão, um
amigo, um catequista dedicado, um Ministro Extraordinário da Eucaristia. Mas,
certamente, ganhamos um predecessor no céu, que prepara um lugar para nós onde
não há dogmas, nem normas que aprisionam a liberdade de buscar a Deus.
Lá, não há "padres
mandando" e leigos tendo que deixar sua comunidade para realizar sua missão
em outra, nem proibições para os pecadores. Fernando viveu sua fé na Eucaristia
na simplicidade das catacumbas, na esperança de um mundo melhor, na busca
constante pela verdade.
Sua presença entre nós
foi um testemunho de que a busca pela verdade e pelo amor é o que realmente
importa. Sua alma, certamente, é uma das mais puras que tivemos.
Gratidão, meu irmão,
por tudo que nos ensinaste, por teu exemplo de fé, coragem e amor. Que agora,
na eternidade, tu possas celebrar a Páscoa definitiva, na alegria do Senhor.
J. A. Galiani
segunda-feira, 9 de junho de 2025
Irmã Querubina, a Rocha da Esperança!
Em tempos em que a esperança parece ser artigo de luxo, há pessoas que a carregam como se fosse bagagem leve, essencial, diária. Assim era Irmã Querubina, Filha de São José do Caburlotto, uma dessas almas raras que caminham pela terra deixando rastros de luz onde só havia lama.

Movida por uma educação que brotava do coração e apenas do coração, ela arrebanhava as crianças como quem junta flores num jardim escondido. Chamava cada uma pelo nome. Um nome, um mundo. Tinha a alma grande o suficiente para acolher todos esses mundos. E era isso que fazia: acolhia, incentivava, acreditava.
Seu vínculo com a comunidade era como se ela tivesse sido semeada ali. Sabia estar em comunhão com as pastorais, com o Pároco, com cada fiel que encontrava no caminho. Era uma presença que gerava ação, uma simbiose de fé e serviço, que dava frutos na evangelização e no cuidado com os mais vulneráveis.
Nas celebrações da novena de São José, ela estava lá como presença firme, serena, viva. A piedade fervorosa daquelas noites ganhava brilho com a doçura de seu sorriso e com a leveza com que conduzia tudo à glória de Deus. Não havia nela nada de grandioso no sentido mundano, mas tudo de sublime no sentido do Reino.
E era impossível não se contagiar com seu humor sereno, com sua alegria que não ignorava a dor, mas a transformava. Como se dissesse: “Sim, dói, mas vamos em frente. Deus está aqui.”
Hoje, ao lembrar de Irmã Querubina, não posso evitar a imagem de alguém que andou de mãos dadas com o Ressuscitado alguém que olhava a lama e via possibilidade, que enfrentava enchentes e via oportunidade de recomeço.
Ela não só testemunhou a fé. Ela foi fé em forma de gente. Uma verdadeira Filha de São José, aquele carpinteiro silencioso e justo, que constrói mesmo no escuro, que protege mesmo no anonimato.
Fica aqui meu tributo, não como encerramento, mas como eco. Porque Irmã Querubina continua no nome que ela nunca esquecia de chamar, nas mãos que ela segurava, nas lições que ela plantou em terra molhada.
Obrigada, Irmã Querubina.
Sua vida foi Evangelho vivido e jamais se perderá.
Galiani. J. A.
quarta-feira, 14 de maio de 2025
75 anos: chamas que não se apagam!
sábado, 10 de maio de 2025
Crônica: O Silêncio Que Chama
segunda-feira, 28 de abril de 2025
Três Sacramentos, Uma Só Missão
Hoje, enquanto o calendário me sussurra memórias antigas, celebro dois aniversários que se entrelaçam na alma: há 62 anos, fui marcado pelo Batismo, e há 36, recebi o Sacramento da Ordem. A vida, em sua sabedoria escondida, acrescentou ainda outro dom: o Matrimônio, que abracei há 29 anos depois da dispensa do celibato, sem jamais abandonar a essência da vocação primeira — ser cristão.
Cada Sacramento desenhou em mim uma história de amor com Deus e com a Igreja Católica Apostólica Romana, onde o Batismo "nos faz renascer da água e do Espírito" (cf. Jo 3,5) e nos incorpora à comunhão dos santos, colocando em nossos lábios o primeiro "Amém" de uma jornada eterna.
O Sacramento da Ordem, por sua vez, gravou no coração uma marca indelével. Como lembra São Paulo a Timóteo: "Reaviva o dom de Deus que recebeste pela imposição das minhas mãos" (2Tm 1,6). O ministério, mais do que funções ou títulos, é serviço; é tornar visível o invisível amor do Pastor Eterno. Vivi, servi, preguei e abençoei — não como quem domina, mas como quem lava os pés.
Quando, pela graça e pela necessidade da vida, recebi a dispensa do celibato e me entreguei ao Matrimônio, a promessa batismal e sacerdotal não se apagou. Antes, encontrou novo terreno para florescer. Como diz o Gênesis: "Não é bom que o homem esteja só" (Gn 2,18), e no sacramento do amor conjugal descobri um altar diferente, onde Cristo também se faz presente: na partilha dos dias, nas lutas, nas esperanças que a vida comum cultiva.
A tradição da Igreja ensina que os Sacramentos são sinais eficazes da graça (Catecismo da Igreja Católica, 1131). Mas hoje compreendo: todos eles convergem para algo mais antigo e mais profundo do que a própria história dos homens — a missão de ser cristão. Porque, antes de sermos padres, esposos ou batizados, somos discípulos. E ser discípulo é seguir Aquele que disse: "Ide e fazei discípulos de todas as nações" (Mt 28,19).
Batismo, Ordem, Matrimônio: três caminhos distintos, três luzes que iluminam o mesmo horizonte. O essencial não é a veste que se usa, nem o rito que se celebra. O essencial é ser de Cristo. É viver Nele, por Ele e para Ele.
Hoje, ao recordar minhas datas sagradas, reconheço com gratidão que a grande Missão continua — e ela é simples, como o Evangelho: amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmo (cf. Mt 22,37-39).
O tempo passa, os ministérios podem mudar, as circunstâncias se transformam, mas o chamado de Jesus ecoa firme: "Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós" (Jo 15,4).
E assim sigo, na alegria de ser, acima de tudo, cristão.
sábado, 22 de fevereiro de 2025
Tributo ao PADRE FRANCISCO COSTETTI NETO, SAC
Um sacerdote é sempre a presença de Deus para as pessoas. Não se trata de divinizar o padre, mas de reconhecer que ele foi chamado por Deus para servir à Igreja, especialmente entre aqueles que mais necessitam.
Padre Francisco exerceu seu ministério em diversas comunidades, mas foi na Paróquia Santo Antônio de Lisboa, da Arquidiocese de São Paulo – então Setor Carrão-Formosa, hoje Decanato São Lucas, da Região Episcopal Belém – que tive o privilégio de me tornar "um necessitado" e por ele ser acolhido. Enquanto alguns confrades me fecharam as portas – e eu respeitei suas razões – ele me recebeu, apoiou-me e, inclusive, ajudou-me financeiramente. Em momentos de descontração, na padaria Suil, compartilhávamos experiências de vida entre uma conversa e uma cerveja. Sempre misericordioso e com a cabeça erguida, dentro de seus próprios limites e fragilidades, orientava-me, sugeria soluções e apontava caminhos para a reconstrução da minha história. Era mais que um padre; era um homem humano, consciente da nobre missão que assumira na Igreja, mas liberto de chavões e rótulos preconceituosos que, tantas vezes, causam divisões e afastamentos.
Suas celebrações eram dinâmicas e promoviam a participação ativa dos leigos em sua paróquia. Em um período de transição entre uma liturgia ortodoxa e novas possibilidades rituais que aproximavam a assembleia de Deus, sua homilia cativava e evangelizava. Ele proporcionava uma verdadeira catequese, tornando cada missa um momento de aprendizado e encontro com a fé.
Naquele tempo, em que eu reiniciava minha trajetória social, religiosa e profissional, foi ele, entre tantos padres amigos, quem me acolheu. O simples fato de me dizer: "Fiquei feliz que você escolheu participar da Santo Antônio" soou como o abraço do Pai ao filho pródigo. Quanta humanidade!
Na Paróquia Santo Antônio, tive a oportunidade de palestrar para pais e padrinhos, em encontros de casais e de jovens do Grupo Fé. Quando era a vez do padre falar sobre os Sacramentos no curso de noivos, ele me convidava a substituí-lo. Era um privilégio, pois, tradicionalmente, alguns temas eram exclusivos do sacerdote. Contudo, com espírito conciliar, ele promovia uma comunidade mais participativa, afastando a ideia de que tudo deveria ser centralizado no padre.
Sempre modesto no vestir, seus paramentos litúrgicos dispensavam pompa. Muitas pessoas pobres e em situação de vulnerabilidade encontraram nele apoio, refúgio, conforto e consolo. Confessar-se com ele era uma verdadeira graça: um reencontro com Deus e com a comunidade. Sua capacidade de se anular para que o pecador renascesse era impressionante. Obrigado, meu irmão, por tantas vezes ter ouvido meus pecados e me oportunizado o perdão divino. Foram tempos difíceis, mas, como sempre dizia, "a graça de Deus é superabundante".
Quando soube do meu relacionamento com aquela que hoje é minha esposa, nos abraçou e desejou a bênção de Deus. Alguns confrades insinuavam que Ana estava grávida. Ele, com sua sabedoria isenta de julgamentos – característica marcante de sua personalidade – a procurou para esclarecer os rumores. Assim recorda Ana: "Lembro dele me chamando para conversar. 'Aninha, você está grávida?' 'Não!', respondi. 'Eu acredito em você! Seja vitoriosa!'." Mais do que desejar nossa vitória, ele nos ajudou a construí-la.
Nem todos os confrades o conheciam, o que é inadmissível, pois, em uma família, todos se reconhecem. No entanto, na vida religiosa, assim como na história bíblica de Caim e Abel, também há incompreensão e críticas. Mesmo assim, Padre Francisco mantinha sua espiritualidade e visão pastoral sempre alinhadas à de Jesus: "Vem para o meio" (Mc 3, 3-4).
Padre Francisco sempre veio ao nosso encontro. Certa vez, passando rapidamente por Martinópolis, a caminho de São Paulo, ele celebrava missa no hospital. Da porta da sacristia, acenamos e lhe enviamos um beijo. Ele, que já estava sentado para a Liturgia da Palavra, levantou-se e veio ao nosso encontro. Foi um dos abraços mais significativos que recebemos, um verdadeiro alimento para a alma, que nos fortaleceu para seguirmos nossa jornada.
Padre Francisco, nós te amamos e sempre amaremos. Prepara um lugar para nós junto de Deus, e, enquanto aqui estivermos, queremos ser e agir conforme nos ensinaste. Gratidão, meu irmão!
Pres. Prudente, SP - 22/02/2025
José A. Galiani
terça-feira, 18 de fevereiro de 2025
O FINGIMENTO
O fingimento da bondade é a mais perigosa das maldades.
Recentemente, li a frase que dá título a esta pequena crônica. Por escolha, sou um bom ouvinte de situações das mais diversas, muitas que envolvem mãe e filha, as quais, muitas vezes, carregam décadas de desencontros. Por isso, ouso, com este texto, contribuir para a reflexão e a superação da competição que, não raramente, ocorre entre mães e filhas.
Desde pequena, Clara percebia que sua relação com a mãe era diferente da dos seus amigos. Enquanto outras mães elogiavam e incentivavam, a dela parecia sempre medir forças. Quando alguém dizia: “Que menina linda!”, a mãe logo completava: “Puxou a mim, claro.” Se Clara aparecia com um vestido novo, a mãe vestia um mais chamativo. Se arrumava o cabelo de um jeito diferente, a mãe corria para o espelho e fazia igual – ou melhor.
O problema era que Clara não queria competir. Queria carinho, queria apoio, queria que sua mãe se orgulhasse dela sem precisar se sentir ameaçada. Mas bastava que ela recebesse um olhar a mais, um elogio sincero, para ver os olhos da mãe se tornarem duros e frios. “Você se acha especial demais, não é?”, dizia, sempre com um sorriso enviesado, carregado de algo que Clara não sabia nomear na infância, mas que, depois, entendeu ser inveja.
Namorar? Nem pensar. A mãe encontrava defeitos em qualquer rapaz que se aproximasse. “Ele não está à sua altura”, dizia, mas o tom não era de proteção, e sim de desdém. E, se por acaso alguém lhe dirigia um olhar de interesse, a mãe rapidamente se colocava entre os dois, como se quisesse absorver toda a atenção para si.
As conquistas de Clara também eram recebidas com desdém. “Conseguiu aquele emprego? Espero que não ache que isso significa alguma coisa, porque no meu tempo era muito mais difícil.” Tudo que ela fazia era diminuído, rebaixado, como se o sucesso da filha representasse uma ameaça pessoal.
Levaram anos para Clara entender que sua mãe não a via como filha, mas como rival. Que por trás dos conselhos severos e das críticas constantes, havia um medo silencioso. MÃE precisa SER MÃE, NÃO TEM A NECESSIDADE DE FINGIR QUE AMA A FILHA!!!
Uma relação de competição entre mãe e filha pode gerar ressentimentos e desgastes emocionais, mas há maneiras de transformar essa dinâmica em algo mais saudável. Aqui estão alguns argumentos e estratégias para ajudá-las a superar esse conflito:
1. Reconhecimento da Individualidade
Cada uma tem sua própria trajetória, talentos e desafios. Comparações são injustas porque cada pessoa tem um conjunto único de experiências e habilidades. Em vez de competir, é essencial reconhecer e valorizar as conquistas individuais.
2. Mudança de Perspectiva: De Rivais para Aliadas
Mãe e filha não precisam competir; podem se apoiar mutuamente. Quando uma cresce e se desenvolve, isso pode ser motivo de orgulho e não de ameaça. Apoiar-se significa crescer juntas, não em oposição.
3. Fortalecimento da Comunicação
Muitas rivalidades surgem por falta de diálogo aberto e honesto. Expressar sentimentos sem medo de julgamento pode evitar mal-entendidos e aliviar tensões. Usar frases como “eu sinto que...” ajuda a evitar tom acusatório.
4. Reconhecimento e Cura de Feridas do Passado
Conflitos antigos podem alimentar a competição. Trabalhar o perdão e compreender que ambas erram e acertam pode ajudar a construir uma relação mais equilibrada. Terapia familiar pode ser um bom caminho se as mágoas forem profundas.
5. Celebrar Conquistas em Conjunto
Ao invés de enxergar o sucesso da outra como uma derrota pessoal, aprender a comemorar as vitórias mútuas fortalece o vínculo. Pequenos gestos de reconhecimento podem mudar a dinâmica da relação.
6. Estabelecer Limites Saudáveis
Cada uma deve ter espaço para viver sua vida sem interferências excessivas. Respeitar as escolhas da outra é fundamental para evitar comparações desnecessárias e ressentimentos.
7. Trabalhar a Autoestima e a Segurança Emocional
Muitas competições vêm de inseguranças individuais. Trabalhar a autoconfiança pode reduzir a necessidade de validação externa e evitar rivalidades desnecessárias.
Se mãe e filha conseguirem substituir a competição pela parceria, podem transformar a relação em algo muito mais forte e significativo.
José A. Galiani (Pedagogo, Teólogo, Filósofo)
Das 12 horas diárias de acompanhante de enfermo na Santa Casa de Pindamonhangaba - janeiro de 2025.





