terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Saudade que Chama pelo Nome

Era noite.
Trinta de dezembro de dois mil e vinte.
O ano já cansado se despedia,
quando a notícia chegou sem pedir licença.
Padre Pio havia partido.
Não houve barulho, não houve anúncio solene.
Houve silêncio.
E o silêncio doeu mais do que qualquer palavra.
Em Camacan, na Bahia,
a noite parecia mais escura.
Talvez porque ele sempre foi assim:
discreto, recolhido,
presença firme sem precisar se impor.
Até na morte nos ensinou
que a santidade caminha de mansinho,
sem aplausos, sem luzes.
Foi difícil acreditar.
Difícil aceitar.
Difícil compreender como alguém tão presente
podia, de repente, fazer tanta falta.
A ausência de Pio não era apenas física;
era o vazio da escuta atenta,
da palavra que confortava,
do irmão que caminhava junto.
Os corações se encontraram no silêncio.
Rezamos.
Escrevemos.
Compartilhamos lembranças como quem acende velas
para espantar a escuridão.
Ficou atravessado no peito
o abraço que não demos,
o “Feliz Natal” dito tarde demais,
o “Ano Novo” que ele celebrou já no céu.
Na missa do sétimo dia,
entre orações e lágrimas contidas,
veio uma certeza mansa:
a saudade não nascia do vazio,
mas do amor vivido.
Era preciso guardar as memórias,
partilhar as histórias,
manter viva a presença
naquilo que ele semeou em nós.
Cada lembrança traz Pio de volta.
No jeito simples de servir,
na fé sem espetáculo,
na coerência silenciosa
de quem fez do Evangelho um caminho diário.
Seu testemunho continua falando,
não em discursos,
mas no exemplo que permanece.
Pio não foi apenas um padre.
Foi amigo.
Foi irmão.
Foi sinal de que a vocação
é uma vida gasta por amor.
Ele nos provoca ainda hoje
a viver o batismo com verdade,
a servir sem esperar reconhecimento,
a amar a Igreja como quem ama a própria casa.
Entre um homem e um santo,
existe uma sintonia que não se explica,
apenas se sente.
E é nessa sintonia
que a saudade deixa de ser só dor
e se transforma em compromisso.
Padre Pio partiu,
mas não foi embora.
Permanece na memória,
na fé que nos sustenta,
e nesse laço invisível e fraterno
que nem a morte conseguiu desfazer.
J. A. Galiani

Em breve lançamento da 2a. Edição da Antologia que homenageia o Padre Pio.

Entre fogos, escombros e consciência: um Ano Novo à prova de humanidade


O Ano muda no calendário. Os fogos riscam o céu, os abraços se repetem, os votos de “feliz ano novo” se multiplicam com facilidade. Mas basta o silêncio do dia seguinte para que a realidade volte a falar — e fale alto. Ela se manifesta no lixo espalhado pelas ruas das cidades, pelos campos abandonados, pelos mares sufocados e pelos rios transformados em esgoto. Um lixo que não nasce apenas da falta de educação ambiental, mas também da irresponsabilidade política, da omissão e da corrupção de muitos que, eleitos para cuidar do bem comum, administram o descaso e normalizam a sujeira — física, social e moral.
Esse lixo tem rosto, discurso e cargo. Está nas políticas públicas que não chegam, nos projetos engavetados, nos recursos desviados, nas cidades entregues ao abandono. É o lixo da negligência institucional que ensina, pelo exemplo, que tudo pode ser usado e jogado fora — inclusive a dignidade humana.
A realidade continua a gritar. Grita com o sangue derramado nos homicídios, nos latrocínios e nas múltiplas formas de violência que se tornaram rotina e estatística. Grita com os conflitos entre povos, com as guerras que insistem em provar que a humanidade, tantas vezes, desaprendeu a ser humana. Mas se há uma guerra que precisa ser travada com urgência, ela não é contra povos nem nações, e sim contra a fome que mata em silêncio, contra o desemprego que rouba a dignidade, contra a falta de moradia que empurra pessoas para fora da própria humanidade. Essa deveria ser a grande batalha comum, capaz de unir governos e sociedades, pois nenhuma bomba destrói mais do que um prato vazio, nenhuma arma fere tanto quanto a indiferença.
Há ainda uma miséria menos visível, mas igualmente devastadora. Ela habita as redes sociais, esse grande palco onde mentiras se sustentam sobre mentiras, onde a aparência define o valor e o poder de compra tenta substituir a essência. Pessoas mostram o que não são, defendem o que não vivem e se perdem em comparações vazias. Também aí, muitos políticos se aproveitam do ambiente tóxico, espalhando desinformação, manipulando medos e transformando a mentira em método de governo.
Por trás das telas e dos discursos, existem pessoas feridas. Homens e mulheres carregando frustrações antigas, decepções acumuladas, histórias marcadas por perdas e fracassos. Crianças, jovens e idosos sem rumo, sem direção, cujo existir parece reduzido à busca incessante pelo ter e pelo prazer, como se neles estivesse a felicidade plena. E assim, a cada dia vivido, o ser humano vai perdendo algo essencial: a HUMANIDADE que lhe é própria.
Diante desse cenário, é inevitável perguntar: ainda faz sentido celebrar a passagem do Ano? Ainda é honesto desejar “feliz ano novo” quando o mundo permanece sujo, violento e marcado pela mentira? Talvez a resposta não esteja em negar a miséria, mas em encará-la com lucidez e coragem. Reconhecer que chegamos a um limite perigoso — ambiental, social, político e espiritual —, mas não definitivo.
É preciso acreditar que, em algum momento, homens, mulheres, crianças, jovens e idosos possam ir se tornando verdadeiramente humanos. Que a Casa Comum volte a ser cuidada e não explorada; que o lixo — material, moral e político — seja removido da vida pública; que a violência seja extinta; que as mentiras nascidas no coração humano e amplificadas pelas redes encontrem seu fim.
Para isso, não bastam slogans, promessas eleitorais nem rituais de virada de Ano. É preciso renovar a ESPERANÇA. Uma esperança ativa, crítica e comprometida, que cobra, participa e transforma. Deixar a Luz do Céu entrar no coração e na vida, permitindo que ela dissipe a escuridão que alimenta o narcisismo, a corrupção e a indiferença.
Se o Ano Novo começar assim — menos fogos e mais consciência, menos promessas vazias e mais verdade, menos aparência e mais compromisso — talvez possamos, enfim, desejar uns aos outros, sem cinismo, que seja um Ano verdadeiramente novo. Não um Ano iniciado por superstições ingênuas, como a crença de começar “com o pé direito”, como se gestos mágicos pudessem substituir escolhas éticas. A sociedade não precisa de um pé só para seguir adiante; precisa começar com os dois pés firmes no chão da realidade, sustentados pela justiça, pela solidariedade, pela verdade e pela esperança ativa. Só assim poderemos caminhar, não tropeçando em ilusões, mas avançando juntos na reconstrução do humano que somos chamados a ser.

J. A. Galiani 

domingo, 28 de dezembro de 2025

Veneno doméstico

Havia uma serpente que não vivia no mato fechado. Preferia o quintal da casa, o chão varrido, o lugar onde todos andavam descalços. Não se mostrava perigosa. Pelo contrário: ficava enroscada ao sol, imóvel, quase decorativa. Quem passava pensava: “Ela não faz mal”. E era justamente aí que morava o risco.
Quando atacava, não era por fome imediata. Era por controle do território. O bote vinha rápido, preciso, e depois a serpente se recolhia, como se nada tivesse acontecido. Se alguém gritava, ela se escondia. Se alguém morria, ela seguia viva. E ainda parecia ofendida quando apontavam o estrago.
Entre humanos, há quem aprenda esse mesmo método.
São pessoas que se apresentam como frágeis. Sempre cansadas, sempre sobrecarregadas, sempre incompreendidas. Se algo dá errado, foi porque deram demais. Se alguém se afasta, é porque foram ingratas. Nunca assumem o bote; apenas exibem a ferida que dizem ter recebido. O veneno, nessas mãos, vem disfarçado de lágrima.
O ataque raramente é direto. Vem em forma de frase solta:
“Depois de tudo o que fiz…”
“Não esperava isso de você…”
“Eu jamais faria isso com quem amo…”
É um silogismo silencioso e cruel:
Quem ama sofre.
Eu sofro.
Logo, quem me causa dor é culpado.
Com essa lógica, a palavra fere, a atitude humilha, o gesto diminui. Mas quem sofre nunca é o outro — é sempre quem fala. O outro apenas reage, adoece, se cala, se afasta. E quando isso acontece, a serpente humana se recolhe no papel que mais conhece: o de vítima abandonada.
Não há gratidão pelo que foi recebido, apenas uma contabilidade eterna do que “foi dado”. Tudo vira moeda. Tudo vira dívida. O amor não liberta; cobra juros. O cuidado não acolhe; vigia. E quem tenta respirar fora desse círculo logo é acusado de frieza, ingratidão, desamor.
A cobra real não finge ser outra coisa. Já essa serpente de gente veste máscaras conforme a ocasião. Na frente de uns, é doçura. Na frente de outros, sacrifício. No íntimo, necessidade de domínio. Alimenta-se não do corpo da presa, mas da culpa que consegue provocar. E com isso se mantém viva, firme, incontestável.
O mais perverso é que o veneno nunca parece veneno. Parece conselho. Parece zelo. Parece preocupação. Só depois, quando a alegria vai murchando e a paz some da casa, é que alguém percebe que foi mordido — e que a ferida não sangra por fora.
A serpente segue no quintal. O humano também. Ambos sobrevivem. Mas deixam atrás de si um rastro invisível de relações quebradas e corações cansados. E há dores que não matam o corpo, mas ensinam, cedo demais, que nem toda presença é abrigo.
O ano termina. As páginas do calendário se fecham, os ciclos se cumprem, o tempo insiste em seguir adiante. Mas nem tudo termina com ele. A serpente continua no quintal, silenciosa, no mesmo lugar. E a gente-serpente também permanece, repetindo gestos, palavras e venenos antigos. Não muda com a virada do ano, não se converte com as ausências que ajudou a criar. Ainda assim, há quem permaneça de pé. Há quem, mesmo ferido, não se deixe transformar em veneno. Há quem enfrente a serpente — e a gente-serpente — sem perder a esperança teimosa de que um dia o quintal será outro, o caminho mais seguro, e que até o veneno, enfim, perderá sua força diante da verdade, do tempo e da vida que insiste em florescer.

Pindamonhangaba, 28 dezembro de 2025.

J. A. Galiani 

quarta-feira, 11 de junho de 2025

UM TRIBUTO A FERNANDO PAGLIARO

 Em 10 de junho Fernando viveu sua Páscoa definitiva, entrando na plenitude da vida eterna com Deus.

Uma alma pura, marcada por uma inocência que se alia a um pensamento crítico diante da realidade social e eclesial. Casado, pai de duas filhas, profissional competente e amigo leal, Fernando tinha habilidades únicas de relacionamento. Sempre de bem com todos, acolhedor e ao mesmo tempo irreverente às posturas dogmáticas que muitas vezes limitam a liberdade de buscar a verdade.


Desde jovem, Fernando foi um questionador das estruturas sociais, políticas, econômicas e religiosas. Não tolerava injustiças, não se calava diante da intolerância, e não se deixava seduzir pelo poder do ter. Sua força vinha do gesto humilde de Jesus no lava-pés, que ele via como o verdadeiro caminho de liderança e serviço.

Na comunidade, era sempre disposto a participar, buscando aprofundar sua fé, especialmente na Eucaristia, que para ele era o alimento que dá vida ao mundo, o pão vivo descido do céu, fonte de esperança e renovação.

Fernando tinha uma relação especial com a Eucaristia, que alimentava sua alma e fortalecia sua luta por um mundo mais justo, humano e fraterno. Sua visão de Igreja era de uma comunidade pé no chão, cuidadora dos pobres e marginalizados, um espaço de acolhimento verdadeiro.

Sua irreverência às posturas dogmáticas muitas vezes o colocava em diálogo direto com alguns padres, sempre buscando entender e viver a fé de forma autêntica.

Amado por todos, Fernando era aquele que sempre sorria, que estabelecia amizades com facilidade, que buscava compreender o desconhecido, o esquecido, o desamparado. Muitas conversas tivemos, especialmente sobre Maria, a divindade de Jesus e sua humanidade. Mas o que mais o intrigava era a Eucaristia.

Lembro-me de quando pediu meu TCC sobre o Sacramento da Eucaristia: sacramento da Partilha. Ele leu, refletiu, questionou, e juntos chegamos à grande verdade do Evangelho: o pão vivo descido do céu é para dar vida ao mundo, é o corpo de Cristo que se partilha para que todos tenham vida em abundância. Para Fernando, essa verdade era clara: a Eucaristia é para os pecadores, para aqueles que buscam a Deus, para todos nós, porque Jesus veio justamente para isso.

Perdemos um irmão, um amigo, um catequista dedicado, um Ministro Extraordinário da Eucaristia. Mas, certamente, ganhamos um predecessor no céu, que prepara um lugar para nós onde não há dogmas, nem normas que aprisionam a liberdade de buscar a Deus.

Lá, não há "padres mandando" e leigos tendo que deixar sua comunidade para realizar sua missão em outra, nem proibições para os pecadores. Fernando viveu sua fé na Eucaristia na simplicidade das catacumbas, na esperança de um mundo melhor, na busca constante pela verdade.

Sua presença entre nós foi um testemunho de que a busca pela verdade e pelo amor é o que realmente importa. Sua alma, certamente, é uma das mais puras que tivemos.

Gratidão, meu irmão, por tudo que nos ensinaste, por teu exemplo de fé, coragem e amor. Que agora, na eternidade, tu possas celebrar a Páscoa definitiva, na alegria do Senhor.


J. A. Galiani

 

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Irmã Querubina, a Rocha da Esperança!

    Em tempos em que a esperança parece ser artigo de luxo, há pessoas que a carregam como se fosse bagagem leve, essencial, diária. Assim era Irmã Querubina, Filha de São José do Caburlotto, uma dessas almas raras que caminham pela terra deixando rastros de luz onde só havia lama.



Conheci Irmã Querubina em meio ao caos que se tornava rotina: enchentes frequentes nos arredores do Rio Aricanduva, ali pelos territórios da Paróquia São João Batista, na Vila Carrão. Um cenário desolador — ruas submersas, móveis encharcados, cadernos boiando em águas barrentas, e junto de tudo isso, um povo cansado. Mas bastava olhar para ela, de pé entre as perdas, para lembrar que recomeçar era possível.

    Ela não vinha com promessas vazias. Vinha com as mangas arregaçadas e o coração inteiro. Era como aquela manhã em que as mulheres encontraram a pedra removida do sepulcro — um espanto silencioso e santo. Irmã Querubina também removia pedras: as da desesperança, da indiferença, da desistência.

Movida por uma educação que brotava do coração  e apenas do coração, ela arrebanhava as crianças como quem junta flores num jardim escondido. Chamava cada uma pelo nome. Um nome, um mundo. Tinha a alma grande o suficiente para acolher todos esses mundos. E era isso que fazia: acolhia, incentivava, acreditava.

    Seu vínculo com a comunidade era como se ela tivesse sido semeada ali. Sabia estar em comunhão com as pastorais, com o Pároco, com cada fiel que encontrava no caminho. Era uma presença que gerava ação, uma simbiose de fé e serviço, que dava frutos na evangelização e no cuidado com os mais vulneráveis.

    Nas celebrações da novena de São José, ela estava lá como presença firme, serena, viva. A piedade fervorosa daquelas noites ganhava brilho com a doçura de seu sorriso e com a leveza com que conduzia tudo à glória de Deus. Não havia nela nada de grandioso no sentido mundano, mas tudo de sublime no sentido do Reino.

    E era impossível não se contagiar com seu humor sereno, com sua alegria que não ignorava a dor, mas a transformava. Como se dissesse: “Sim, dói, mas vamos em frente. Deus está aqui.”

    Hoje, ao lembrar de Irmã Querubina, não posso evitar a imagem de alguém que andou de mãos dadas com o Ressuscitado alguém que olhava a lama e via possibilidade, que enfrentava enchentes e via oportunidade de recomeço.

    Ela não só testemunhou a fé. Ela foi fé em forma de gente. Uma verdadeira Filha de São José, aquele carpinteiro silencioso e justo, que constrói mesmo no escuro, que protege mesmo no anonimato.

    Fica aqui meu tributo, não como encerramento, mas como eco. Porque Irmã Querubina continua no nome que ela nunca esquecia de chamar, nas mãos que ela segurava, nas lições que ela plantou em terra molhada.

Obrigada, Irmã Querubina. 

Sua vida foi Evangelho vivido e jamais se perderá.

Galiani. J. A.

quarta-feira, 14 de maio de 2025

75 anos: chamas que não se apagam!

     Na história da humanidade, há nomes que o tempo não apaga. Não por causa das grandes conquistas materiais, mas porque tocaram almas, reacenderam esperanças e mostraram o que significa viver com sentido. Entre esses nomes, brilham com doçura e firmeza os de Santas Bartolomea Capitanio e Vicenza Gerosa.

     Num mundo que parecia mergulhado na indiferença, elas ousaram cuidar. Ousaram amar. Ousaram educar. Não com discursos eloquentes, mas com gestos concretos de misericórdia, coragem e compromisso. Nas escolas, com os enfermos, levantaram caídos e reacenderam o valor de cada pessoa. Em suas mãos, a fé se tornou ação, e o amor ganhou a forma de serviço.
Hoje, tantos anos depois, o cenário mudou, mas o desafio permanece: educar com sentido, formar corações, preparar mentes e construir pontes. E aqui está você, comunidade educativa, herdeira desse legado que é chama viva.
     Num tempo em que a pressa atropela o diálogo, em que as telas substituem os olhos nos olhos, e o imediatismo tenta roubar o valor do processo, sua missão continua sagrada. Cada aula ministrada, cada escuta atenta, cada gesto de paciência é uma semente do Reino plantada com fé.
     Pode ser que, às vezes, o cansaço bata à porta. Que os frutos demorem a aparecer. Que o mundo diga que educar já não vale tanto. Mas lembre-se: vocês são continuadores de uma obra que nasceu no coração de Deus e se concretizou nas mãos generosas de Bartolomea e Vicenza.
Elas não recuaram. E hoje, vocês também são chamados a não recuar.
     Que esta comemoração não seja apenas memória, mas combustível. Que inspire, anime e renove. Porque onde há educadores apaixonados, há esperança. E onde há esperança, Deus continua escrevendo sua história.
José A Galiani 

sábado, 10 de maio de 2025

Crônica: O Silêncio Que Chama



 No quarto de hospital, com sua luz pálida e o tilintar constante dos aparelhos, guarda agora o tempo — ou o fim dele. Lá está ela. O corpo já cansado, os olhos que se fecham mais do que se abrem, e, no entanto, ainda é MÃE. Com todas as letras, com todo o peso e grandeza que esse título carrega.
São 87 anos de estrada. Quatro filhos, tantos netos, uma geração inteira moldada por suas mãos firmes e coração largo. Foi abrigo, colo, conselho, silêncio acolhedor. Esteve presente em cada febre, em cada queda, em cada medo que os filhos não sabiam explicar. Fez-se comida, fez-se oração, fez-se chão firme quando o mundo desabava.

Hoje, é ela quem jaz quieta, envolta por lençóis e pela sombra do inevitável. E mesmo assim, é ela quem cuida. Cuida com o olhar vago que reconhece ou não quem entra, com as mãos amarradas e com o silêncio que clama: “Estou aqui. E você?”

Porque há uma verdade que a vida grita e poucos querem ouvir: um pai — e mais ainda, uma mãe — cuida de dez filhos, mas nem sempre dez filhos cuidam de um pai ou de uma mãe. Não por maldade. Por pressa, por distração, por omissão , por estar muito ocupado, por morar longe, por ter lembranças de seu sofrimento passado, por não conseguir visitá -la por aquele engano moderno de achar que o tempo é eterno e que os nossos esperam.

Mas mãe não espera. Mãe sente. Sente quando falta, sente quando há distância. E quando o fim se aproxima, o que ela mais precisa é do que sempre ofereceu: presença. Não se trata de curar, pois o corpo já se rendeu. Trata-se de estar. De retribuir a vigília, os anos de renúncia, os silêncios engolidos, os sonhos adiados pelos filhos. Trata-se de dar o tempo que ela deu.

Ela, que atravessou noites e madrugadas por febres e choros, agora precisa apenas da companhia de quem gerou. Não se exige heroísmo, apenas que se esteja ali. Porque amor não se mede em gestos grandiosos, mas em presença. No sentar ao lado, no segurar a mão, no dizer “obrigado” — mesmo que tarde.

O tempo dela, agora, corre diferente. E cada segundo junto é uma prece silenciosa, uma dívida que não se cobra, mas se espera que seja quitada com o coração.

Hoje, diante dela, o chamado não é para cuidar — é para estar. Pois só quem esteve a vida inteira ao lado dos seus pode, no final, pedir: “Fiquem comigo”.

E isso, só uma mãe pode fazer.



Obrigado mãe, por ser a minha mãe!

José A Galiani

segunda-feira, 28 de abril de 2025

Três Sacramentos, Uma Só Missão

Hoje, enquanto o calendário me sussurra memórias antigas, celebro dois aniversários que se entrelaçam na alma: há 62 anos, fui marcado pelo Batismo, e há 36, recebi o Sacramento da Ordem. A vida, em sua sabedoria escondida, acrescentou ainda outro dom: o Matrimônio, que abracei há 29 anos depois da dispensa do celibato, sem jamais abandonar a essência da vocação primeira — ser cristão.

Cada Sacramento desenhou em mim uma história de amor com Deus e com a Igreja Católica Apostólica Romana, onde o Batismo "nos faz renascer da água e do Espírito" (cf. Jo 3,5) e nos incorpora à comunhão dos santos, colocando em nossos lábios o primeiro "Amém" de uma jornada eterna.

O Sacramento da Ordem, por sua vez, gravou no coração uma marca indelével. Como lembra São Paulo a Timóteo: "Reaviva o dom de Deus que recebeste pela imposição das minhas mãos" (2Tm 1,6). O ministério, mais do que funções ou títulos, é serviço; é tornar visível o invisível amor do Pastor Eterno. Vivi, servi, preguei e abençoei — não como quem domina, mas como quem lava os pés.

Quando, pela graça e pela necessidade da vida, recebi a dispensa do celibato e me entreguei ao Matrimônio, a promessa batismal e sacerdotal não se apagou. Antes, encontrou novo terreno para florescer. Como diz o Gênesis: "Não é bom que o homem esteja só" (Gn 2,18), e no sacramento do amor conjugal descobri um altar diferente, onde Cristo também se faz presente: na partilha dos dias, nas lutas, nas esperanças que a vida comum cultiva.

A tradição da Igreja ensina que os Sacramentos são sinais eficazes da graça (Catecismo da Igreja Católica, 1131). Mas hoje compreendo: todos eles convergem para algo mais antigo e mais profundo do que a própria história dos homens — a missão de ser cristão. Porque, antes de sermos padres, esposos ou batizados, somos discípulos. E ser discípulo é seguir Aquele que disse: "Ide e fazei discípulos de todas as nações" (Mt 28,19).

Batismo, Ordem, Matrimônio: três caminhos distintos, três luzes que iluminam o mesmo horizonte. O essencial não é a veste que se usa, nem o rito que se celebra. O essencial é ser de Cristo. É viver Nele, por Ele e para Ele.

Hoje, ao recordar minhas datas sagradas, reconheço com gratidão que a grande Missão continua — e ela é simples, como o Evangelho: amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmo (cf. Mt 22,37-39).

O tempo passa, os ministérios podem mudar, as circunstâncias se transformam, mas o chamado de Jesus ecoa firme: "Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós" (Jo 15,4).


E assim sigo, na alegria de ser, acima de tudo, cristão.


sábado, 22 de fevereiro de 2025

Tributo ao PADRE FRANCISCO COSTETTI NETO, SAC

        Um sacerdote é sempre a presença de Deus para as pessoas. Não se trata de divinizar o padre, mas de reconhecer que ele foi chamado por Deus para servir à Igreja, especialmente entre aqueles que mais necessitam.



        Padre Francisco exerceu seu ministério em diversas comunidades, mas foi na Paróquia Santo Antônio de Lisboa, da Arquidiocese de São Paulo – então Setor Carrão-Formosa, hoje Decanato São Lucas, da Região Episcopal Belém – que tive o privilégio de me tornar "um necessitado" e por ele ser acolhido. Enquanto alguns confrades me fecharam as portas – e eu respeitei suas razões – ele me recebeu, apoiou-me e, inclusive, ajudou-me financeiramente. Em momentos de descontração, na padaria Suil, compartilhávamos experiências de vida entre uma conversa e uma cerveja. Sempre misericordioso e com a cabeça erguida, dentro de seus próprios limites e fragilidades, orientava-me, sugeria soluções e apontava caminhos para a reconstrução da minha história. Era mais que um padre; era um homem humano, consciente da nobre missão que assumira na Igreja, mas liberto de chavões e rótulos preconceituosos que, tantas vezes, causam divisões e afastamentos.

        Suas celebrações eram dinâmicas e promoviam a participação ativa dos leigos em sua paróquia. Em um período de transição entre uma liturgia ortodoxa e novas possibilidades rituais que aproximavam a assembleia de Deus, sua homilia cativava e evangelizava. Ele proporcionava uma verdadeira catequese, tornando cada missa um momento de aprendizado e encontro com a fé.

        Naquele tempo, em que eu reiniciava minha trajetória social, religiosa e profissional, foi ele, entre tantos padres amigos, quem me acolheu. O simples fato de me dizer: "Fiquei feliz que você escolheu participar da Santo Antônio" soou como o abraço do Pai ao filho pródigo. Quanta humanidade!

        Na Paróquia Santo Antônio, tive a oportunidade de palestrar para pais e padrinhos, em encontros de casais e de jovens do Grupo Fé. Quando era a vez do padre falar sobre os Sacramentos no curso de noivos, ele me convidava a substituí-lo. Era um privilégio, pois, tradicionalmente, alguns temas eram exclusivos do sacerdote. Contudo, com espírito conciliar, ele promovia uma comunidade mais participativa, afastando a ideia de que tudo deveria ser centralizado no padre.

        Sempre modesto no vestir, seus paramentos litúrgicos dispensavam pompa. Muitas pessoas pobres e em situação de vulnerabilidade encontraram nele apoio, refúgio, conforto e consolo. Confessar-se com ele era uma verdadeira graça: um reencontro com Deus e com a comunidade. Sua capacidade de se anular para que o pecador renascesse era impressionante. Obrigado, meu irmão, por tantas vezes ter ouvido meus pecados e me oportunizado o perdão divino. Foram tempos difíceis, mas, como sempre dizia, "a graça de Deus é superabundante".

        Quando soube do meu relacionamento com aquela que hoje é minha esposa, nos abraçou e desejou a bênção de Deus. Alguns confrades insinuavam que Ana estava grávida. Ele, com sua sabedoria isenta de julgamentos – característica marcante de sua personalidade – a procurou para esclarecer os rumores. Assim recorda Ana: "Lembro dele me chamando para conversar. 'Aninha, você está grávida?' 'Não!', respondi. 'Eu acredito em você! Seja vitoriosa!'." Mais do que desejar nossa vitória, ele nos ajudou a construí-la.

        Nem todos os confrades o conheciam, o que é inadmissível, pois, em uma família, todos se reconhecem. No entanto, na vida religiosa, assim como na história bíblica de Caim e Abel, também há incompreensão e críticas. Mesmo assim, Padre Francisco mantinha sua espiritualidade e visão pastoral sempre alinhadas à de Jesus: "Vem para o meio" (Mc 3, 3-4).

        Padre Francisco sempre veio ao nosso encontro. Certa vez, passando rapidamente por Martinópolis, a caminho de São Paulo, ele celebrava missa no hospital. Da porta da sacristia, acenamos e lhe enviamos um beijo. Ele, que já estava sentado para a Liturgia da Palavra, levantou-se e veio ao nosso encontro. Foi um dos abraços mais significativos que recebemos, um verdadeiro alimento para a alma, que nos fortaleceu para seguirmos nossa jornada.

        Padre Francisco, nós te amamos e sempre amaremos. Prepara um lugar para nós junto de Deus, e, enquanto aqui estivermos, queremos ser e agir conforme nos ensinaste. Gratidão, meu irmão!

                                                                    Pres. Prudente, SP - 22/02/2025

                                                                                                                    José A. Galiani

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

O FINGIMENTO

 O fingimento da bondade é a mais perigosa das maldades.

        Recentemente, li a frase que dá título a esta pequena crônica. Por escolha, sou um bom ouvinte de situações das mais diversas, muitas que envolvem mãe e filha, as quais, muitas vezes, carregam décadas de desencontros. Por isso, ouso, com este texto, contribuir para a reflexão e a superação da competição que, não raramente, ocorre entre mães e filhas.        

        Desde pequena, Clara percebia que sua relação com a mãe era diferente da dos seus amigos. Enquanto outras mães elogiavam e incentivavam, a dela parecia sempre medir forças. Quando alguém dizia: “Que menina linda!”, a mãe logo completava: “Puxou a mim, claro.” Se Clara aparecia com um vestido novo, a mãe vestia um mais chamativo. Se arrumava o cabelo de um jeito diferente, a mãe corria para o espelho e fazia igual – ou melhor.

        O problema era que Clara não queria competir. Queria carinho, queria apoio, queria que sua mãe se orgulhasse dela sem precisar se sentir ameaçada. Mas bastava que ela recebesse um olhar a mais, um elogio sincero, para ver os olhos da mãe se tornarem duros e frios. “Você se acha especial demais, não é?”, dizia, sempre com um sorriso enviesado, carregado de algo que Clara não sabia nomear na infância, mas que, depois, entendeu ser inveja.

        Namorar? Nem pensar. A mãe encontrava defeitos em qualquer rapaz que se aproximasse. “Ele não está à sua altura”, dizia, mas o tom não era de proteção, e sim de desdém. E, se por acaso alguém lhe dirigia um olhar de interesse, a mãe rapidamente se colocava entre os dois, como se quisesse absorver toda a atenção para si.

        As conquistas de Clara também eram recebidas com desdém. “Conseguiu aquele emprego? Espero que não ache que isso significa alguma coisa, porque no meu tempo era muito mais difícil.” Tudo que ela fazia era diminuído, rebaixado, como se o sucesso da filha representasse uma ameaça pessoal.

        Levaram anos para Clara entender que sua mãe não a via como filha, mas como rival. Que por trás dos conselhos severos e das críticas constantes, havia um medo silencioso. MÃE precisa SER MÃE, NÃO TEM A NECESSIDADE DE FINGIR QUE AMA A FILHA!!!

        Uma relação de competição entre mãe e filha pode gerar ressentimentos e desgastes emocionais, mas há maneiras de transformar essa dinâmica em algo mais saudável. Aqui estão alguns argumentos e estratégias para ajudá-las a superar esse conflito:

1. Reconhecimento da Individualidade

          Cada uma tem sua própria trajetória, talentos e desafios. Comparações são injustas porque cada pessoa tem um conjunto único de experiências e habilidades. Em vez de competir, é essencial reconhecer e valorizar as conquistas individuais.

2. Mudança de Perspectiva: De Rivais para Aliadas

        Mãe e filha não precisam competir; podem se apoiar mutuamente. Quando uma cresce e se desenvolve, isso pode ser motivo de orgulho e não de ameaça. Apoiar-se significa crescer juntas, não em oposição.

3. Fortalecimento da Comunicação

        Muitas rivalidades surgem por falta de diálogo aberto e honesto. Expressar sentimentos sem medo de julgamento pode evitar mal-entendidos e aliviar tensões. Usar frases como “eu sinto que...” ajuda a evitar tom acusatório.

4. Reconhecimento e Cura de Feridas do Passado

        Conflitos antigos podem alimentar a competição. Trabalhar o perdão e compreender que ambas erram e acertam pode ajudar a construir uma relação mais equilibrada. Terapia familiar pode ser um bom caminho se as mágoas forem profundas.

5. Celebrar Conquistas em Conjunto

        Ao invés de enxergar o sucesso da outra como uma derrota pessoal, aprender a comemorar as vitórias mútuas fortalece o vínculo. Pequenos gestos de reconhecimento podem mudar a dinâmica da relação.

6. Estabelecer Limites Saudáveis

        Cada uma deve ter espaço para viver sua vida sem interferências excessivas. Respeitar as escolhas da outra é fundamental para evitar comparações desnecessárias e ressentimentos.

7. Trabalhar a Autoestima e a Segurança Emocional

        Muitas competições vêm de inseguranças individuais. Trabalhar a autoconfiança pode reduzir a necessidade de validação externa e evitar rivalidades desnecessárias.

        Se mãe e filha conseguirem substituir a competição pela parceria, podem transformar a relação em algo muito mais forte e significativo.


José A. Galiani (Pedagogo, Teólogo, Filósofo)

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